Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

O engenheiro, o porteiro e uma ufanista inocente

– Gosto de ver vocês, assim – disse Dona Viviane, a moradora do 301, ao passar por Devair e Claudio: um, o engenheiro que morava no 402; o outro, o porteiro do prédio. Viviane tinha dessas: gostava de pensar o Brasil como um paraíso no qual não havia vez para preconceitos. O mero fato de um engenheiro e um porteiro trocarem algumas palavras na entrada do edifício já fortalecia a tese da ufanista mulher: o Brasil é um país inclusivo. Um negro e um loiro proseando livremente, ambos muito à vontade entre si.
 
Os dois homens sorriram para Dona Viviane, mas nada lhe responderam. Isso não a impediu de prosseguir:
 
– Estão acompanhando essas notícias da Europa? Crise de refugiados, racismo, preconceito de tudo o que é tipo. Não, não... Isso está tudo muito errado. O Brasil é que é bom. E você – apontou para um dos rapazes –, você está de parabéns por deixar a vida do crime para trás. O ganho pode ser rápido, mas a queda também é, você viu isso. Parabéns por recomeçar a vida depois de ser preso. Agora, se me dão licença, vou comprar meu pãozinho. Volto já, rapazes!
 
Os dois pareceram aliviados com a retirada da falastrona moradora, especialmente pela menção ao passado do ex-presidiário.
 
– Sobre o que falávamos mesmo? – perguntou o engenheiro.

– Não me lembro – sorriu o porteiro.
 
O engenheiro esperava por sua mulher. Não podia entrar em casa, pois havia esquecido a chave no trabalho.
 
– Será que sua esposa vai demorar? – perguntou o porteiro, tentando romper o constrangimento que se fez notar após a saída de Dona Viviane.

– Acho que não. Deve estar no caminho.
 
Mais um tempo se passou, e o ex-presidiário resolveu quebrar o novo silêncio que se formara:
 
– Foram anos difíceis.

– Quais anos? – perguntou o outro, embora soubesse muito bem qual era a referência.

– Na prisão. Perdi muita coisa. Fico feliz por ter reiniciado minha vida, mas o tempo passado ali dentro... Esse não volta mais.

– O que passou, passou. Você não precisa ficar falando sobre esse assunto.

– Mas é bom falar, até para que isso não vire tabu. Não tenho nada com o que me envergonhar. Errei, errei, mas já paguei o que tinha que pagar com a justiça.

– Não apenas não tem com o que se envergonhar como tem muito com o que se orgulhar. São poucos os que conseguem recomeçar depois de postos em liberdade.

– É verdade, é verdade.

– Você é uma grande exceção!
 
Antes que houvesse uma resposta, Dona Viviane já voltava da padaria. Vinha tranquilamente mastigando um pedaço de pão, enquanto com a outra das mãos trazia uma sacola cheia.
 
– Cena linda lá no campinho de futebol – disse a mulher, para desânimo dos outros dois. – Um garoto loirinho, bem branquinho, parecia um finlandês, jogando bola com um negrinho. Poderiam ser os filhos de vocês! – Ela riu sozinha. – Ah, o Brasil é um país encantador. Quero ver um branquelo jogando basquete com um negão, nos Estados Unidos. Só no Brasil, país de toda gente.
 
Para alívio do engenheiro e do porteiro, Dona Viviane não se prolongou e tomou logo o elevador para o terceiro andar.
 
– Posso te fazer uma pergunta?

– Claro – disse o ex-presidiário, olhando curioso para seu interlocutor.

– É um pouco indiscreta. É ainda sobre esse lance de prisão.

– Não tem assunto tabu comigo, não. Faça lá.

– Você ainda sente muito preconceito?

– Claro – o homem respondeu convictamente. – Até porque, como você bem vê, não tento esconder de ninguém o meu passado. Mas quem eu quero que aceite, me aceita. Minha mãe, minha filha, minha esposa. São elas que importam para mim. Aliás, por falar nelas, as duas vêm chegando!
 
Uma mulher e uma criança negras entraram no edifício. O homem, com um imenso sorriso estampado, beijou-as e tornou a se virar para o porteiro:
 
– O maior preconceito, se você quer saber, é no meu trabalho. Quantos engenheiros ex-presidiários você conhece?
 
O porteiro sacudiu a cabeça e viu a família se afastando rumo ao corredor dos elevadores. História inspiradora, murmurou, sozinho na recepção do prédio, enquanto encarava pensativamente seus cachos loiros no reflexo do vidro da portaria.
Marcelo Maio
Enviado por Marcelo Maio em 18/04/2017
Reeditado em 24/11/2017
Código do texto: T5974037
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

Comentários

Sobre o autor
Marcelo Maio
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 33 anos
162 textos (3879 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 13/12/19 08:08)
Marcelo Maio