Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Amar em Sintra

I

Após passar o túnel, não, não é o túnel da Mancha, o comboio abranda, é hora de sair não correndo o risco de adormecer profundamente e fazer o caminho de volta, como já lhe tinha acontecido algumas vezes.

- Eh pá, vê se acordas, diz o revisor - dando uma carolada no jovem de cabelo bem curto que cochilava na última carruagem.

E após o salto, e os risos dos outros passageiros, lá saltou dali para fora. Olhou para trás e lá estava o revisor, de barriga grande, ria-se a bandeiras despregadas.

Era tempo de seguir, o frio bateu-lhe forte na cara, olhou para cima e viu a Serra de perto, olhou em frente e passou a Estação. À sua esquerda estavam alguns casais a entrar num prédio um pouco velho, ajeitou os óculos para ver melhor, era a Conservatória, a de música? Ah pois... passou uma velhota e disse que para se casarem,
sorriu e ignorou o que não lhe apetecia fazia muito tempo, compromissos.

E agora, esquerda ou direita?

Espreguiçou-se, elevou os braços lá no alto, perante o sorriso de duas inglesas com ar de loucas que passeavam por ali, com aquelas t-shirts pelo umbigo, algo que o fez apertar o casaco... loucas as fulanas com aqueles 10 graus, a humidade, gente doida ... a satisfação dos comerciantes? Ah nem por isso, ainda se fossem os velhos, esses sim, para eles é tudo barato, e nem sequer eram regalo para a vista.

Se fosse para a esquerda descia, para a direita também.
À esquerda tinha que tropeçar no Apeadeiro, e depois para o largo mais bonito do mundo, hmmm... um bom motivo para fazer o passeio, era então tempo de seguir e lá passou em frente à Conservatória, onde alguns saloios se casavam ao mesmo tempo sorriu, algo o lembrou que tinha feito o mesmo ali, uns anos antes, memórias distantes de um conflito interior resolvido, puxou de um cigarro, tinha-lhe dado para ali, já nem precisava de ter uns copos a mais, apetecia-lhe fumar, já que ao menos ali o ar era puro

- Camafeu de uma figa, sabe-te bem o raio do cirgarro hein? – e andou...

Desceu, passou pelo Apeadeiro e foi dar a um largo, olhou para a esquerda e para a direita, ali já não havia dúvidas, era para a esquerda que iria, até porque ali perto estava um café, queijadas e travesseiros à vista, ah não, não é a Periquita, não me lembro do nome, e ele até me podia ajudar, mas é um antipático, ri-se perante a minha ignorância
e entra no café sorrindo de soslaio.

- Uma bica faz favor, ah e dois travesseiros!

Ah que delícia, que se lixe o nome, até já vos disse qual o caminho: descem, para a esquerda, ao longe está o sentido na Liberdade o parque, mais à frente um pouco mais acima, comes e bebes, pão com chouriço, e outras vulgaridades que sabem bem, no Verão, estava quase de chuva naquele dia, e o homem lá em cima, não estava com grande vontade de servir na esplanada.

Ah pois, ia-me esquecendo dele, ainda está no café a comer o belo do travesseiro e a beber o café sem açúcar, e a contar a vontade para subir a pé até à Pena, por entre frondosas e viçosas árvores quase virgens.

Um sorriso de orelha a orelha saiu-lhe de repente...

...então lá acabou de comer o travesseiro, enquanto fisgava uma loira que passava por ali,  o seu olhar parecia de carneiro mal morto, (pura ilusão, a alma fervilhava de ideias), quantas mudas de roupa lhe havia feito em cinco minutos, quantas passagens de modelo, vestida, despida, qualquer coisa menos como estava, a imaginou...
Veio-lhe à memória o Stripped cantado por uns tarados alemães... aquilo soava-lhe melhor que o original, vá-se lá saber porquê, em Sintra perto do Parque da Liberdade,
com uma loira a devorar desalmadamente um travesseiro ainda quente mesmo à sua frente, a vociferar umas coisas esquisitas em inglês.

Sorriu, pagou e saiu, pelo menos agora com o estômago mais aconchegado, a boca adocicada e a vontade domesticada, pôs pernas ao caminho e seguiu em frente.

Pensava que a morena que havia ficado lá nos subúrbios cinzentos que iam dar a Sintra o descomporia ao vê-lo babar-se feito tarado pela loira avantajada e a praguejar uma língua qualquer, se calhar nem inglês era...

'Ah Irene, não quiseste vir...eh eh eh eh, aqui o Zé vai encontrar uma mulher das cavernas e vai viver para a gruta dela...eh eh eh eh.. é hoje, é hoje !' – e esfregou as mãos de contente, abriu bem os olhos, um casal betinho passou por ele a olhar. Ar de idiotas, de saloios sem saberem onde é o famoso Convento.  'Serei algum freak desfigurado?’ e fez-lhes um gesto com as mãos e rindo feito tresloucado... aproveitou para respirar fundo, uma camioneta com turistas passou ao seu lado esquerdo lançando uma nuvem de fumo - é tramado estar no paraíso e levar com isto mesmo na tromba.

Parou...

Parque da Liberdade, ou seguir já para o Parque da Pena?

A Irene ficou em casa, não tem piada passear nos jardins, andar de braço dado com o nada, se bem que lhe soasse bem aquelas 'ruas' estreitas, aquelas escadarias de terra um mero pedaço de paraíso.

Olhou para frente e viu um pedaço do Museu do Brinquedo

- Ena pá, o action man e a barbie em acção - só lhe vinham ideias parvas e jogos perversos à cabeça… e assim de repente sentiu uma mão, uma mão macia

'Ena, uma mão, uma mão mesmo macia, macia, macia!!!' - em voz alta e tudo!

Quem o entenderia, eram só ingleses por ali, o clima fazia-os lembrar a velha Albion, só faltava o Big Ben, melhor, mais à frente várias Periquitas para lhes satisfazer o gozo de comer travesseiros, ai a doçura da vida de Sintra ...voltando à mão...

(tinha que apicantar isto... o frio começava a tolher-lhe os movimentos e depois como era?)

A mão já a conhecia de algum lado, fazia-o lembrar uma mão que conhecera em Mafra. Era a Sandra de Mafra, do Sobral da Abelheira, não, não era nenhuma abelhuda, apenas uma daquelas mulheres que não se esquecem nunca. O engraçado é que pelos vistos, ela também não o esquecera.

Ai o amor ardente, Sintra e os amantes… algo era preciso fazer para aquecer o ambiente, que haveria de melhor que o reencontro de dois amantes fogosos?

E sempre havia um Hotel ali bem perto, e uma Igreja para confessar os pecados da carne, do tesão e da provocação...

- 'Olá Zé … lembras-te?'

... sorriu, um sorriso famoso, tinha pensado segurar o sorriso, mas não havia dinheiro que o convencesse, ou prémio que aguentasse, ou loucura que o motivasse.

Virou-se …

'Lembro-me' e beijou-a, entrelaçou os lábios frios, na boca macia dela...

Quem falou em frio? Ficaram assim uns minutos.

Não fossem os outro humanos em triste passeio e lembrar-se-iam de despir os preconceitos ausentes do passado, e dar-se-ia algo de esplendoroso, libertário, a combinar com o Parque que havia ficado para trás...

Não, descansem que não me perdi... lá porque não conheço os nomes das ruas consigo imaginar cada passo que ele deu, sem investigar nada, sem pensar com pormenores...

Quando as suas bocas se separaram, pensaram num vinho tinto, num chouriço assado (que gaita, ainda agora tinha comido um travesseiro...), em pão e azeitonas, (esperem... isto é Sintra não Alentejo... mas não faz mal) e em subirem à Pena, ou talvez se ficassem pelo caminho e fossem ao Convento dos Capuchos onde conheciam um recanto, uma árvore caída (não...não... essa árvore está lá mais para os lados do Palácio da Pena) onde haviam feito juras de amor eterno, ali mesmo num dia de chuva, frio e vento, coisas loucas de miúdos e não eram eles ainda miúdos?

Após a passagem gloriosa pelos lados do Museu do Brinquedo...  que raios nunca lá entrara,  nunca saciara a vontade de ver o que aquilo tinha lá dentro, seriam as pistas de automóveis ou os campeonatos de caricas?

E... quem liga a isso?  Os eruditos gostam mais de nos impingir outros brinquedos, coisas menos convencionais, e se as caricas fossem parte do museu dos brinquedos? Quantos não foram os campeonatos de caricas que ele fizera na escola, na rua, onde calhava?

Agora que ia acompanhado, pela Sandra cabeluda, sedosa, macia, voz doce e boca gulosa, os travesseiros, as queijadas e os fofos… o colesterol que se lixe, os diabetes vão para o galheiro!

E ele não era o pior dos doces? O mais violentamente doce? Ela sempre o achara assim.
Ele então já conjecturava loucuras na árvore caída, mas, porra, estava frio, as nuvens negras, o nevoeiro, a cacimba caía entranhando-se no corpo arrepiado, não foi isso que o impediu de lhe dar a mão.

Seria um sonho, Sintra, a Sandra... e o raio da Irene? Tinha passado à história, tivesse vindo, nem o pedido de casamento tinha aceite… que se lixe, mais vale a Sandra doida, e até já nem sonhava com ela. Agora que a revira, ainda para mais perto do Parque da Liberdade, sentira o coração a revigorar-se de novo, a loucura a subir-lhe de vez à cabeça.

Sentia-se bem o moço, apeteceu-lhe outro travesseiro.

Andaram um pouco, a conversa parecia que estava em dia, a comunhão era total, sem mais nem menos. Passaram umas lojas de artigos para turistas, por mais algumas tias inglesas com o riso britânico empedernido,

- Fuckin’ bastards! – disparou ele...
- Fuck off!  - riu-se ela, só para dizer alguma coisa.

Com um linguado calaram-se os dois, e o senhor polícia olhou. Pois, mas olhou para as pernas da dinamarquesa, afinal 10 graus era calor para ela

- Eh! Olha a loira do travesseiro de há bocado!
- Vê lá oh tarado, queres ir comê-la agora? - disse ela em tom de escárnio pondo-se à frente dele
- Ei, ei, ei, cuidado com essa mãozinha

Seguiram, meio chanfrados e com os totós a olharem

- Esta juventude... está estragada! Ah! ah! ah! ah!

- À direita a Igreja, como se chama a Igreja?
- Que importa isso... estás com ar de quem quer ir à Piriquita
- Periquita...
- Ahn?
- Diz-se Periquita minha maluca...eheheh... e há duas já viste?
- Ena pá! E já viste a quantidade de gente? O Bono está lá dentro a dar autógrafos?
- Se calhar, sabe-se lá, mas inclino-me mais para o Sardet
- O Sarnento? que mau gosto...
- Minha querida, o povo só gosta de sarna para se coçar, para pôr no gira-discos... mas deixa há sempre pior e o povo gosta de Feitiços, eu adoro-os…
- Espera vamos subir, cala-te lá com a tua filosofia barata - e apalpou-o, sorrindo
- Tinha saudades era?
- É!

E lá se foi a primeira Periquita, cheia que nem um ovo,a debitar travesseiros para a loucura do povo que até enregelava, para provar o travesseiro duma piriquita

- Periquita ó palerma de narrador!

Subiram, passaram por mais lojas para turistas, por cafés e outra Periquita cheia, recheada de Periquiteiros, gulosos e travesseiros, haveria vida para além do travesseiro?

De repente ela lembrou-se:

- Vamos descer
- Então, esse ar, prenúncio de piriquitada
- Hmmm, ainda me conheces... mas anda quero ir lá abaixo

E foram, desceram, andaram de lado tal a multidão

- Será que esta gente não trabalha?
- Fala por ti malandro - sorrindo matreira
- Eu estou de férias
- Pois e a Irene?
- Já era... mas…
- Deixa-te de mas… segue…
 
Mas desta vez fez-se silêncio, uma aura de excitação sobrepôs-se e ele percebera onde ela queria ir: Tivoli, não o Teatro, mas o Hotel onde estiveram na noite em que se conheceram, havia quinze anos dos quais doze ficaram esquecidos, não interessa agora porquê...

... mas ele não disse nada, a ideia não era o Tivoli, mas um Solar que abrira uns anos depois de eles seguirem cada um seu caminho, o Solar dos Mouros. Ah os mouros, assaltou-lhe a ideia que podiam fazer o trajecto pedestre até ao Castelo dos Mouros e depois descerem de novo até ao Solar, quanto amor vadio ia naquela cabeça que de oca não tinha assim tanto... mas tudo bem, quando lá chegassem ao Tivoli, ali tão perto afinal, lá se lembraria de lhe dar a volta... as finanças também não estavam nos melhores dias para aventuras rápidas e inconsequentes. Inconsequentes? Mas...

- Sandrinha, tenho uma ideia...

... no fundo ele foi levado pelo impulso dela, pelo aperto de mão sensual (sempre quis imaginar um aperto de mão sensual...) que lhe dizia mais que mil palavras, e a respiração, deixava-o a imaginar os seios naturalmente grandes e bonitos... ai a Sandra que caraças, a loucura que ele julgava perdida para sempre, apareceu-lhe caída do Céu ...

- Ahn? Vamos descer ... vamos, vamos!!!

…que impaciência, que tesão louco tinha aquela mulher, sempre a conhecera assim, embora tivesse outra fama bem diferente com quem não gostava, haja encanto e mel para recordar e talvez por isso o abandono total àquela mulher assim de repente...

- Pára Sandrita... minha querida...
- Hmmm docinho...eheheheh... continuas igual quando algo não te agrada...
- Ei, quem disse que estou desagradado...
- Quem não te conhecer que te compre... diz lá... – sorrindo matreira…

… e virou-se provocadora, pondo-lhe a boca a dois meros centímetros da dele, e se a humidade aumentava no ar, o calor não parava de fazer bater o coração cada vez mais depressa... e ele sorriu... e encontrou a sua língua entrelaçada na dela, trocando salivadoras tentações, algo que lhe fez lembrar ser aquela a verdadeira mulher da sua vida... e reencontrá-la em Sintra? Há coincidências de um raio...

- Conheço um outro sitio ...
- Ah, mas que pensas tu, que eu tinha algum sitio em mente?
- Claro que tens, nada de falar no passado...

...no fim da rua, ele ainda olhou para a direita, de onde tinham vindo, o raio do homem sorria por tudo e por nada e agora tinha motivos cada vez mais interessantes para o fazer...

- Sandra...
- Nem à Igreja queres ir?
- Sabes bem que não, é bonita, mas a minha ideia é outra, aliás, tu baralhaste-me tudo...
- Como sempre... - saiu-lhe uma gargalhada, que lhe deu a ele uma valente nostalgia, apertou-lhe a mão, olhou para ela e de seguida para o céu, quase que imaginava uma pequena aberta, mas não, o nevoeiro lá mais para cima havia de tapar as vistas deliciosas de Sintra.

Seguiram então para a esquerda, logo no primeiro café, uma esplanada com alguns loucos a quererem ser servidos cá fora, o homem explicava que não podia pôr os chouriços a assar que a humidade não deixava pegar o fogo... qual quê... assim de soslaio pareceu-lhe ver a Irene, o coração palpitou, sentiu-se bem pequeno, quis esconder-se, mas ao olhar melhor, apenas se sentiu observado por uma desconhecida, bem bonita por acaso, algo tímida, mas não passou disso mesmo, um mero susto. Mas o medo rondou-lhe o coração, afinal...

A Sandra estava noutra onda e apontava para o coche parado, com o condutor a falar com uma mulher policia que lhe indicava qualquer coisa ininteligível, pela aparência dos dois mais pareciam de família, talvez tio e sobrinha...

- Ei tontinho, desce à Terra... queres andar no coche...
- Não... nem pensar, estou teso moça, vim aqui para me saciar de travesseiros, andar a pé...
- Chato... e fez aquele beicinho que noutros tempos era prenúncio de sexo nos recantos mais mirabolantes...
- Ai, ai, ai... sabes muito... - e sorriu, pôs-lhe o braço pelas costas, deu-lhe uma palmada suave no traseiro e beijou-a.
- Sacaninha, quem te disse que o quero fazer aqui.. já não sou adolescente... nem quero ir presa...
- Estás mais velha, melhor que nunca, mas será que estás assim tão diferente?
- Claro que estou, muito charmosa, linda como podes ver, é vê-los a olhar, parece que nunca viram, que em casa nem cheiram...
- Sem vergonha - e seguiram lado a lado, felizes e contentes, embora ele tivesse o coração palpitante, talvez em demasia...

Passaram as Igrejas, o Tivoli já tinha ficado para trás, o homem do coche entretanto tinha apanhado dois ingleses já velhotes, daqueles que deitam libras, cartões e traveller cheques pelos bolsos, e o frio... que raios, aquela gente não tem frio?

Subiram a rua, nas curvas e contra curvas, num silêncio que até era dourado de tão bem se sentirem um com o outro, passaram por umas lojitas para turistas, nem dava para irem lado a lado. Ele ainda se virou para trás a certificar-se se era mesmo a Irene que estava lá atrás, mas a Sandra depressa lhe tomou a atenção, com aqueles bibelots muito bonitos, que ela adorava, puxando-o para dentro da loja...

- Ok...és uma melga...
- Tão fofo... tão giro... – lá andava ela feita maluquinha a ver os bibelots que ele nunca gostara…
- Pois, pois... vim eu para subir a Serra e ando a ver esta treta... vá lá mexe-te...
- Hmmm... - virou-se para ele e mordiscou-lhe a orelha, e ele excitava-se com aquilo, já haviam uns poucos anos que não lhe mordiscavam a orelha, e ela pôs-lhe as mãos nas calças,
- Tarada... - ele olhou em volta, enquanto ela lhe dava a volta que nem um sino e o sino começava a tocar...
- Está bem... pronto... mas...
- Mas? - e pronto com aquele sorriso ele ficava desarmado, tinham passado uma data de anos e continuava tudo na mesma...

II
Enquanto algumas nuvens se iam embora um certo desconforto tomava conta do povo, das senhoras idosas que pegavam nos netos pela mão, na confusão da feira de São Pedro, num Domingo com os turistas a comer pão com chouriço, desvairados, cegos a pisarem-se por um pedaço daquela iguaria. Lá ao longe vinha a guarda, contentes da vida de bastão na mão para arriar na multidão. Afinal não era todos os dias que se ia impor a ordem naquela zona bucólica, animada pelos comerciantes de rua, de estátuas nuas, pijamas a cinco euros e turistas à porrada pelo chouriço no pão, mais parecia um bando de bêbados daqueles ingleses, só assim se justificava os calções daquelas malucas no Inverno, de chinelos e os gajos de tronco nu. Chiça que só de os ver fiquei com frio, e então lá vinha a guarda, da república, a dançar o cha cha cha, numa reviravolta de chacha sem graça sem piada nenhuma mesmo. Arriar nos ingleses, e a imagem… o que diriam no jornal da noite, com que ar falariam para a jornalista sexy de óculos que apanhava o cabelo e mais apetecia era morder-lhe o pescoço qual vampiro ensandecido.

- Good night Mr. Smith?
- What the fuck…
- Desculpe Senhor isto é uma emissão decente… Sr. Guarda, Sr. Guarda prenda este arruaceiro
- We’ll playing for England! Oooohhhh
- Senhores telespectadores e depois …
- Olha p’ra esta loira…

E chega a guarda, de bastão em punho, cravo na outra mão, ai que bonito, e começam todos a dançar o vira, numa pira, e começa a chover e aparece o Frank Sinatra de Nova Iorque até Sintra, de bengala das profundezas do Inferno com outros mafiosos e lá vão todos satisfeitos para o campo do Sintrense, com uns caddys, jogar golfe nos buracos do campo e umas meninas piradas a lançarem coisinhas para o ar e berrinhos e tal, de micro saia para os espectadores se distraírem da carga policial. Os guardas andam com o tesão da porrada, qualquer coisa lhes serve para andarem à bastonada…

- Prrrrrrriiiiiiiiiimmmmmm!
- Segundo toque malta, vamos para o campo do Sintrense, está lá a Sofia e a Maria e as outras e as roupas curtas e as trutas…

Ei ei ei… mas é Domingo, ou já se esqueceram? As escolas fecham ao Domingo, que falta de respeito pelas tradições e ao longe Dona Maria em seu fato domingueiro trazia os seus novos óculos escuros, ao seu lado o Senhor Tomé com o seu ar de labrego e mãos que gostavam de arriar...

- Eh Maria, deixa o carro  passar, chiça p´rá mulher!
- Oh Tomé, desculpa, querido, desculpa! - e seguia cabisbaixa benzendo-se e batendo sem motivo no pequenito, o Simão.

Mas alguém quer meter a colher entre este marido e esta mulher?

III

Sandra sorriu, pareceu-lhe reconhecer a loira que tinha sido apalpada por um inglês bêbado, haveria algum inglês sóbrio no mundo?  E a polícia nem lhe dava com o bastão, o Comandante apenas sorria com o bastão no ar, a posar para a câmara, despido de vontade de arriar no pacóvio, armado em senhor do primeiro mundo.

- Acho que a conheço – apertando a mão dele numa cumplicidade afinal reencontrada…
- Vamos andando, há ali uma casa de chá, apetece-me mais um chá
- Caramba homem é só comer e beber…
- Vá lá anda lá – riu-se com ela, enquanto passavam pelo Solar dos Mouros de boa memória, tudo parecia fazer sentido

A Casa de Chá estava deserta, e ao olhar para trás pareceu-lhe ver a Irene, talvez o medo do dia seguinte viesse a seguir se por acaso a Sandra não passasse de uma miragem. Porra, tinha de sair dali e a Sandra ficou assustada desatando a correr por ali abaixo aos gritos, alucinados, agudos como se a morte viesse atrás. E ao olhar para trás viu algo medonho a descer dos céus, algo parecido com uma gigantesca onda de poeira a levantar-se cada vez mais no horizonte e os polícias a dispararem por quem calhava. A loira já estava de tronco nu e mordia com fúria inaudita um velhote que tinha ficado ali a assistir divertido à emissão, todos os outros abanavam a cabeça, tomados por algum vírus maléfico que tomara de repente conta do mundo, aquele pedaço do mundo. Seria a Irene que ela teria visto ou algum Anjo da Morte a rondar cada passo seu numa traição sem explicação?

IV

Sem explicação ficou cego, a escuridão tomou o lugar da medonha situação que instantes antes o tinha amedrontado e chorou, chorou perdido que nem uma criança, como se todos os castigos do mundo tivessem caído sobre ele. Alguns segundos depois, sentiu uma língua áspera a lamber-lhe a cara, ronronando como um gato que ele sentia conhecer…

- Meu amigo…
- Devo estar a ficar louco
- Calma, calma tens de raciocinar
- Não entendo…
- Sou o Benjamim

O mundo enlouquecera? Tinha sido apenas uma passeata a Sintra, fugir à rotina do dia a dia de stresse e profusão de mentiras em que se havia tornado a sua vida e agora que caíra na escuridão estava a falar com um gato?

- Vais fazer o que te digo…
- Sandra, Sandra eu vi-a a fugir ela voltou-se e fiquei assim
- Calma, ouve-me…
- Bonito isto, sim senhor!
- Eu zango-me a arranho-te todo se não te calas! Arre gaita!
- Pronto bichano…
- Anda…

Saíram para a rua, o frio desaparecera, o ar tinha deixado de emanar aquela pureza ancestral da Serra de Sintra, o que estava lá fora ele tinha deixado de saber, só o gato o podia guiar, começou a sentir-se enlouquecer… mas ao mesmo tempo ouvia alguém a rir-se, aquele riso maldoso de quem se preparava para fazer alguma coisa má…

- Ei, não ligues que é um Anjo frustrado, segue o teu caminho, faz o que eu te disser e recuperarás a Luz na tua vida, de novo.
- Mas fui castigado?
- Como se houvesse dúvidas… o mundo foi finalmente castigado e nós, os ditos seres irracionais ficamos com a missão de recuperar um humano à nossa escolha
- Porquê eu?
- Cala-te e segue-me
- Como, não vejo nada
- Nem precisas, segue-me

V

Apenas se pedia um pouco mais de paciência, D. Duarte, o futuro mas nunca empossado Rei de Portugal dava autógrafos dentro do seu fato de comendador da Ordem do Vinho Morangueiro. Mas o clube de fãs, todas com cerca de um metro e meio a imitarem a futura Rainha nunca empossada, com três crianças devidamente trajadas

- Viva o Dudu! O nosso rei!!!

cabelos pintados, até as que traziam três rapazes, um deles vinha vestido de menina e o futuro para ele seria sempre distorcido, com os tiques da futura rainha nunca empossada e nem o deixariam entrar no Palacete... ali mesmo ao pé da feira.

Zé e Sandra aproveitaram o rebuliço de loucos que cirandavam naquela improvisada sessão de autógrafos, em que até a jornalista de óculos - ele imaginava-a apenas de óculos, nem queria saber de mais nada, apenas os óculos bastavam para povoar o seu imaginário - se bamboleava à procura do futuro rei nunca empossado, de copo de vinho tinto morangueiro na mão e a debitar inteligência perceptível pela ventania que mudava sempre de direcção. Apenas faltavam ali os placards a indicar quando se deviam rir ou ficar sérios, o clube de fãs ficava indeciso perante o ídolo.

E os polícias faziam fila para comer pão com chouriço, e um grupo de velhas senhoras cantavam, abraçadas num sentido gesto de ternura perante a pouca vontade que os seus filhos tinham em aturá-las. Vinham de uma excursão ao Luso, encharcadas de água mineral até aos ossos, algumas vinham da barriga cheia de uma chanfana que não tinha caído lá muito bem!

- 'Apita ó combóio!' -  mas afinal o que é que esperavam que elas cantassem

- 'A garagem da vizinha' - ia sendo trauteada pelos mancebos vindos do Regimento de Infantaria.... e Sandra deu pulos de alegria, conhecia alguns gajos que mais pareciam uma pipa ambulante. A tropa ia-lhes fazer bem e abraçou alguns.

VI

O destino trouxe-lhe o dom de entender por fim o Benjamim, um gato que tinha emigrado durante o sono para outra dimensão.

- Estou prestes a reencarnar num humano e olha... a tua velha amiga Esfregona - a dócil gata de Zé durante dezasseis anos - vai reencarnar
- Como... diz-me, diz-me o que sabes! Por amor de Deus!
- Não te posso adiantar mais do que isto...
- Mas é sempre assim?
- Quase sempre... mas tu vais viver a tua história de amor
- Sério?
- Esquece a Sandra, não te traz nada de bom, segue o coração da doce Irene
- Mas...
- Segue o conselho deste teu velho amigo, olha para dentro do coração, vê o que tens, deixa-te de ilusões...

VII

De repente, Zé sentiu o calor da sua cama, do seu velho colchão, de dormir perto da janela, do despertador a tocar de nove em nove minutos e de ao Sábado se levantar às duas da tarde, e o melhor de tudo... Irene...

Abriu os olhos... um arrepio soltou-se da sua alma percorrendo-lhe o corpo, a felicidade que o invadiu fê-lo chorar...

- Amor! - doce, tão doce aquela voz, Irene era uma mulher feliz - Que foi! - virando-se para ele, encostando a boca às lágrimas salgadas - Estou aqui meu doce!

Aquele sorriso, fê-lo chorar ainda mais, mas era um chorinho bom, uma alegria infinita que o fez sentir-se o homem mais feliz do mundo!

- Amo-te minha linda!
- Eu também te amo!

Naquela manhã de quinta feira, não foram trabalhar, inventaram uma qualquer doença e fizeram amor como nunca, com uma intensidade brutal, quase selvagem, foi o dia mais feliz das suas curtas vidas.

Nove meses depois, exactamente nove meses depois, em Sintra,  nasceu a Sandra, fruto de um amor sem precedentes e o mundo sorriu por um segundo com a energia positiva que se soltou daquelas três almas em comunhão tão rara!


                                       FIM
Manuel Marques
Enviado por Manuel Marques em 23/08/2007
Reeditado em 30/03/2013
Código do texto: T620601
Classificação de conteúdo: seguro

Copyright © 2007. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Manuel Marques
Espanha, 45 anos
548 textos (59029 leituras)
50 áudios (13973 audições)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 14/12/17 15:59)
Manuel Marques