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O ouro do tolo.

A casa parecia vazia, o portão certamente estava trancado, com corrente e cadeado. Tive de pular o muro para adentrar no imóvel. Confesso que senti medo de ser descoberto. Mas, por sorte, ninguém me viu entrando. Eu estava ali porque precisava roubar uma chave. Não era uma chave qualquer, mas a única chave que podia abrir o cofre que eu havia escamoteado, o cofre com todo o ouro do mundo. Minhas pesquisas haviam me garantido que a chave tinha sido escondida dentro dessa residência. Só que depois de uma busca minuciosa, eu não tinha encontrado absolutamente nada. De repente, ouvi um estrondo vindo da sala do andar superior, imediatamente pensei que havia alguém lá em cima, deduzi que tinha me metido em uma emboscada. Tive de esperar, em silêncio, escondido debaixo da mesa da cozinha. Depois de alguns minutos, percebi que aquele ruído foi causado pelo vento, ou por uma mão invisível. Sou um homem supersticioso, creio em coisas ocultas, misteriosas; mas não é hora de falar sobre isso, o importante é que eu estava sozinho, não havia ninguém na casa. Eu precisava me focar em encontrar a chave, antes que alguém aparecesse. Mas onde ela poderia estar? Como encontrá-la? Segundo minhas informações, ela deveria estar na segunda gaveta da escrivaninha da sala principal. Mas eu já havia vasculhado em todos os lugares, gaveta por gaveta, cômodo por cômodo, tentei imaginar onde alguém a esconderia, fiz uma verdadeira limpa na casa inteira, e nada. Conforme o passar do tempo, comecei a me afligir. Minhas mãos suavam, minhas pernas tremiam, meu coração palpitava, e o medo de ser descoberto em flagrante me agitava o pensamento. Cogitei em abandonar a residência, só que eu tinha medo da chave estar ali, bem debaixo do meu nariz. E se eu for embora e nunca mais conseguir invadir esse esconderijo? pensei. Então decidi procurar um pouco mais, vasculhei os lugares mais imprevisíveis: em cima dos armários, atrás das privadas, pela grama do jardim, dentro da geladeira, etc... Oh! A casa era tão grande, parecia impossível procurar em todos os lugares. Convenci-me, então, de que era preciso ir embora. Indaguei-me se alguém poderia ter sido avisado sobre a minha visita secreta, cheguei à conclusão de que isso era possível. Logo, achei sensato ir cuidar do cofre, pois quem estivesse com a chave certamente iria atrás do tesouro.
Dias passaram, e nada. Ninguém tentou usurpar o cofre de mim. Por outro lado, eu tampouco sabia qual era o verdadeiro esconderijo da chave. Então pensei em uma alternativa. Lembrei-me, que certo dia, informaram na TV que os americanos tinham desenvolvido uma tecnologia capaz de abrir qualquer tipo de cadeado, de cofre, ou porta. Talvez eles pudessem me ajudar. Só que, se eu recorresse ao serviço deles, eu seria obrigado a dividir, meio a meio, todo o meu tesouro. Oh, que merda! Ter de confiar nos americanos!... Não... não... eu não podia fazer isso... e se eles me roubassem?... Além do mais, as passagens para os Estados Unidos estavam caríssimas, o dólar estava nas alturas, e qualquer empresa aérea me cobraria taxas absurdas devido ao peso do cofre; e ainda, dessa forma, inevitavelmente, as autoridades seriam alertadas... Era tudo ou nada, eu não podia contar com o auxilio de ninguém.
Mas, e se eu não conseguisse arrombar sozinho essa fortaleza? E se, na pior das hipóteses, eu tivesse de seguir trabalhando, mesmo tendo uma fortuna escondida comigo? Oh, Meus Deus! Que Destino! Pobre de mim!... Eu me lamentava sem cessar. Eu pensava que não era possível tamanho azar. Só podia ser uma brincadeira dos deuses, eles estavam me pregando uma peça, se divertindo às minhas custas. Como era possível um destino tão cruel? Eu havia, graças a minha perspicácia, conseguido roubar o cofre com todo o ouro do mundo. Mas os deuses, em contrapartida, esconderam a chave de mim.
“Ah! Não é possível, no dia em que roubei o cofre, eu estava seguro de que meus problemas haviam sido resolvidos. Que nada, engano meu. Como eu poderia imaginar que esse é o único cofre do mundo completamente inviolável? Oh merda!... Eu tenho que dar um jeito... Quer dizer... E agora? O que devo fazer?... Ah! Destino Cruel! Merda! Eu te amaldiçôo, Satã! Filho-da-puta! Onde está a maldita chave? Ela tem de estar em algum lugar. Será que eu nunca vou conseguir abrir essa merda? Não faz sentido ser obrigado a trabalhar mesmo sendo dono de todo ouro do mundo. Prefiro a morte!!!... Ah, merda! Sinto que estou começando a delirar, meu sangue está fervendo como um vulcão em ebulição, meu estômago arde, sinto uma pontada bem no meio do meu peito, não estou conseguindo respirar direito, me falta ar. Será que estou morrendo? Era o que me faltava!... Mas não é possível, devo estar no inferno, ou no meu pior pesadelo. Ha Ha Ha. Como eu te odeio, Lúcifer! Mas que dor maldita! Que maldição! Que raiva! Não é possível!... Oh, talvez eu realmente esteja passando mal, minha vista está embaçando, minha cabeça dói, e as pontadas no meu peito estão cada vez mais agudas. Oh, talvez eu tenha mesmo que ligar para à emergência. Como te odeio, vida de merda!”
- Pronto-socorro, em que posso ajudar?
- Socorro, eu estou passando mal, acho que vou morrer...
- De onde o senhor está falando? Qual é o endereço da ocorrência?
- (barulho do impacto do corpo caindo no chão)
- Alô? Senhor? Alô?
- ... ... ... ...


fim.



(afilosofiadopoeta.blogspot.com.br)

Carlos Gadamer
Enviado por Carlos Gadamer em 22/01/2018
Reeditado em 22/01/2018
Código do texto: T6233399
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Carlos Gadamer
Jacareí - São Paulo - Brasil
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