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DEVANEIOS - SONHOS QUEBRADOS

O rádio permanecia ligado desde a noite anterior e lá estava Lúcia, ainda com seu vestido de festa, dormindo, com uma expressão de dor. Quem a vira aquele momento poderia pensar que ela viera de uma farra. Estaria enganado, nem de casa ela saíra ficara esperando uma promessa não comprida. Ao som de belas musicas que mais parecia fúnebre para ela, a jovem se debruçava a chorar, seu soluço de tão alto superava os acordes daquelas canções. Foi enganada, estava indignada e ao mesmo tempo amargurada, queria permanecer naquele quarto até o findar de sua existência, se possível chorando e se lamentando por não ser querida, por não ser amada.

Mas um novo dia havia chegado, e ela ainda permanecia no auge de sua melancolia, a dor que sentia era intensa. Não queria sair daquele quarto. Que sentido sua vida tinha?
Ora, quem a olhava de fora, perambulando como um verdadeiro zumbi, se perguntava:
- Santo Deus! Tudo isso por amor?
A verdade era que não. Aquela noite na verdade foi o estopim para sua queda, um amor não correspondido era o fim para ela, esse amor era na verdade o ultimo fio de esperança que ela estava agarrada há tempos, e este fio havia se rompido naquela noite.
Amigas a perguntavam, o porquê de sua tristeza. Ela não sabia responder, ficava ali, muda.
Aquilo era na verdade uma bola de neve, uma imensa bola de neve, era nisso que sua vida havia se tornado.

Desde menina sonhava em ser professora, queria ser independente, amar e ser amada.
Independente? Seu pai não permitia! Para ele aquilo era um absurdo, uma mulher de uma tradicional família era dependente e submissa, era preciso surra e humilhações para que ela esquecesse daquelas idéias, que só quem tinha eram mulheres desfrutáveis. Com medo das idéias de sua filha, fez a menina abdicar seu sonho de ser professora.
Assim ela cresceu, mãos e pés atados e como seu pai dissera, dependente e submissa, além do mais, desengonçada, igual ao patinho feio.
Mesmo tudo isso lhe fazendo entristecer e se angustiar, encontrava um fio de felicidade em seu ultimo sonho, amar e ser amada.
Já estava amando, então queria somente ser amada. Se não tinha felicidade em casa, poderia procurar fora, em um amor! Quem sabe ele não a tirasse daquele sofrimento. Quem sabe talvez ele não encontrasse no patinho feio uma linda princesa.

De fato ela idealizava um príncipe que a viria resgatar num cavalo branco, igual o das historias que sua mãe lia para ela quando criança.
Coitada! Iludia-se naquele amor platônico, naquele amor irreal. Não queria perceber que estava sonhando.
Fazia desde rascunhos com o nome dele até poemas anônimos. Ainda não queria se revelar, queria esperar o momento certo, não sabia quando iria ser este momento, só sabia que viria. Enquanto isso ficava ali imaginando, mil e um pensamentos passavam por sua cabeça, seus pensamentos eram como cenas de filmes apaixonantes, belos e perfeitos. E a ingênua menina não parava de sonhar. Tão doce era seu desejo, mas tão triste era seu olhar.

Ah o desejo do amor! Tão bem expressado pelo poeta e tão bem interpretado pela donzela.
Por muito esperar, sua chance havia chegado, um baile haveria na escola, era sua única chance.
Meio sem jeito no fim da aula, Lúcia se aproximou bruscamente do jovem, que se demonstrou bastante surpreso. Com aquele seu mesmo olhar tristonho, quase de clemência fez o pedido para que ele fosse o seu par.
Um intenso e doloroso minuto separou a pergunta dela da resposta dele.
O rapaz havia ficado sem jeito, sem saída e encurralado com o olhar de Lúcia, não teve escolha, de seus lábios saíram a respostas “Sim”.
Um sorriso marcou a expressão dela e um olhar de perplexidade marcou o rosto dos amigos do garoto.
Ele havia ficado louco? Fizera isso por pena, ou porque gostava dela?
Perguntava uns ao outros.
Lúcia não queria saber, aquele havia sido o melhor dia de sua vida, sua vida que sempre era marcada por derrotas, era então marcada por uma vitória. Como era gostoso o famoso sabor da vitória, que ela estava provando pela primeira vez, sabor que a fazia vibrar e pular por dentro.
Despediu-se do garoto com um atrevido beijo e seguiu correndo para casa, correndo como uma criança ao ganhar um belo presente.
O baile iria começar às nove da noite, mas o combinado com ele era ás oito. Mesmo ainda sendo de manhã ela fez questão de se preparar desde já. Afinal tinha que estar impecável, não podia fazer feio, não foi difícil escolher qual vestido usar, tinha poucos, mas um era especial, havia comprado há um bom tempo e separado para aquele momento. O vestido ainda estava no embrulho e não tinha nada de especial para quem via, mas para ela, vestido mais belo não havia.

Muito antes do combinado ela já estava pronta, desde então aguardava ansiosa pela janela de seu quarto a chegada dele.
O tempo ia passando e a chegada do momento tão esperado se aproximava cada vez mais, a menina já não continha seu nervosismo misturado com entusiasmo, quanto mais o tempo passava, mas seu semblante modificava-se, dando lugar a uma expressão preocupada e desesperadora.
O horário combinado já havia passado, mas ela não perdia a esperança, pensava “Ele deve estar atrasado, a qualquer momento pode aparecer”. E ela se agarrava a esse pensamento, tornando quase uma prece, até então jamais havia passado o pensamento de abandono, de promessa não cumprida. Afinal ele havia falado “Sim” para ela, ele se importava com ela, não iria faltar neste momento... Mas faltou!

Horas já haviam se passado e já desiludida ela permanecia na mesma janela, desta vez chorando baixinho, um choro acompanhado de um soluço quase interrupto, chorava como uma criança, seu sonho havia se desmanchado, mas lutava e relutava para não acreditar naquilo.
Todos em sua casa já dormiam, após descer as escadas, e abrir a porta ela vai em direção a rua, sua maquiagem já borrada pelo choro, seu vestido amarrotado e seu cabelo despenteado lhe deixava da mesma forma que sentia sobre si mesma: Um lixo.
Parada, olhando pro nada pela pensava em tudo que estava sentindo.
Por um minuto seu olhar desvia-se para um carro que ali passava, que para sua surpresa era ele, mas seu carro não parou. Estava acompanhado por amigos e moças bonitas. Seus amigos não perderam a oportunidade, começaram a rir da pobre garota e de seu estado. Para eles, ela naquele momento não passava de uma aberração, não queriam saber o porquê do estado dela, não se importavam, só davam risada e apontavam seus dedos. O carro então desapareceu entre na neblina que se formava naquela fria noite.
“Tola!” ela repetia para si mesma entrando em sua casa. Havia sido humilhada, tinha perdido seu chão, se sentia um lixo, um nada, não era e nunca foi amada. Entrou então em seu quarto, o rádio inda estava ligado, ao som de belas musicas que mais parecia fúnebre para ela, a jovem se debruçou a chorar, seu soluço de tão alto superava os acordes daquelas canções.

Nunca havia sido mais a mesma, se existia um pequeno sorriso em seu rosto, este havia sido apagado. Ora, o patinho feio não havia se transformado em cisne, continuava um patinho, feio. O príncipe não havia lhe regatado, estava ali, condenada a masmorra do sofrimento, condenada a passar o resto de sua vida peregrinando atrás de algo que agora nem sabia o que era mais, não tinha um objetivo, não tinha um sonho, ela vinha tentando sobreviver a anos por causa de seus sonhos, pensava que tudo aquilo iria mudar, havia se enganado.
O pouco de amigos que tinha afastaram-se dela, seus parentes julgaram seu estado como vegetativo, era esperar pelo pior.
Todos os finais de tarde se podia escutar um barulhinho vindo do quarto de Lúcia, era seu choro, choro que era a sua única válvula de escape a partir daquele dia que tudo havia desmoronado em sua vida, um choro angustiante para quem escutava, ainda mais angustiante para ela. E assim ela sobrevivia.

Certo dia, deitada em sua cama, como era de costume, Lúcia começou a pensar em tudo que lhe aconteceu em sua vida, desde as surras de seu pai até a humilhação na noite do baile.
Recordar aquilo tudo não era agradável, mas era preciso. Ela então começou a pensar:
“Porque havia se rendido às surras e humilhações de seu pai?” – Poderia muito bem não ter desistido de seu sonho de independência, iria sofrer bastante, mas a recompensa seria inestimável.
“Porque havia continuado tão submissa e dependente, dependente de um amor que nem sabia se era correspondido?” – Não devia ter se agarrado a aquele fio de esperança, pois o amor é como uma loteria, ela poderia amar, mas poderia não ser amada. Então que sentido teria?
Minutos ali, deitada, pensado, havia chegado a uma conclusão. Havia sido fraca! Havia idealizado um mundo que não existia, havia ido muito alto, muito alem do real, e a queda havia sido horrível.
Quando tudo estava perdido para ela, a menina havia acordado de seu fantasioso sonho. Havia deixado seu velho mundo para dar vida a um novo mundo.
Era jovem, a vida lhe esperava, novos amigos, novos amores. Soube então que a vida é renovada a cada dia, soube também que se ela não depositasse esperança a si mesma estaria tudo acabado.
Havia nascido uma nova Lúcia, a tristonha menina havia morrido dando lugar á uma experiente mulher.
Ela então passou a ver a vida com outros olhos, dando valor a seus mínimos e graciosos detalhes, e renovando sua esperança a casa dia.
Nada na sua vida era perfeito, mas ela amava a vida e tentava transformá-la na para melhor a cada dia.
Soube então a diferença de sobreviver e viver.
Samuel Ramos
Enviado por Samuel Ramos em 01/09/2007
Reeditado em 02/03/2008
Código do texto: T634618

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Sobre o autor
Samuel Ramos
São Paulo - São Paulo - Brasil, 25 anos
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