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Um Sonho em Viena





Era o início de outono em Viena, mas ainda não estava frio. De dentro do táxi, vi minha imagem refletida no vidro da janela e o que vi me agradou. Foram meses de controle na alimentação para ficar perfeita no lindo vestido da grife Versace. Eu o comprei numa ponta de estoque em uma loja na Via Montenapoleone. Nada pode me demover da idéia do baile em Viena, nem as brincadeiras irônicas de minha irmã Loredana, tiraram-me o ânimo e a vontade de realizar o sonho de dançar no Palácio da Valsa. Quando ela soube que eu viria a Viena para um baile onde dançaria com um desconhecido, não economizou piadas:
_Lucia! Você está louca! Vai mesmo dançar com um velhote barrigudo? Já pensou no cheiro de cerveja que vai sentir? Você vai ficar tonta, a cada giro no salão.
_ Como pode alugar um desconhecido só pra dançar valsa. Ainda se fosse outro ritmo...
_ Você continua fazendo dieta para dançar com o velhote pançudo?
_Depois não diga que eu não avisei. E se o cara for um psicótico maníaco depressivo?
Explicar meus motivos para ela seria inútil, sua opinião não mudaria mesmo. Loredana achava que eu vivia no mundo da Lua e bastava. Eu não lhe tirava de todo a razão, mas meu desejo me impelia a prosseguir com o propósito. Sou quatorze anos mais velha do que ela e além da idade, temos algumas diferenças de opinião. Loredana nasceu na Itália, estuda medicina e tem um grupo seleto de amigos e amigas com o qual sai para divertir-se. Discoteca, cinema e esqui são seus passatempos preferidos. Eu sou formada em engenharia elétrica, tenho pouquíssimos amigos e gosto mais das coisas do passado. Ah! Eu nasci no Brasil, como minha mãe, e em casa, todos temos dupla cidadania.

O táxi percorria as ruas em direção ao Palácio da Valsa, e eu me beliscava não acreditando que o sonho de toda minha vida estava pra se realizar. A tarde estava linda, tudo me parecia perfeito. Até a lembrança das piadas de Loredana me faziam sorrir. O carro parou pouco distante da entrada do belo prédio. Os automóveis chegavam e saiam rapidamente do local. Dezenas e dezenas de pessoas chegavam para o baile. Olhei em volta do imenso pátio procurando a fonte onde me foi dito que meu par estaria aguardando. Havia um grupo de moças e rapazes próximos da mesma. Fiquei observando-os tentando adivinhar com qual daqueles rapazes eu dançaria. Depois voltei minha atenção para as pessoas que chegavam. Havia gente de todo jeito. Casais jovens, rapazinhos e mocinhas elegantemente trajados. Novamente pensei em Loredana, ela ficaria linda num daqueles vestidos de baile e provavelmente faria muito sucesso entre os jovens. Dos carros luxuosos desciam Senhores e senhoras de idades bem avançadas, exibindo suas bonitas roupas de baile. Muitos deles vinham acompanhando os netos e netas ao baile das tardes de setembro. Nesse momento, um grupo de animados espanhóis desceu de um micro-ônibus de hotel, tagarelando alto, com a peculiar maneira de falar por entre dentes. Alguns do grupo falavam da expectativa das próximas horas de dança. Logo pude ver que eu não era a única estrangeira. Senti-me como se estivesse numa assembléia das Nações Unidas, tamanha era a variedade de idiomas a minha volta.

Dei alguns passos em direção da entrada e senti a brisa da tarde acariciando-me o rosto e lambendo-me os ombros nus. Puxei a bonita echarpe sobre os ombros, não seria uma simples brisa que iria estragar meu baile sonhado. Eu não podia resfriar-me. Imagine o vexame que seria espirrar nos braços do gentil cavalheiro que eu ainda nem conhecia. Lembrei-me das palavras de minha mãe, quando anunciei a viagem a Viena, pra participar de um baile no palácio da valsa. Ela também ficou preocupada com a idéia:
_Você perdeu o juízo? Logo você que é tão medrosa! Por acaso aqui em Milão não se dança? Onde já se viu viajar pra outro país, só para dançar valsa com um desconhecido?
Ao pensar nisto, dei-me conta de que não havia deixado à mostra o cartão verde que a agência de turismo me deu junto com as reservas, ele era a senha, só com ele meu cavalheiro podia encontrar-me. Imediatamente abri a pochete, peguei o cartão e o segurei entre os dedos. Foi o tempo necessário para que da multidão saísse um bonito rapaz de porte atlético, alto, olhos cinza-azulados, cabelos castanhos e o mais lindo sorriso que eu já vira. Ele curvou-se elegantemente diante de mim e apresentou-se.
_Friedrick Olaff, a suas ordens, como está, senhorita?
Senti um tremor nas pernas e tive receio de gaguejar. A imagem de Loredana apareceu como um flash entre nós. Ela daria gargalhada se me visse naquela situação. Procurei controlar-me e disse meu nome e sobrenome. O casal de espanhóis que estava ao lado, ouviu-me e sorridente cumprimentou-me. A alegre espanhola disse aos outros do grupo que eu era espanhola. Por um minuto vi-me rodeada por eles, e uma linda moça ruiva de olhos verdes, perguntou-me se eu Friedrick estávamos em lua de mel. Senti o rosto ficar vermelho e quente e intimamente pedi a Deus para que o rapaz não falasse espanhol, mas ao olhar pra seu rosto percebi que ele se divertia com a situação. Apressei-me a desfazer o mal entendido e informei que eu era brasileira. Repentinamente o interesse por mim desapareceu. Os espanhóis me cumprimentaram com reserva e se encaminharam para a entrada do palácio, não estranhei. Afinal os europeus têm reações imprevisíveis frente aos latino-americanos. Logo esqueci o fato. Eu estava ali apenas para dançar valsa. Olhei mais uma vez o rosto do meu par. Friedrick era realmente muito bonito. Senti o rubor voltar ao rosto ao ver que ele também me observava.

A multidão de dançarinos se movimentava por entre as salas do palácio, em direção ao salão. Friedrick ofereceu-me o braço e seguimos as outras pessoas. A decoração de todo o palácio era suntuosa. Em volta da pista de dança, havia centenas de pequenas mesas redondas todas cobertas com toalhas sobrepostas de tecido brocado e realçado com fios dourados. As cadeiras eram maravilhosas, jacarandá trabalhado, com almofadas de veludo vermelho, presas à madeira com tachas douradas. Sobre cada mesa um pequeno arranjo de flor natural, um balde de prata, dentro, uma garrafa de champanhe e taças de cristal. Do teto ricamente esculpido e realçado por lindos afrescos, pendiam lustres luxuosos do mais puro cristal. Achei o salão mais bonito e muitas vezes maior do que o salão dos espelhos, no palácio de Versailles. À minha volta só havia beleza. No mezanino, a direita do salão, estavam localizados a orquestra e o coral. Friedrick conduziu-me a uma mesa de frente para a orquestra e o coral. O regente da orquestra anunciou o início do baile, e em questão de segundos foi retirado o galão dourado que impedia o acesso à pista de dança. Friedrick levantou-se e ao som da “Valsa do Imperador”, deu-me o braço, conduzindo-me ao baile. Meu coração batia rápido, eu estava emocionada. Aquele momento era mais lindo do que as cenas do baile no filme “Sissi, a rainha da Áustria.” O cavalheiro que a agência me destinara era um excelente dançarino. Ele me fazia flutuar como uma pluma. Rodopiávamos pelo salão e a cada movimento o perfume amadeirado que exalava dele, entrava por minhas narinas e me fazia pensar coisas. Intimamente eu sorri lembrando de Loredana e o “velhote barrigudo cheirando a cerveja”.

Dançamos seguidamente ao som das lindas valsas de Straus pai e Straus filho. Em alguns momentos a mão esquerda do rapaz deslizou pelo lado direito das minhas costas. Suas mãos eram ligeiramente ásperas, e eu me perguntava o que poderia causar aspereza nas mãos de tão bela criatura. Sai dos pensamentos com a voz de Friedrick querendo saber se continuaríamos falando italiano. Sorrindo respondi que estávamos calados, ele entendeu a brincadeira e também riu, acrescentando que eu dançava muito bem. Alguns fotógrafos tiravam fotos dos dançarinos. Perguntei a Friedrick se aquelas fotos seriam vendidas e ele me confirmou. Paramos de dançar e de mãos dadas voltamos à nossa mesa. Um garçom nos serviu champanhe. Friedrick ergueu a taça e brindou ao nosso encontro. Devo ter Ficado vermelha, mas agradeci respondendo ao brinde. Os casais continuavam a bailar no lindo salão, ao som das românticas valsas de Straus e outros compositores.

Às mesas em volta da pista de dança, as pessoas conversavam animadas, em tom ligeiramente alto. Eu estava encantada com o meu cavalheiro. Voltamos pra pista de dança. Friedrick abraçou-me pela cintura e eu senti o sangue correr quente pelas veias. A cintura é meu ponto fraco. Acho que ele sentiu minha reação, pois carinhosamente puxou-me pra perto dele, para seu peito. Eu não podia enamorar-me, pensei, mas à minha volta tudo cooperava para tal. O perfume dele tomava conta dos meus sentidos, a cumplicidade da música, do ambiente e o fascínio do rapaz, a graça com que conduzia a dança... Fechei os olhos por um instante entregando-me ao momento. Então, docemente, Friedrick beijou-me a testa e estreitou-me um pouco mais pra junto dele. O que acontecia comigo acontecia com ele também. Levantei os olhos e o fitei sorrindo, o rapaz sentiu-se encorajado e beijou-me os lábios, suavemente. A orquestra elevou o tom da música, os casais bailavam a nossa volta e nos sentimos transportados para outro mundo. Como era doce sonhar nos braços do meu lindo dançarino. Eu perpetuaria aquele momento.

Eu soubera da existência do baile através de uma revista que encontrei no salão que eu freqüentava. Mostrei ao cabeleireiro a matéria e ele contou-me que sua cunhada viajava a Viena todos os anos, só para dançar nos bailes do outono. Segundo disse, há mais de oito anos. Infelizmente sua cunhada morava em Bolonha e eu não poderia juntar-me ao grupo organizado por ela. Ele me deu o telefone da cunhada e eu entrei em contato com ela. Colhi as informações necessárias e durante mais de oito meses, através da agência em Milão, preparei-me para o momento que estava vivendo agora.

Friedrick levou-me de volta a mesa onde nos serviram deliciosos salgadinhos e mais champanhe. O rapaz olhava-me nos olhos de maneira fascinante e eu me deixava hipnotizar por ele. Era um jogo sensual e perigoso, mas eu gostava daquele jogo. Não parávamos de conversar, talvez para que nossos olhos não se separassem. Então voltamos novamente para a pista de dança. Eu dançava e sonhava nos braços do bonito dançarino. Era tudo maravilhoso. Quantas mulheres sonhavam viver momentos iguais ao que eu estava vivendo e nem sequer imaginavam que existia um lugar onde o sonho podia virar realidade. Pensei nas moças do Brasil, o meu distante país do samba e de tantas outras danças quentes e animadas, mas nenhuma romântica. Quantas gostariam de conhecer aquele lugar? Provavelmente, pouquíssimas. Muitas certamente nunca nem ouviram falar de valsa ou muito menos de que houvesse um lugar no mundo onde nas tardes de outono pode-se bailar por horas. Friedrick puxou-me para perto dele e em tom carinhoso e brincalhão sussurrou-me:
_Meu reino pelos teus pensamentos.
Sorri e respondi que pensava no meu país.
– Por que não pensas em algo mais próximo, mais palpável? O Brasil é muito longe... Respondeu-me sorrindo...
_Compreendo! E o “mais palpável” seria um simpático austríaco com quem estou dançando? – disse quase mergulhando no lago cinza-azulado dos olhos dele. Que fascínio, que doçura. Friedrick olhava-me como se eu fosse o amor de sua vida. Por um momento um dos capetinhas de Loredana gritou-me ao ouvido: “Esta é uma técnica de sedução que eles usam para turistas românticas, como você.” Sacudi a cabeça e afugentei o pensamento negativo. Ocorreu-me perguntar ao rapaz se ele dançava em todos os bailes do outono.
– Não, minha princesa! Eu trabalho, tenho um comércio. Também ensino na escola de dirigentes comerciais.
Nesse ponto a conversa foi interrompida pelo regente da orquestra, anunciando uma pausa pra exibição de um grupo de danças folclóricas. Friedrick traduziu-me o que o homem havia dito em alemão.

Voltamos à mesa e o garçom serviu-nos vinho e nova rodada dos deliciosos e delicados salgados. O grupo de dança se exibia na pista e Friedrick gentilmente explicou-me a história das danças e de quais regiões provinham. Depois me perguntou se eu já estivera em Viena e se estava gostando. Respondi que era a primeira vez, resumindo a história de como eu soubera do baile. Que havia chegado a Viena no dia anterior e voltaria pra Milão entre dois ou três dias. Então ele me convidou para conhecer um pouco da cidade e dos arredores. Fiquei surpresa com o convite inesperado. Friedrick percebeu minha surpresa e tranqüilizou-me em tom de brincadeira, dizendo que era um austríaco civilizado. Contou-me que estudava dança de salão e que dançar era a sua paixão. Sorrindo aceitei o convite. Nada podia ser melhor do que conhecer Viena em companhia tão agradável. Minha resposta o deixou visivelmente satisfeito.

Após a bonita apresentação dos grupos folclóricos, o salão foi novamente invadido pelos dançarinos. Voltamos à pista e dançamos como se não existisse mais ninguém em volta, nossos olhos pareciam hipnotizados, não se desviavam. Uma doçura imensa pairava sobre nós. Os grandes e ricos candelabros de cristal cintilavam e a luz que emanava deles, realçava os cabelos castanhos de Friedrick, como era lindo o meu par. Era uma atmosfera da qual eu não queria acordar. Secretamente desejei que os relógios parassem e que o baile nunca tivesse fim.

Num momento de pausa um dos fotógrafos veio a nossa mesa e eu pude escolher algumas fotos. Friedrick também escolheu algumas. Notei que ele escolheu as fotos onde o meu rosto era bem visível e senti certo prazer com aquilo. Eu receberia as fotos no hotel, no dia seguinte. Dançamos mais algumas vezes, mas o relógio foi impiedoso e não parou de andar. Às sete horas da noite o baile acabou ao som da valsa “Andorinhas da Áustria”. Ninguém saiu antes do final. Comentei com Friedrick minha preocupação com o táxi, à saída. Seria muita gente saindo ao mesmo tempo, como faria pra encontrar meu táxi?
_ Não se preocupe princesa! Nossa noite não acaba aqui. Eu conheço a companhia de táxi que a agência contratou, com um telefonema resolverei o problema.
E após uma rápida ligação se voltou para mim com seu encantador sorriso e tomando-me a mão, fez uma leve reverência, indicou-me a saída dizendo:
_”Andiamo Principessa“!
Saímos do palácio e percorremos a distância até onde os carros paravam para pegar os passageiros. Encontrei de novo os espanhóis que entraram rápidos no micro-ônibus, alguns deles acenaram-me um adeus. Friedrick pediu-me que o aguardasse ali mesmo e foi pegar o carro. Mas antes o belo dançarino curvou-se e beijou-me a boca. Fiquei pensando em como eu era louca, aceitando o convite de alguém que acabara de conhecer. Loredana se surpreenderia com minha ousadia

Não demorou muito e Friedrick retornou. Eu o vi sair do carro e acenar-me. Fui ao encontro dele já totalmente esquecida do receio de minutos atrás. No carro ouvia-se uma musica suave e linda, era uma canção francesa e a letra dizia algo como “encontrei meu amor às margens do rio Sena, as estrelas foram testemunhas do nascer de um grande amor...”. No clima romântico do momento, Friedrick era o príncipe mais lindo que eu já vira. Ele dirigia apenas com uma mão, e com a outra segurava a minha. Viena é linda, e à noite era mais linda ainda.
– Vou levar você a um lugar especial, - disse ele. É o restaurante dos enamorados, você vai ouvir a bela música austríaca e conhecer a verdadeira cozinha deste país.
O carro entrou por ruas antigas e após algum tempo parou diante de um casarão, no que parecia o pátio de um convento e onde alguns carros já estavam parados. Friedrick desceu, abriu a porta do meu lado e deu-me a mão. Quando saí, ele abraçou-me e de novo beijou meus lábios ternamente. O beijo foi interrompido pelo toque do meu celular. Era Loredana. Ela e mamãe queriam saber se tudo saíra bem.
– Então irmãzinha! Salvei você do bicho papão? E o velhote? Deu pra encarar o baile todo com o cheiro de cerveja?
Loredana falava e ria ao mesmo tempo, tive receio de que o rapaz pudesse ouvi-la. Procurei responder rápido dizendo que as chamaria do hotel. Foi o bastante pra que ela perguntasse curiosa:
_Onde você está? Por que não está no hotel?
Respondi que estava entrando num restaurante, que ia jantar e que mais tarde telefonaria pra elas. Desliguei o celular e desculpei-me com Friedrick. Entramos no restaurante. O ambiente era acolhedor e muito elegante. Lá mais para o interior do salão, um quinteto de cordas tocava bonitas músicas. Havia muita gente lá dentro. Fomos pra uma mesa ao lado de uma janela imensa, de onde se podia ver o rio passando. Do outro lado da margem via-se parte da cidade iluminada. Um garçom veio nos atender. Friedrick pediu vinho e água, explicando-me que naquele restaurante os pratos eram servidos em sistema de rodízio. Era como nas antigas tavernas, o que era feito na cozinha vinha um pouco pra cada mesa. Confesso que tive receio de aventurar-me, e se viessem coisas estranhas? Mas o meu receio não procedia, durante o jantar Friedrick cuidou de explicar a composição de cada prato que chegava à mesa e assim eu pude escolher o que comer. O vinho era maravilhoso e o meu cavalheiro após o brinde, beijou-me os lábios, me induzido a sonhar com um lindo desenrolar daquele encontro. Friedrick Contou-me um pouco da história do lugar se revelando uma companhia perfeita, de muito bom gosto e muito culto. Eu estava cada vez mais encantada. Era grande seu poder de sedução. Depois de algum tempo falei um pouco de mim. Contei que era engenheira, que trabalhava para a companhia de energia elétrica da Itália. Com muito bom humor, Friedrick disse que eu era a luz que faltava na sua vida e que talvez fosse por isso que estava sentindo tantos choquinhos quando me tocava. Rimos da associação do nome Lucia com meu trabalho. O quinteto de cordas foi substituído por um conjunto folclórico, a música alegre e dançante invadiu o lugar. Friedrick levantou-se e convidou-me para dançar, coisa que os outros casais presentes também fizeram. Foi gostoso voltar aos braços do galante dançarino. Eu estava vivendo um dos mais bonitos momentos da minha vida. Continuamos dançando e conversando até a primeira hora do dia seguinte, e não éramos os únicos no restaurante, com certeza, o local estava muito mais cheio do que quando chegamos. Combinamos o horário do encontro no dia seguinte. Saímos do restaurante e a noite fria nos acolheu. Friedrick abraçou-me pelos ombros procurando proteger-me. Entramos no carro e ali ficamos abraçados, nos beijando. O desejo falava alto em ambos, mas procurei controlar-me pedindo-lhe que me levasse de volta ao hotel.
_Ok! Minha princesa! Amanhã teremos um outro dia. – Disse com seu encantador sorriso – Vou levá-la para conhecer a região do tirol, vamos ter um lindo dia. Depois eu a levarei para conhecer meus pais e nosso comércio.
Friedrick acompanhou-me até a recepção do hotel, onde nos despedimos nos devorando com os olhos. Quando ele estava saindo, tive medo de não mais encontrá-lo e então me ocorreu perguntar que tipo de comércio ele tinha. O rapaz pegou-me as mãos entre as suas e orgulhoso respondeu:
_”Principessa” Lucia, modéstia a parte, eu possuo o melhor açougue de Viena! E conseqüentemente, sou o melhor açougueiro.

Senti o sangue subir ao rosto e por um momento foi como se o chão me faltasse. Friedrick percebeu o meu estado e preocupado tentou amparar-me. Sorri sem graça, procurando justificar o mal-estar ao vinho e às emoções vividas naquele dia. Solícito, perguntou se podia acompanhar-me até o quarto, pois estava preocupado comigo. Recusei delicadamente e mesmo assim ele acompanhou-me ao elevador, onde nos despedimos com um suave beijo. A porta do elevador se fechou e num verdadeiro tumulto de sentimentos, encostei-me ao espelho tentando por os pensamentos em ordem.

No quarto, apesar da hora, liguei pra Loredana. Ela ainda estava esperando e, segundo disse, vendo um filme. Procurei resumir como havia sido o encontro com Friedrick. Disse o que ele realmente era. Culto, cavalheiro, lindo, encantador, ótimo dançarino, perfumado e sexy, mas no último momento eu descobrira que ele era açougueiro. Loredana fez uma pausa nas perguntas, como se estivesse considerando o que acabara de ouvir. Por fim, perguntou-me:
_E agora? O que você vai fazer com o medo que sente por açougueiros? Vai perder a oportunidade de conhecer alguém interessante só porque tem medo de facas e sangue?
_Não sei, Loredana! Se eu chegar de volta a Milão amanhã cedo, é porque o medo me venceu. Mas eu ainda tenho este resto de noite para pensar. Amanhã é um outro dia, como disse a Scalarte do filme “E Vento Levou”.
Já estava quase amanhecendo quando adormeci e sonhei que dançava no Palácio da Valsa, nos braços de Friedrick Olaff.

FIM
Hull de La Fuente
Enviado por Hull de La Fuente em 07/09/2007
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Hull de La Fuente
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