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A Corporação

-  Acorde, Acorde!
Com um balde de água fria, José Asseb tenta acorda o operário sem nome classificado como F, que segunda a fonte de inteligência dos homens B, era o responsável pela conturbação ocasionada na Corporação. F está suspenso em uma cama de pregos, com suas costas toda perfurada, sem consciência e sem algum sinal de recuperá-la.
Antes que José, um dos ROITER’s da Corporação, (antigo anagrama de uma língua não mais usada pelos humanos), usasse o balde de água fria e terminasse por fim a dar um choque térmico no corpo do codinome F. Maria Ognedar, a ROITER mais poderosa, considerada o braço direito do Bispo, aparece impedindo o acontecimento.
- Pare José! Nós precisamos dele vivo. O Bispo o quer vivo!
O homem de codinome F era o que a Corporação considerava como operário, ele não era o único, junto a ele, milhões de outros F’s eram aglomerados num complexo civil chamado de a grande Corporação. O intuito da Corporação era manter a ordem e preservar a paz, nem que para isso usa-se de seu maior artifício, a alienação.
Há muito tempo, antes da criação da Corporação, havia na humanidade o que chamaram de período pós-apocalíptico, quando grandes alterações climáticas promoveram o caos e a desordem do mundo. Nesse período diz a lenda, que havia um homem que viu tudo o que estava de errado e descobriu que não era de Deus a culpa pelo ocorrido. Percebeu que era de sua própria espécie toda aquela destruição. E prometeu que não deixaria isso acontecer de novo. Esse homem não tem nome, se auto-intitula como Bispo e é dele toda a Corporação.
Essa é a lenda do Bispo. Pelo menos é assim que eles propagam a história dentro da Corporação.
Essa corporação era divida por alguns setores. O setor P eram seres que controlavam os operários, passando para eles todas as informações e deveres que eles deveriam cumprir, esse setor era o mais abrangente da Corporação, tendo no máximo 23 setores, com 6 agentes P em cada um.
Quem vigiava os setores P eram os agentes C. Contratados especificamente para passar as informações e deveres para os agentes P. Nessa ordem de grandeza, havia os agentes B, que selecionavam as informações e missões para os agentes C. Acima dos agentes B, tinham apenas a agente D, que era o cargo da Maria Ognedar.
Acima dela se encontrava o Bispo. Ela era a única que falava, via e conhecia o Bispo.
O problema que o codinome F estava enfrentado é que algum tempo atrás, na verdade uma semana atrás, ele havia descoberto que a Corporação não era o único complexo habitável sobrevivente da era pós-apocaliptica. Ele havia descobertos outras, muito outras.
Para entender a situação que ele se encontrava, os operários não sabiam que havia outros sobreviventes em outros complexos. Para eles, eram os únicos e agradeciam todo o dia e toda a semana ao Bispo, o homem que restaurou a paz.
F não havia descoberto por acaso. Todos os dias uma propaganda lhe dizia, o quanto feliz ele deveria estar por saber que a Corporação o salvou, porém nenhuma propaganda havia lhe dito para não entrar em um tal corredor a caminho da sala, um corredor que lhe mostraria fotos e noticiais referentes a outros complexos, ninguém lhe disse que isso era proibido.
Assustado a primeira coisa que F tentou fazer, foi contar aos seus amigos que não acreditaram nele, a segunda coisa foi a mais estúpida, procura um agente C e lhe contar, o que resultou em seu aprisionamento pelos agentes B. Especificamente por esse agente José Asseb.
De volta à cena que se apresentava, Maria Ognedar chama alguns de seus subordinados para limpar e preparar o F, pois agora fora ela. Ele seria a primeira pessoa a ver pessoalmente o Bispo.
Ninguém, com exceção da Maria Ognedar, sabia com certeza onde era a sala ou setor do Bispo, nunca o viram na Corporação, entretanto gostavam de imaginar que sua estadia era em algum lugar onde podiam ver e ouvir, como o teto do complexo, que continha sua foto e um alto falante, onde as mensagens eram propagadas.
Os subordinados limparam e trataram dos machucados do codinome F, ainda desnorteado, ele não sabe para onde o estão levando, a sala que ele vê é imensa, com apenas uma mesa no fim dela, e uma grande tela com a imagem de um homem pregado numa cruz.
- Pode deixar a gente, Maria
Fala o Bispo ainda de costa para ela.
- Muito bem, estarei aqui fora se precisar de mim.
Responde educadamente ela.
O Bispo se vira e volta seus olhares serenos para o F, que olha espantando, reconhecendo a imagem da sua frente, pela gravura colada no teto do complexo. Era sim, o homem que restaurou a paz.
- O senhor é o senhor... É o senhor!
Balbucia assustado o homem de codinome F
- Sim sou eu. Soube que você descobriu algo que não deveria ter descoberto, e que pior já espalhou a noticia.
- Não. O que era aquilo? Há outros... Há outros...
- Sabe. Eu tenho uma proposta para lhe fazer. Mas antes, devo te contar a verdade.
- Que proposta?
- O mundo está mudando, não podemos mais manter a paz com a mentira, devemos manter a paz com a verdade.
- Que verdade?
 - Vocês não se lembram de como entraram aqui, né? Vocês eram meras pessoas que não conseguiram entrar em outros complexos, nós resgatamos vocês e fizemos esquecer tudo.
- Como? Vocês fizeram o que conosco?
- Vocês eram tão desordeiros, cheios de idéias revolucionarias, não sabiam o perigo que eram, foi preciso apagar tudo para começar de novo, mas acho que esconder ou apagar já não é o suficiente.
- Eu tinha vida antes daqui?
- Claro que tinham, todos tinha...
- Porque fizeram isso?
- Novamente, vocês entraram aqui, escolheram aqui e assinaram, se registraram, se entregaram para nós, porque acreditaram que poderíamos restaurar a paz, mas F, vocês pos tudo a perder
- Paz... Você tirou o nosso direito de escolha, que paz é essa?
- A paz que nunca seria desordem, eu vi o caos de perto, sei que aconteceu, e por isso tive que fazer o que eu fiz e não me arrependo.
- Mas o senhor escolheu isso, nós não tivemos sequer escolha
- Tiveram sim, só que não lembram. A verdade agora já não importa mais, estou lhe oferecendo uma proposta irrecusável.
- Qual?
- Com o seu ocorrido, não poderemos conter mais os operários, as perguntas estão sendo feitas, e perguntas exigem respostas, se não há respostas, haverá tumulto, e isso gera desordem, e da desordem um novo apocalipse.
- Que proposta?
- Vou te transformar em mártir. Sabe o que é um mártir?
- Não
- É aquela imagem que está atrás de mim.
- O senhor vai me matar?
- Sim, mas não será uma morte em vão, será a morte que restaurará a paz que você fez perder com suas palavras...
- Mas por quê?
- Eu pensei muito a respeito, dizer que você abriu nossos olhos para o mundo foi a melhor de todas as opções e como todo herói de alguma situação, você morreu por essa causa, para que tivéssemos escolha.
- Mas eu não tenho escolha... Eu não quero morrer....
- Tarde demais
Maria Ognedar aparece com uma arma atrás da cabeça de F e dispara, é o último pensamento que passa pela cabeça dele, não querer morrer.
Três dias depois, uma nova imagem foi colocada no teto do complexo, a de um homem com uma bala na cabeça e com as costas machucadas, nele havia os dizeres “todos temos direito a escolhas”, e acima do Bispo, agora havia outra pessoa mais importante para a Corporação, havia o mártir.











Maycon Batestin
Enviado por Maycon Batestin em 10/09/2007
Código do texto: T645879
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Sobre o autor
Maycon Batestin
São Paulo - São Paulo - Brasil, 33 anos
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