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Sangue, Sarjeta e um par de brincos



Vendi um par de brincos por vinte reais; nem dezenove, nem vinte e um. Apenas vinte reais. Sarjeta passava todo dia pela minha porta e era o tipo de moleque com quem ninguém se metia. Desde pequeno assombrava a escola, quando aparecia por lá.
Cresceu no Beco de Baixo e com oito anos, todos já sabiam dele pelas redondezas. Sarjeta não nasceu pra brincadeira. Seu nome verdadeiro era Denis, mas o apelido vinha da falta de pai e mãe, além do fato de que até os três anos, sentava nuzinho na lama depois que chovia forte e ai de quem tentasse tirar ele de lá.
Escorregadio pela vida, viu na malandragem o melhor caminho. Nunca quis sair do Beco, apenas reinar por lá. Aos quinze, já ensinava a cartilha. Tinha lá os meios e seus contatos. Andava com Toco, o mais novo, que não chegou nem a um metro e meio, e com Martin; galego de olhos claros, seu maior inimigo; então, fazia por onde mantê-lo por perto. Toco ainda não era calejado, ao contrário de Martin, que entrava e saía do bueiro que quisesse. Isso incomodava Sarjeta. Inveja.
Saíram da adolescência ao mesmo tempo. Os três. Tinham quase a mesma idade, mas a malícia era de Martin e a maldade, era de Sarjeta. Toco só tinha o azar de andar com eles. Furtos, arrombamentos, tráfico, tudo passava pela mão de Sarjeta, e essa, era a sua diversão. Arrumou mais uma, quando Toco pediu vinte reais para o par de brincos.
Sarjeta, conseguia o que queria: celular, relógio, tênis da moda, tinha até moto. Torturou Toco até que ele confessasse que a dona do presente era Dandara. A menina era a deusa do segundo ano vespertino. Corpo de carnaval. Todo mundo sabia que ela tinha uma queda por Martin, e com isso, o infeliz do Sarjeta teve uma "ideia". Fez Toco escrever duas cartas, e caso ele contasse, perderia a língua. No dia seguinte, Toco entregaria os brincos, mas somente quando todo mundo saísse da porta da escola.
Às dezesseis em ponto, sexta-feira, fim de aula, nem antes, nem depois, Dandara já no local combinado, viu Martin do outro lado da calçada. Levantou rápido, ajeitou o vestido, pôs o cartão no bolso. Ele, distraído, sem entender direito o encontro, sorriu e então, encarou a menina. A vizinhança toda viu o que aconteceu.
Da esquina veio Toco, com as pernas curtas, mas na velocidade de um rato, gritando o que ninguém entendia direito, não deu tempo de parar Sarjeta, que atravessou com a moto na frente deles metendo uma bala certeira em cada um, depois saiu em disparada na direção de Toco, que morreu na confusão.
Dandara recebeu um bilhete de Martin pedindo o encontro; usava os brincos de vinte reais, coitadinha. Martin recebeu um bilhete assinado por ela, pedindo pra que fosse na escola, porque ia dizer uma coisa do interesse dele. Toco fez os dois bilhetes e ficou com a língua dentro da boca; sonhava com Dandara em silêncio, mas o medo era maior que tudo.
Sarjeta avermelhou os olhos quando soube do interesse dela por Martin , e não aceitou quando a garota que negou ficar com ele, se arrumasse com o inimigo. Cegou de ciúmes e ódio. Acho que eles nunca foram adolescentes. Nem sei porque mataram minha sobrinha. Toco me contou tudo antes de chegar na escola. O maldito nunca foi pego. Sarjeta fugiu com todo aquele sangue que ostentava, quando saía matando só por querer.

Lis Nogueira
Enviado por Lis Nogueira em 09/11/2018
Código do texto: T6498603
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Lis Nogueira
Maceió - Alagoas - Brasil
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Lis Nogueira