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Acertando contas com o passado - Parte 1 (de 8)

Acertando contas com o passado
Parte 1 - Maria

         Três horas da tarde! Maria, uma mulher negra, de aproximadamente 50 anos de idade cuja beleza e vigor já se haviam ido embora devido à vida dura e às escolhas erradas que fizera em vida, estava em sua casa – se é que se podia chamar aquilo de casa – num dos extremos das regiões periféricas da maior cidade do país. À sua frente, uma garrafa de cachaça pela metade, um copo ainda cheio – não por muito tempo – e um maço de cigarros com um isqueiro ao lado. Saíra há poucos dias da cadeia e decidira não se envolver mais com o mundo (ou submundo?) do crime. Suas atitudes erradas custaram-lhe a vida do marido e o abandono dos seus três filhos, dois homens e uma mulher. Chefe de boca, sabia muito bem das consequências a quem cai nas garras da lei. O tráfico não perdoa quem se deixa prender; ainda mais quem abre o bico e entrega seus patrões. Agora, abatida, depressiva, sem poder ou status naquela região, sabia que sua vida estava por um fio, ou por um milagre.

          Enquanto perdia-se, absorta em seus pensamentos, nem notava que era vigiada bem de perto por alguém que não podia ser visto pelos olhos comuns da matéria. O ser das sombras que a observava, divertia-se com a situação da pobre mulher e nutria-se de seus pensamentos e das energias etéricas da fumaça e do álcool. O ambiente impregnara-se de tal modo com energias deletérias que se tornara difícil a sobrevida de qualquer pensamento positivo por parte dela. A criatura trevosa, com forma humana, preparava-se para o ataque final, o que levaria sua vítima ao suicídio, quando notou no pulso esquerdo de Maria uma pulseira preta e vermelha com um pingente em forma de tridente e no pescoço um colar marrom do qual pendia um pequeno machado duplo.

          A criatura entendeu aquilo como um sinal de perigo e passou a observar melhor o entorno de Maria e deparou-se com outro ser. Era uma moça bonita que ele não tinha visto antes. Não tinha visto porque ela não quisera se fazer vista. A moça tinha os cabelos negros e longos, vestia um vestido vermelho e negro e sua face era metade caveira. Reconheceu na hora a senhora Rosa e achou melhor se recolher, pois estes espíritos nunca vêm sozinhos. Se ela estava ali, certamente trouxera seus compadres e comadres que se puseram do lado de fora da residência. Mas era tarde demais. Ela já o notara e agora o encarava.

         – O que fazes aqui, escravo das trevas? Por que importunas e vampiriza esta minha filha?

         – Perdão, senhora. Não sabia que esta mulher era sua protegida. Vou me retirar. – Embora trevoso, não era burro. Sabia que não tinha forças contra aquela senhora e seus falangeiros. Retirou-se.

         A pergunta que a senhora Rosa fizera ao ser das trevas foi apenas retórica. Ela sabia muito bem por que ele estava ali, mas não era hora de revelar. Além disso, filha sua ninguém iria destruir assim. Então, soprou um leve vento que fez os pelos de Maria se eriçarem. Percebendo que algo, ou alguém, estava por perto, Maria, com um pouco de lucidez que lhe restava, cruzou os braços – de punhos fechados – no peito e clamou, de olhos fechados, por seu pai e por sua senhora.

         – Calma, filha! Calma que estou aqui. Você tem muitos débitos dos dois lados da existência. Será preciso quitá-los, mas não se entregue, não desista de lutar, não se mate, pois será muito pior. A vida é um presente que nos deu o Criador e tirá-la de si mesmo é como se recusasse o que te foi dado. Acalme-se e mantenha o foco e fé. Tu terás mais dificuldades pela frente e irá superá-las, mas não deves sucumbir aos obstáculos, nem satisfazer ao masoquismo de quem quer te ver sofrer. Seja forte, filha. Seja forte! Dona Rosa disse isso e se retirou.

         Maria sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo e de repente ouviu uma explosão. Correu então para a janela e viu alguns barracos pegando fogo. Teve tempo apenas de pegar uma velha bolsa com os documentos e correu para fora. Junto com os vizinhos viu o fogo devorar veloz e ferozmente vários barracos da comunidade onde morava. Ajoelhou-se no meio da rua e chorou copiosamente. O local, além de distante, era de difícil acesso e os bombeiros demoraram a chegar. Quando conseguiram, quase não havia fogo a apagar. Os casebres de madeira não ofereceram qualquer resistência para as chamas. Maria e os outros desabrigados, centenas, foram encaminhados a diversos abrigos da prefeitura e quem podia ir para a casa de parentes, também foram. Maria, coitada, sozinha, negra, desempregada, ex-presidiária e já entrando na velhice...

         O que seria dela? O que o destino lhe preparava? Por que, pensava ela, por que Deus, seus guias e seus orixás deixavam que tudo aquilo lhe acontecesse? Eram perguntas sem respostas. Ao menos naquele momento.
Cícero Carlos Lopes
Enviado por Cícero Carlos Lopes em 06/01/2019
Reeditado em 06/01/2019
Código do texto: T6544574
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Cícero Carlos Lopes
Ferraz de Vasconcelos - São Paulo - Brasil, 43 anos
368 textos (6191 leituras)
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Cícero Carlos Lopes