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Acertando contas com o passado - Parte 2 (de 8)

Parte 2 – Cristóvão

          Numa parte nobre da cidade, porém próximo de onde ocorreu o incêndio, morava Cristóvão, um promissor empresário do ramo de alimentação, descendente de portugueses, na faixa dos quarenta anos, casado com Sônia e pai de dois filhos: Carlos, quinze anos, e Patrícia, dezoito anos.

         Era começo de noite. Cristóvão estava na varanda de seu apartamento, no quinto andar de um luxuoso prédio. A televisão estava ligada na sala e ele estava divagando em seus pensamentos sobre a vida, a empresa, o casamento, os filhos quando ouviu o som daquelas chamadas especiais dos jornais quando vão passar alguma notícia fora de hora e em caráter de urgência. Cristóvão correu para a sala a tempo de ouvir o repórter falar e mostrar o que tinha acontecido e ficou estupefato. Sentiu vontade de ajudar aquelas pessoas.

          Ele sempre fora um homem de bom coração, origem humilde, subiu na vida à custa de muito e honesto trabalho. Hoje, se não era um grande milionário, podia sustentar a si e à família com relativa facilidade e dando-se a alguns luxos que o dinheiro pode comprar: viagens ao exterior, ótimos carros, escolas particulares para os filhos, etc.

         Cristóvão estava sozinho em casa. A mulher havia dito que iria ao cabeleireiro, de novo, pensou ele. A filha tinha saído com o namorado e o filho ainda não retornara da escola. Queria ajudar, mas ainda não sabia como. Chegara mais cedo do trabalho e não havia ninguém em casa. Comunicara-se durante o dia com a família através dos aplicativos de mensagens. Também ele fazia uso da tecnologia que aproxima os distantes e distancia os próximos.
 
          Os ponteiros do relógio marcavam entre sete e oito horas da noite de uma sexta-feira quente e seca, o clima típico do verão de uma grande cidade com muito cinza (e outras cores) do concreto e pouco verde das árvores. Por esse momento, sua esposa chegou, cumprimentou-se com um “Olá, querido!” e um beijo rápido – um selinho, como se diz hoje – e foi direto ao quarto para trocar de roupa. Logo depois chegou Carlos, que mal cumprimentou o pai e foi direto para o quarto. O garoto andava esquisito ultimamente. A filha voltaria só no domingo, pois, junto com o namorado e a família deste, fora passar o final de semana na praia.

          Às sextas-feiras era comum a família “jantar” pizza ao invés de comida normal. Nesse dia, Cristóvão resolveu pedir a pizza por telefone e comerem em casa. O dia de trabalho havia sido muito puxado e ele não estava disposto a ir a um lugar barulhento. Comunicou a decisão à esposa e ao filho, que aceitaram meio a contragosto.
Enquanto esperava as pizzas chegarem, demoraria cerca de uma hora, Cristóvão ficou na sala e continuou vendo os programas jornalísticos. Todos noticiavam a tragédia do dia e mostravam as imagens daquelas pessoas agora sem ter onde morar, o que vestir, comer ou beber. Sabe-se lá como eram esses abrigos para onde foram. O interfone tocou. Era o porteiro avisando da pizza. Cristóvão desceu para pagar e buscar. Mesmo de elevador, era um tanto quanto demorado, porque além de morar no quinto andar, a portaria não era tão perto do edifício.

          Quando retornou à casa, cerca de dez minutos depois, a mesa já estava posta com os pratos, talheres, copos e refrigerantes. Sônia, a esposa, apareceu rapidamente e gritou pelo filho, que demorou um pouco, – coisa de adolescente – mas apareceu. Durante a refeição, comentou com a esposa e o filho sobre o que vira nos noticiários e sobre sua vontade de ajudar. Sônia e Carlos, apesar de serem boas pessoas, não eram muito afeitos a ajudar o próximo. Teve de ouvir deles:

          – Você se preocupa demais com quem nem conhece e esquece da sua própria casa, da sua própria família. Deixa eles se virarem. Não é problema nosso. Eu, por exemplo, preciso trocar de carro. O meu já tem mais de um ano. Está na hora de trocar. – disse Sônia.

          – Pai, eu preciso comprar alguns materiais para as aulas de Artes, livros para Português e Filosofia e outras coisas. Faz um tempinho que eu deixei a lista com mãe. Concordo com ela. O problema é deles, eles que devem se virar pra conseguir o que querem. Cada um que cuide da sua vida. – foi essa a fala de Carlos.

          – Como vocês são egoístas! Só pensam em vocês mesmos. A gente precisa ajudar a quem tem mais necessidade. Afinal, nem todo mundo consegue se levantar sozinho. – foi a resposta de Cristóvão.

          Carlos, percebendo que os pais iriam começar uma discussão, aliás, mais uma, levantou-se e foi deitar-se e curtir suas redes sociais. Naquela noite, sabia ele, ninguém iria bater à porta do seu quarto para dar-lhe boa noite.

          – Você é louco ou o quê? Querer tirar do que é nosso para dar àquele bando de sem teto, endoidou de vez, foi?

          – Doida é você! O pouco que vamos fazer não irá nos prejudicar em nada. Deixe de pensar apenas em si mesma. Aquelas pessoas perderam tudo do pouco que possuíam. É nosso dever como cidadãos de bem, fazer a caridade a quem precisa. A gente deve retribuir as coisas boas que a vida nos dá. Ou você já se esqueceu disso?

          – Quer dizer que você está comigo por caridade? Que eu devo ajudar a quem nem conheço e nunca fez nada por mim? Me poupe!

          – Que absurdo é esse? Estamos juntos há dezenove anos, construímos uma linda família juntos, criamos um negócio juntos. Para de falar besteira.

          A discussão entre o casal se dava em um tom de voz alto, não era a primeira vez e sempre por motivos materiais. Os vizinhos já haviam reclamado com o síndico do prédio e com eles mesmos. Carlos, do seu quarto, tudo ouvia. Colocou os fones de ouvido e continuou a ouvir suas músicas. Seus pais pouco sabiam dele. As músicas eram depressivas, as coisas na escola não iam bem, tinha poucos amigos e já pensara algumas vezes em suicídio. Sorte da irmã, Patrícia, que não estava ali para passar por aquilo.

          Nesses momentos assim, que Cristóvão notava que sua esposa não tinha o coração tão bom e nem ele mesmo era tão equilibrado. Havia já alguns meses que as coisas não iam bem em sua casa, mas ao menos nos negócios tudo estava indo bem. Ainda bem que Patrícia não estava em casa naquele momento. Ela, sim, era uma pessoa sensível que ajudava os outros sem esquecer de si. Menina de ouro.

          Sônia já se cansara daquela vida. Casara-se muito jovem com Cristóvão, ela dezessete anos, ele vinte e dois, e um ano depois engravidara. Ajudou o marido a construir a pequena empresa que possuíam, um buffet, a partir de um quiosque de cachorro quente. Está certo que tinham uma vida confortável, mas Cristóvão trabalhava demais, pouco dava atenção à família, a ela. Ela tinha fome de vida, ela tinha sede de viver os prazeres que a vida podia proporcionar. Pensou em Patrícia. Ainda bem que aquela menina não estava em casa. Não suportaria vê-la defendendo o pai. Apesar de sua filha, Patrícia era, na visão de Sônia, o “patinho feio” da família. Patinho feio que de feio não tinha nada, bem sabia ela.

          Foi com esses pensamentos que o casal e seu filho foram dormir aquela noite. Cristóvão dormiu no sofá da sala e Sônia sozinha no quarto. Se tivessem o mínimo de equilíbrio e espiritualidade, teriam percebido que alguém se deleitava grandemente com a situação que ali se apresentava. Alguém que foi embora, mas que deixou uma energia muito densa no ambiente. Tão densa a ponto de perturbar o sono dos três.
Cícero Carlos Lopes
Enviado por Cícero Carlos Lopes em 06/01/2019
Reeditado em 06/01/2019
Código do texto: T6544576
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Sobre o autor
Cícero Carlos Lopes
Ferraz de Vasconcelos - São Paulo - Brasil, 43 anos
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Cícero Carlos Lopes