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Acertando contas com o passado - Parte 3 (de 8)

Parte 3 – Maria e Cristóvão

          O final de semana foi muito movimentado para Cristóvão no trabalho com o buffet e ele não teve tempo de pensar em tudo o que acontecera. Pouco conversara com a esposa e menos ainda com o filho. Estava decidido a não comprar o carro que Sônia havia comentado e decidira também ir à escola do filho na segunda-feira.

          Cristóvão notou no sábado pela manhã, quando chegou ao trabalho, que alguns funcionários não foram trabalhar. Perguntou a alguns outros e ouviu de um deles:
       
          – Vixi, sr. Cristóvão! O senhor não viu nos jornais ontem sobre o incêndio na comunidade aqui perto? Todos os que faltaram hoje são de lá. Foi uma tragédia daquelas. Graças a Deus ninguém morreu.
Cristóvão ficou terrivelmente surpreso e falou:

          – Tudo bem. Avisem a quem foi vítima do incêndio que eles não precisam se preocupar com o emprego. Cuidem de si e dos seus em primeiro lugar e depois voltem ao trabalho.

          Aquele final de semana foi realmente corrido devido à falta de muitos funcionários. Foi tanta correria que Cristóvão decidiu dar dois dias seguidos de folga aos seus funcionários, que voltariam somente na quarta-feira ao trabalho. Segunda-feira já seria a folga normal e terça-feira haveria apenas atividades internas de organização, sem eventos.

          Enquanto isso, em um dos abrigos da prefeitura, Maria e as outras pessoas que perderam suas casas estavam a dividir as doações de roupas e alimentos que começavam a chegar. A maior preocupação de Maria, porém, era para onde ir. Ficara desde o ocorrido em abstinência da bebida e do cigarro, em virtude do que seu organismo já dava sinais da falta dessas coisas. Ela sentia uma vontade enorme de beber e fumar, principalmente quando via outras pessoas fazendo isso. No entanto, toda vez que batia essa vontade, parecia ouvir uma voz bem lá no fundo de sua cabeça “Deixa disso, mulher! Isso está ajudando a te matar. Seja firme e tenha fé.”

          No domingo seguinte ao incêndio, Maria estava andando pelo lado do abrigo quando sentiu alguém segurar-lhe pelo braço, de costas, sem permitir que ela se virasse e dizer:

          – Fica calma, vovó! Fica calma! Todo aquele fogo foi um recado da chefia geral lá da boca. Fica esperta e de bico fechado. Se a vovó ficar quietinha, ainda vai viver bastante. Agora, se começar a falar as coisas que nem matraca, vovó vai virar churrasquinho. Entendeu?

          Maria apenas fez sinal positivo com a cabeça e não olhou para trás, primeiro porque não podia, depois porque não teve coragem. Só lhe restava a vida, coisa que ela não queria perder.

          Chegou segunda-feira. Para Maria, tudo estava na mesma. Já Cristóvão, além de descansar, teve a volta da filha, Patrícia, que chegou logo após o almoço. Chegou toda alegre e viu aquele clima baixo astral e quis logo saber o porquê. Percebeu pelas aparências de todos. O irmão estava indo para as aulas da tarde na escola, o pai estava indo resolver alguns negócios do buffet, só ficara sua mãe. Pegou todos de saída.

          Carlos disse apenas que os pais tinham brigado de novo. Cristóvão alegou pressa e só deu um rápido abraço nela. Patrícia resolveu perguntar, então para a mãe. Esta, apenas lhe respondeu de forma seca, como de praxe:

          – As mesmas manias do seu pai: querer ficar ajudando a essa gente pobre e à toa. Agora deu de querer ajudar às vítimas do incêndio na comunidade aqui perto. Vê se pode uma coisa dessas?

          – Mas, mãe, todo esse clima pesado só por isso? Deixa o papai ajudar a quem ele quiser. Até onde eu sei, não estamos passando por dificuldades financeiras. Então, qual o problema?

          – Você também? Ah! Esqueci que você é igualzinha a seu pai! Quer dizer que a gente dá duro a vida inteira e tem que sair ajudando a todo mundo por aí? Me poupe, vai!

          – Mãe, isso se chama humanidade. Fazer a caridade a quem precisa é um dever cristão...

          Não teve tempo de terminar a frase, pois ouviu a resposta de sua mãe aos berros:

           – Ah, vai pro inferno você também. Não sei nem por que voltou! – e saiu para o seu quarto, batendo a porta.

           Patrícia percebeu que havia algo a mais de errado. Mas para evitar conflitos com o gênio forte da mãe, resolveu ficar quieta. Nesse instante, sentiu um calafrio percorrer todo o corpo. Ela frequentava um centro espírita kardecista desde os dezesseis anos e já se descobrira sensitiva. Podia perceber as energias do ambiente. Tomou banho, pôs uma roupa mais simples e foi dormir para descansar da viagem. Entretanto, seu sono não foi tranquilo e ela acordou duas horas depois com uma forte dor de cabeça. Levantou, lavou o rosto, fez uma breve prece e aos poucos o desconforto foi passando. Decidiu ir para a sala assistir um pouco de TV.

          Em pouco tempo seu pai chegou e eles puderam conversar. Cristóvão lhe contou tudo. Pai e filha tinham pensamentos muito parecidos. Se não fossem pai e filha, dir-se-ia que eram almas gêmeas. Patrícia ainda ouviu de seu pai que fora na escola de Carlos e, sem ele saber, conversara com a diretora, com o coordenador e com alguns professores. Todos relataram a ele sobre o comportamento altamente introspectivo do garoto, algumas boas aulas nas quais ele havia faltado e algumas marcas que os colegas e mesmo professores viram em seus braços. Patrícia disse:

           – Pai, toma cuidado quando falar com ele. Ele está se sentindo sozinho, abandonado. Isso tudo podem ser sinais de depressão, é perigoso demais. Converse com ele, mas não se deixe influenciar pelo clima entre o senhor e mamãe, está bem!

          – Está bem, filha! Pelo jeito que você fala, até parece que nossos papeis estão invertidos. Muito obrigado.

           Despediram-se. Patrícia saiu, tinha um encontro com as amigas. Cristóvão foi tomar banho, pois estava próximo à hora do jantar. Antes, perguntou por Sônia. A filha lhe dissera que ela tinha se trancado no quarto e não mais saíra.

          Como estavam brigados, Cristóvão foi tomar banho no banheiro da área comum do apartamento e não na suíte do casal. De banho tomado, foi para a sala e esperou a chegada de Carlos, que não demorou. Carlos abriu a porta e deu de cara com o pai na sala. Assustou-se, pois nunca vira o pai daquela maneira.

          – Senta aqui do meu lado, Carlos. A gente precisa conversar sério. – Sem reação, Carlos sentou-se ao lado do pai, de cabeça baixa e perguntou:

          – O que foi, pai? O que aconteceu? – Cristóvão respirou fundo e:

           – Tira sua blusa, por favor, quero ver seus braços.

         – Por quê?

          – Tira a blusa apenas. – A voz do pai estava tão firme, que Carlos não teve outra alternativa.

          – Que marcas são essas? Por que esses cortes? Levanta a cabeça, olha nos meus olhos e me responde.

          – Deixa o menino em paz, Cristóvão. Você quase nunca esteve presente. Vai querer dar lição de moral agora por quê? – Era Sônia que despertara, ouvira as vozes do marido e do filho e resolveu aparecer, parecia dopada, grogue; talvez pelo sono mal dormido, talvez pelos remédios que tomara.

          – Fica quieta! – Cristóvão falou alto e firme, de um jeito que ela não teve outra alternativa. – Você sabia que nosso filho anda se cortando? Olha os braços dele. Você sabia que ele tem faltado às aulas? Você sabia que ele tem sofrido bullying na escola?

          Carlos ouvia tudo e gritou, chorando:

           – Calem-se! Vocês estão tão preocupados consigo mesmo que não vêm que eu estou morrendo. Morrendo aos poucos de depressão, de saudade de pais presentes, de solidão, de angústia. Parem de brigar, por favor. Eu preciso de ajuda!

          Pai e mãe, num raro momento de lucidez, correram a abraçar o filho. Após um tempo de conversa, ficou acertado que iriam procurar ajuda especializada, um psicólogo. Sônia encarregou-se disso e no dia seguinte, conseguiu com uma amiga o contato de uma psicóloga especializada nesses casos. Marcou a primeira consulta para dali a três dias, na quinta-feira. Patrícia chegou por volta das nove horas da noite, notou o clima um pouco mais ameno, mas não quis perguntar nada. No fundo sabia que as coisas começavam a se colocar em seus devidos lugares. Pela primeira vez em meses, aquela família teve uma tranquila noite de sono.

           Na quarta-feira, Cristóvão fez a já tradicional reunião semanal para distribuir as tarefas que cada um teria de fazer e relembrar quais seriam os eventos dos próximos dias. Ao fim da reunião, Neusa, uma de suas funcionárias mais antigas, pediu para conversar com ele em particular.

          – Pois não, Neusa, pode dizer.

          – Sabe, o que é sr. Cristóvão, eu gostaria muito de pedir ajuda para uma pessoa conheço. Ela foi uma das vítimas daquele incêndio, é sozinha, perdeu absolutamente tudo, se chama Maria e está no abrigo da prefeitura onde eu presto serviço voluntário quando não estou aqui.
 
          – E contou tudo o que ela sabia sobre Maria.

          – Tudo bem, Neusa. Peça para ela vir conversar comigo amanhã pela manhã. E se você puder, indique mais umas quatro ou cinco pessoas, estamos precisando de um reforço no quadro de funcionários.
No dia seguinte, no horário combinado, Maria estava lá para conversar com Cristóvão. Chegou e foi encaminhada ao escritório. Cristóvão mandou que entrasse e se sentasse.

         – Bom dia, D. Maria. Tudo bem? A Neusa me falou que a senhora está precisando de um emprego para recomeçar a vida. É isso mesmo?

          – É, sim senhor. Mas ela contou pro “dotô” que além de negra eu sou ex-presidiária, que morava na favela e que sou da “macumba”, da Umbanda? – Maria perguntou porque era conhecedora dos preconceitos que haviam na sociedade.

          – Não se preocupe. Ela me contou tudo e juro que isso pouco me importa. Para mim, o que vale é se a senhora quer recomeçar de verdade a sua vida. O que ficou no passado, no passado está. Só me interessa de agora em diante. Tudo bem? A senhora também não precisa ficar falando isso pra todo mundo não, viu.

          Os olhos de Maria encheram-se de lágrimas que escorreram pelos sulcos de sua face já cansada. Agradeceu a Deus, seus guias e seus orixás pela nova oportunidade que recebia e depois agradeceu ao seu novo patrão. Agarraria aquela chance com unhas e dentes. Não iria cair de novo. A princípio, começaria a trabalhar como auxiliar de limpeza. O seu empenho e desempenho decidiriam as outras etapas desse novo momento em sua vida. Começava ali a sua redenção.
Cícero Carlos Lopes
Enviado por Cícero Carlos Lopes em 06/01/2019
Reeditado em 06/01/2019
Código do texto: T6544582
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Sobre o autor
Cícero Carlos Lopes
Ferraz de Vasconcelos - São Paulo - Brasil, 43 anos
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