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Acertando contas com o passado - Partes 4 e 5 (de 8)

Parte 4 – Carlos, Patrícia e seus pais

          Maria começou a trabalhar no buffet de Cristóvão. A princípio sentiu certo desdém por parte de algumas pessoas, outras com atitudes preconceituosas, mas a vida lhe ensinara a recuar de vez em quando, pois nem tudo deve ser rebatido. Os meses seguiam-se e ela conseguira alugar uma casinha simples com a ajuda de Neusa, que se tornara uma boa amiga. Mas deixemos a Maria um pouco de lado agora. Ela precisa curtir essa boa fase em sua vida.

          Carlos era um adolescente de quinze anos que iniciara o Ensino médio, já Patrícia era uma jovem de dezoito anos que se preparava para entrar na universidade; pretendia cursar Filosofia e depois Psicologia. A mente humana sempre fora uma paixão da garota. Eram irmãos que se completavam. Enquanto ela fazia o tipo expansiva, extrovertida e fazia amizades fáceis, Carlo era altamente retraído, fechado em seu mundo com poucos amigos. Apesar de tudo, os irmãos se gostavam muito.
Patrícia veio ao mundo no início do segundo ano de casamento de Sônia e Cristóvão. Dois jovens apaixonados que se conheceram numa pracinha onde Sônia e sua turma costumavam se reunir. Ela era uma adolescente típica, fazia o tipo “rebelde sem causa”, meio maluquinha, gostava de curtir a vida. Cristóvão era o vendedor de cachorro quente do quiosque preferido de Sônia e sua galera. Quando se conheceram, ele tinha vinte e um anos e ela dezesseis. Ele, até mesmo por sua origem mais humilde, sempre fora mais centrado. Os opostos se atraíram e daí para o namoro foi um pulo. Um ano depois estavam casando, para o que os pais dela precisaram, literalmente, dar autorização. O amor, talvez a paixão com toda sua intensidade, fez com que fossem pais muito jovens e enfrentaram uma barra muito difícil para conseguir criar a filha. Focados, porém, no objetivo de vencer na vida, pois ambos tinham ambição, – ela mais que ele – transformaram o pequeno quiosque no buffet dos dias atuais. Ele era craque na cozinha e administração e ela era uma ótima organizadora de eventos. Juntaram as qualidades e se deram merecidamente bem.

          Patrícia, desde cedo, mostrava-se uma menina extremamente alegre e cheia de luz. Onde chegava, conseguia transmutar o ambiente para melhor e nunca apresentou atitudes egoístas, ao mesmo tempo que não costumava deixar-se levar por bajulações. Cresceu e se tornou muito bonita e desde os dezesseis anos namora com Marcelo, um jovem com a mesma idade e com pensamentos e a forma de ver a vida bastante parecidos com os dela. Era o que se podia chamar de “união perfeita”.

          O nascimento de Carlos não foi o que se podia chamar de “planejado” ou “desejado”, pois veio numa época em que o casal passava por uma crise bem forte de relacionamento e também na questão financeira. Por sorte, nenhum dos dois era de se entregar aos vícios, por exemplo, beber e fumar. O que, às vezes, dificultava o relacionamento do casal era a diferença de temperamento. Enquanto Cristóvão demonstrava claramente maior objetividade e racionalidade diante das coisas da vida, Sônia, após dois ou três anos de casamento já dava sinais de cansaço, de arrependimento por casar-se tão nova. Julgava não ter “curtido” a vida como deveria. Agora casada e mãe, as coisas se complicaram bastante. A gravidez que trouxe Carlos à luz da vida foi tão complicada para mãe e bebê, que precisaram de intervenção médica antes, durante e após o parto.

          Carlos, apesar de saudável, trazia em seu íntimo uma espécie de rejeição materna e nunca soubera lidar direito com isso. Decorre daí o seu isolamento e, na atualidade, seu comportamento indicador de depressão. Junte-se a esses fatores o fato de o pai estar quase sempre ausente devido ao trabalho para prover a casa e temos uma bomba relógio montada numa mente ainda em formação.

          Desde a crise que Carlos tivera, quando disse que precisava de ajuda, ele passou a fazer terapia com uma psicóloga especializada em comportamento adolescente. A psicóloga, doutora Amanda, logo percebeu que o problema era familiar e sugeriu uma terapia para pais e filho. Ao cabo de alguns meses, o garoto mostrava sinais de evolução: estava mais sociável, mais alegre e menos introspectivo. Certo que Cristóvão e Sônia, com a ajuda de Patrícia, colaboraram para que isso ocorresse: deixaram de lado as suas diferenças para salvar o filho.
Na última consulta, após um ano de tratamento, doutora Amanda perguntou se a família tinha ou seguia alguma religião em específico. Ante a negativa, uma vez que apenas Patrícia seguia o Kardecismo, Sônia dizia-se ateia e Cristóvão tinha raízes católicas, mas não frequentava igreja alguma; a psicóloga recomendou que a família se espiritualizasse. Não indicou nenhuma religião, por outro lado, explicou a importância de se conectar com esse “algo superior”, o “criador da vida”, “Deus” ou “inteligência suprema” porque é preciso ter algo para acreditar, sem extremismos, pois é isso que nos desliga da realidade cruel que muitas vezes nos cerca. Sem saber, doutora Amanda estava sendo intuída.

Parte 5 – Maria e sua religiosidade

          Após firmar-se no emprego, alugar uma casinha, aprumar-se na vida, Maria começou a sentir falta de sua religião. O som dos atabaques, as palmas, enfim as giras de trabalho lhe faziam enorme falta. Em outros tempos, antes de se meter com as coisas erradas, antes de perder o marido e ser abandonada pelos filhos, Maria era médium trabalhadora de um terreiro de Umbanda. Sua conduta, da qual já temos noção, fez com que seus guias, sem abandoná-la, a deixassem à própria sorte a fim de aprender com os próprios erros. Com ela, cumpriu-se muito bem o ditado “se não aprende pelo amor, aprende pela dor”. Ela estava ainda aprendendo pela dor.

          Foi então que Maria resolveu perguntar à Neusa se ela sabia onde havia um terreiro ali por perto. Neusa era evangélica, mas respeitava as demais religiões, não se extremava a ponto de achar que para chegar até Deus há apenas um caminho. Sendo assim, disse à Maria que na rua em que ela mesma morava havia um. Como estava “reclusa” em si mesmo há algum tempo, Maria mal andava pela rua em que morava, malo saía de casa para qualquer coisa que fosse; portanto, não havia notado que na rua de sua casa havia um terreiro.

          Na manhã seguinte, uma quarta-feira, ela saiu mais cedo de casa e foi caminhando calmamente pela calçada em sentido oposto ao que costumava fazer. Desta forma, passou em frente ao terreiro e viu uma placa que informava os dias e horários de atendimento. Às quartas-feiras, a partir das dezenove horas havia o que eles chamavam de “Trabalho de cura e desobsessão” e aos sábados, também a partir das dezenove, as giras de Umbanda propriamente ditas. Resolveu que iria no próximo sábado.

         Passou os dias seguintes numa ansiedade terrível. Chegou o sábado. Maria chegou antes das dezenove horas, pegou senha, sentou-se, fechou os olhos e pôs-se em silenciosa prece. Soaram os atabaques para a defumação e Maria já sentiu seu corpo todo se arrepiar. Havia anos que ela não dava passagem às entidades que a amparavam. Naquela noite era um trabalho sob o comando dos pretos e pretas velhas. O tempo foi passando. Os minutos pareciam horas para Maria, até que sua vez chegou.

         Entrou, fez o sinal da cruz na entrada para o atendimento, postou-se diante da entidade – uma preta velha, Vó Cambinda – fez o sinal da cruz aos pés da entidade e sentou-se no banquinho que lhe estava reservado. A preta-velha, antes de qualquer coisa, fez um benzimento e aplicou um passe energético em Maria, era para reequilibrar as energias. Depois começou a falar:

         – Eita que zifia tava pesada. E ainda tá um pouquinho. O que incomoda tanto a zifia? Conte para essa nega veia pra nega vê como pode ajudá.

         Maria desatou a falar e, em menos de dez minutos, contou, de toda sua vida, aquilo que havia de mais importante, sem omitir nem mesmo seus erros. Enquanto ela falava, Vó Cambinda pitava seu cachimbo, bebia seu café e estalava os dedos em volta de Maria. Quando terminou a narrativa, a doce e séria velhinha, falou:

         – Tudo isso, zifia, porque em algum momento tu se desviou do teu caminho. Tu não deu atenção ao que as entidades que te acompanha falaram, não é mesmo? – Maria só meneou afirmativamente a cabeça.  E Vó Cambinda continuou:

         – Mas tu aprendeu, não foi mesmo? – outro gesto afirmativo. – Então se acalme, zifia. Se acalme porque nada acontece por acaso. Tu tem Xangô e Oxum nessa coroa, a Justiça e o Amor, e a moça que sempre te acompanha é da falange das Rosa Caveira. Tão me dizendo aqui pra tu não se esquecer do dia do fogo, foi ela que te ajudou a fugir de lá. Não se preocupe mais com o passado. Não deixe ele te atormentar. Tu ainda vai ter algumas surpresas nessa vida. Venha mais vezes nessa casa, inclusive na quarta-feira, vai te fazer bem e tu bem sabe. Agora vá em paz e acenda esta vela para a nega veia que te acompanha, ela tá pedindo.

         Vó Cambinda disse isso e despediu-se da consulente com um abraço fraterno e reconfortante. Maria agradeceu e saiu. Chegou em casa, trocou e de roupa e acendeu a vela antes de dormir. Foi uma das noites mais tranquilas que tivera nos últimos anos.

         No dia seguinte, domingo, aproveitou o intervalo do almoço no buffet e foi agradecer à Neusa pela indicação. Esta lhe respondeu:

         – Maria, eu não professo a tua fé, mas estou vendo em teu semblante uma alegria linda e radiante. Me sinto lisonjeada, porém, agradeça a Deus, pois foi Ele que nos colocou no caminho uma da outra.
Maria sorriu, abraçou-a e pouco tempo depois voltaram aos seus afazeres. Nesse tempo todo, desde que começara a trabalhar no buffet, Maria havia tido algumas promoções. Agora era uma das responsáveis diretas pela cozinha. Claro que não faltara obstáculos, os quais ela superou com muita fibra. Por exemplo, as tentações da bebida, que não foram fáceis. O cigarro ela nunca mais fumou mesmo. O que lhe atormentava para valer era a saudade dos filhos. Por onde andariam?
Após aquela primeira ida ao terreiro, Maria passou a frequentá-lo com certa assiduidade, inclusive às quartas-feiras, quando possível. Em uma das sessões de meio de semana descobriu que estava sendo atormentada há anos pelo espírito do marido, falecido há cerca de quinze anos e que a culpava pela morte violenta que tivera. Antônio era seu nome. Casaram-se também jovens e foram pais de três filhos. Passados uns dez anos de casamento, Maria, cansada das dificuldades financeiras e querendo dar uma vida mais confortável aos filhos, envolveu-se com o tráfico de drogas. Apesar dos alertas que ouvia do marido, ela seguiu, cegamente a sua ambição por caminhos errados. Ela não tinha noção de que aquele momento ruim era uma prova.

          Passados alguns anos nessa vida torta, Maria, que já conquistara certo status junto aos grandes do tráfico daquela região, teve um carregamento perdido para a polícia e, de quebra, alguém entregou parte do esquema. Quem está nesse meio sabe que não há perdão para traidores. Determinada noite, por sorte os filhos não estavam em casa, sua porta foi arrombada. Eram seus credores que vieram atrás de pagamento. Não havia dinheiro suficiente para o pagamento. Ela o marido foram espancados, mais ele que ela, pois queriam que ela visse o sofrimento e a dor dele. Cansados de bater, os criminosos colocaram Antônio de frente para Maria, ajoelhado e com as mãos amarradas para trás e, sem falar nada, atiraram na testa dele. Ela desmaiou.

         Quando os filhos chegaram, estavam numa festa na comunidade, o local já estava cheio de polícia e ambulância. Os três filhos formavam uma verdadeira escadinha e eram ainda muito novos, na flor da adolescência. Marcos, dezessete anos; Jéssica, dezesseis e Cleiton, quinze. Enquanto a mãe se recuperava no hospital, todos eles ficaram saltando de casa em casa, de parente em parente.

          Praticamente um mês depois de tudo isso, Maria retornou para casa e reencontrou os filhos. Todos apresentavam certa revolta com ela e a culpavam pela morte do pai e pela situação em que estavam.  Durante algum tempo ela arrumou uns bicos como diarista, mas o dinheiro não era suficiente. Os filhos conseguiram pequenos trabalhos, mas estava difícil conciliar a escola, o trabalho e a vida sempre no aperto. Mais uma vez, Maria sucumbiu às tentações da vida no crime; só que desta vez foi presa e os filhos decidiram abandoná-la. Foram cinco anos cumprindo pena, nenhuma visita, muita dor e sofrimento. Decidiu que quando saísse mudaria de vida. Nunca esteve tão disposta a cumprir com uma promessa. Quando saiu da cadeia não encontrou os filhos e entregou-se aos vícios até o dia daquele incêndio. Por essa época, a fé ficara abalada e chegou mesmo a maldizer aqueles que lhe amparavam do plano extrafísico. Isso lhe custou o que já sabemos.
Cícero Carlos Lopes
Enviado por Cícero Carlos Lopes em 07/01/2019
Reeditado em 07/01/2019
Código do texto: T6545316
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Sobre o autor
Cícero Carlos Lopes
Ferraz de Vasconcelos - São Paulo - Brasil, 43 anos
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