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Acertando contas com o passado - Partes 6 e 7 (de 8)

Parte 6 – Débitos começam a ser pagos

          Todos já ouviram que na vida a semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória para todos. Cada um colhe exatamente o que planta e quem nada semeia, nada colhe. Também é de amplo conhecimento que se a vida é justa, ela não deixa de ser uma exímia cobradora, que não se deixa levar por qualquer emoção. Um dia a conta chega e, no papel de devedores, não temos por onde escapar às nossas responsabilidades perante a Existência. O que aqui se faz, aqui se paga; não importando o tempo que passe. Assim, a conta começou a chegar para os nossos personagens.

          Três anos já tinham decorrido desde que Maria começara a trabalhar no buffet de Cristóvão. Certo dia, estavam todos nos preparativos para o casamento de Patrícia, que seria numa chácara. Estavam a preparar os milhares de doces e salgados. Além dos funcionários, naquele dia, estavam também Cristóvão e sua família a fiscalizar o andamento de tudo. A festa seria no dia seguinte, um sábado, e nada poderia dar errado.

          De repente ouvem o interfone tocar. Havia certa distância do local de trabalho até a portaria. O porteiro disse que uma encomenda tinha chegado. O próprio Cristóvão foi verificar, pois ele mesmo não se lembrava de ter pedido algo para aquele dia.

          Ao abrir a porta, foi surpreendido por três assaltantes encapuzados, que o ameaçaram com uma arma e o conduziram para a parte onde estavam as outras pessoas. Contra armas não existe argumento. Os bandidos queriam dinheiro e celulares e também o cofre. Não havia cofre. Todos foram rendidos e os ladrões levaram o que puderam levar. A violência psicológica foi terrível.

          Quando estavam de saída, um dos elementos fez Patrícia como refém até o portão. Outro agarrou a primeira pessoa que viu, justamente Maria. Ao abrirem o portão, deram de cara com a polícia. O local possuía monitoramento remoto e a empresa responsável tratou de avisar as autoridades. Teve início uma negociação muito tensa. Patrícia e Maria tinham revólveres apontados para suas cabeças. O terceiro ladrão aproveitou e fugiu.

          Todos estavam em desespero. Cristóvão, então, que estava próximo do bandido que segurava Patrícia, tentou dar uma de herói e pulou sobre o meliante. Este, assustou-se a acabou disparando um tiro à queima roupa na cabeça de Patrícia. Morte instantânea. Rolaram poucos segundos pelo chão e o bandido foi alvejado pela polícia. Também morreu.

          Maria, à mercê do outro ladrão, começou a rogar por ajuda divina. Na hora dos disparos, ambos se encostaram no muro para se proteger. O homem que a segurava olhou a guia marrom no pescoço dela e a pulseira preta e vermelha em seu pulso esquerdo. Ainda com a arma encostada em sua cabeça, mandou que ela virasse lentamente para ele. Quando ficaram frente a frente, ele abaixou a arma, olhou-a bem nos olhos e só teve tempo de dizer “– Mãe!”. Ouviu-se uma sequência de disparos e o rapaz caiu morto no chão. Maria retirou o capuz que cobria aquele rosto e reconheceu nele o seu filho mais velho. Não houve tempo para uma reconciliação. Caiu em lágrimas profundamente dolorosas. Esta tragédia abalou toda a estrutura familiar frágil de Cristóvão e dos seus. Maria, que estava em franca recuperação, entregou-se novamente à bebida.

          Meses depois, quando tudo parecia estar voltando ao normal, nova tragédia se abate sobre Cristóvão e Sônia. Carlos, o filho que restara, já com seus dezoito anos, tinha tido uma mudança radical de comportamento. De tendência depressiva e isolacionista, passou a profunda agressividade e a envolver-se com pessoas de índole altamente duvidosa. O diagnóstico não tardou a duvidar: tornara-se um viciado e para manter-se, também traficava e praticava roubos e furtos. Não deu outra. Em uma das noites que saíra de casa para se drogar e roubar, metera-se numa briga e acabou sendo morto por espancamento, tendo o rosto completamente deformado.

          Cristóvão e Sônia, totalmente abalados e sem saber o porquê de tudo aquilo, fizeram o caminho oposto ao que deveriam seguir. Ao invés de se manterem juntos para vencer mais esse obstáculo, decidiram se separar e cada um cuidar da sua vida. Dividiram os bens: Sônia ficou com o luxuoso apartamento e Cristóvão com o buffet. O dinheiro que possuíam em banco também foi igualmente dividido. Ele mergulhou fundo, e de cabeça, no trabalho, fato que o salvou de cair de vez num abismo profundo do qual, talvez, não tivesse saída. Por outro lado, tornou-se alguém que se isolou quase por completo do convívio social.

          Ela entregou-se aos prazeres mundanos como forma de esquecer as tragédias pela qual passara. Ledo engano! A fuga, ainda mais por esses caminhos tortos e tortuosos, aumenta o sofrimento ao invés de diminuí-lo. Tempos depois disso, Cristóvão ficou sabendo que ela também se fora. Estava agora literalmente só, imaginava ela. Outro engano absurdo, pois nunca estamos sós. Mesmo que não possamos ver, temos sempre a companhia de acordo com os nossos pensamentos.

          Maria, após o ocorrido, quase enlouqueceu. Se não fossem seus irmãos de fé, ela teria ido embora, adiando mais uma vez a chance de recomeço. Culpava-se demais por tudo e isso a massacrava. Com muito custo, parecia levantar-se novamente. No terreiro, numa gira de Exu e Pombagira, ouviu da entidade que lhe atendeu:

          – Deixe de moleza, dona. A vida é dura sim, mas tu é mais dura ainda. Não se culpe desse jeito. Cada um é responsável pelas escolhas que faz. Tu não está pagando pelas escolhas erradas que fez? Então, deixe que a parte da tua carne que partiu pague pelas escolhas dele. Ninguém é só vítima nessa terra. Perdoe-se em primeiro lugar. Tu não pode carregar a culpa que não é tua. Tá entendendo? Então vamos limpar este teu campo, que tá por demais de carregado. Mas uma coisa eu te falo, se tu cair de novo, tu vai ficar no chão. Por acaso esqueceu de quem te ampara?

         O Exu baforou seu charuto em torno de Maria, molhou, com seu marafo, os pés e as mãos dela. Por fim, mentalmente pediu permissão ao Pai da casa para que Maria pudesse dar passagem à Pombagira que a assiste e finalizar o trabalho de limpeza e descarrego. Feito todo o processo, Maria saiu de lá agradecida e muito mais leve do que entrara. As duras palavras que ouvira a fizeram querer viver. Afinal, havia mais dois filhos para ela reencontrar. Ela também precisava reencontrar-se.

Parte 7 – Entrelaçamento de histórias

          O leitor desavisado e afoito deve imaginar que este é apenas mais um emaranhado de histórias, que se confundem sem se ligar. Quanta tolice. A vida é uma grande teia e cada fio se entrelaça com outros fios. Os pontos onde se encontram, são os pontos em que as diferentes vidas se tocam. Deste toque levam marcas e nesse toque deixam marcas. Não há acasos na Criação Divina.

          Com a separação, Cristóvão comprou uma casa na mesma região do prédio em que morava. Não tinha o luxo do apartamento que morava com Sônia e os filhos, mas mesmo assim era bastante confortável. Quando soube da morte de Sônia, não quis saber de reaver o apartamento. Sônia era filha única e os pais já haviam falecido. Como não ela não tinha mais parentes diretos ou indiretos, coube a ele decidir o que fazer. Vendeu o apartamento e doou o valor para instituições de caridade.

          Nessa nova fase de sua vida, com mais dedicação ao trabalho, os cinquenta anos de idade se aproximando, decidiu contratar alguém para cuidar da cozinha de sua casa. Lembrou-se de Maria, funcionária do buffet, e resolveu chamá-la. Se ela quisesse, tinha até mesmo um quarto extra na casa que poderia ser ocupado. Ele precisava de alguém para cuidar e organizar a casa para ele. Conversaram e ela aceitou. Não sabia se daria conta de tudo, pois afinal de contas já tinha quase sessenta anos e a vida, aliás, ela mesma, já se judiara demais.

           Meses depois, convivência trouxe relativa liberdade, Maria perguntou ao patrão por que ele ainda não arrumara outra pessoa, pois ele ainda trazia algum vigor. Cristóvão respondeu que se cansara da convivência a dois e que talvez não fosse tão bom assim para viver com alguém. Se o fosse, por que Deus havia permitido que ambos os filhos morressem? Por que Ele havia permitido que Sônia se desgostasse da vida que levavam? Maria retrucou:

          – Sr. Cristóvão, eu também já sofri muito na vida. Hoje, aparento bem mais do que os meus quase sessenta anos. Mas sei que estou pagando pelas minhas escolhas. Naquele dia do assalto, quando o senhor perdeu sua filha, eu também perdi um filho que não via há uns 20 anos. Ele era o ladrão que estava me fazendo de refém. Nós só nos reconhecemos quando nos olhamos bem no fundo dos olhos, mas aí já era tarde. Eu aprendi, com muita dor, que cada um deve pagar pelas escolhas que faz. A gente que não entende ou não aceita, mas tudo acontece como tem de ser. Então, sr. Cristóvão, viva a vida.

          Ele, que ouvia tudo calado e concentrado, não conseguiu disfarçar e deixou um fio de lágrimas rolar pelo rosto e disse:

          – Nossa! Maria, você pareceu a minha filha falando agora. Ela tinha uma fé e esperança invejáveis. Lembrei-me dela.

           – Não chore, não! Ou melhor, – disse rindo a agora alegre senhora – se for para lavar a alma, chore, esvazie o coração. Eu ainda tenho mais dois filhos para encontrar de novo. Não sei se os encontrarei nesta vida ou em outra. Mas decidi não me cobrar tanto. Se o senhor quiser, pode ir qualquer dia no terreiro que eu vou. Vá tomar um passe, conversar, quem sabe o senhor volta mais aliviado?

          Cristóvão falou que iria pensar, pois pouco sabia dessa religião e confessou que tinha mesmo até medo. Maria deu uma estrondosa gargalhada da fala de seu patrão. Despediram-se e foram dormir.
Naquela noite, Cristóvão sonhou com Patrícia. No sonho, Patrícia estava de frente a ele e lhe dizia, cravando-lhe aquele doce e firme olhar cor da noite:

          – Papai! Que bom revê-lo e abraçá-lo outra vez!
         
          – Eu estou morto? – perguntou Cristóvão.

          – Não, papai, o senhor não está morto. Está desdobrado em espírito enquanto o seu corpo físico descansa.

          – Mas como isso é possível? Não acredito nisso!

         – Bom, existem tantas coisas que as pessoas não entendem. Porém, não há tempo para explicá-las agora. Tive permissão para contatar o senhor para adverti-lo de que se não mudar seu padrão de pensamento, se não mudar seu padrão vibratório, o senhor poderá partir antes do tempo. Não se preocupe mais comigo, com mamãe ou com Carlos. Todos estamos bem e em recuperação dos traumas pós passagem. Somos frutos de nossas escolhas antes mesmo de nascermos. Ao invés de ficar se lamentando por nossa partida, de ficar se cobrando porque poderia ter feito algo melhor, de ficar chorando de saudade, ao invés disso, ore, reze, para que possamos evoluir e encontrar o caminho da Luz e da Paz. Nós precisamos seguir nosso caminho, mas seus pensamentos nos prendem. Lembre-se que não pode carregar a culpa que não é sua. Ah, e ouça os conselhos de Dona Maria. Adeus, papai! – disse tudo isso e esvaiu-se no ar.

          Cristóvão acordou sobressaltado e suando frio. O sonho parecera tão real! Levantou, foi à cozinha, tomou um copo d’água e, nessa hora, sentiu um suave calafrio a percorrer sua coluna e eriçar os pelos de seu corpo. Por incrível que pareça, sentiu-se em paz. Voltou para a cama e dormiu pesadamente.

          Acordou no dia seguinte e foi tomar café. Chegou na cozinha e a mesa já estava posta. Pediu para Maria sentar-se e tomar café junto com ele. Aproveitou e contou o sonho da noite anterior para ela, que apenas riu e disse que podia ser um sinal de que ele precisava buscar entender um pouco mais de si mesmo e de sua história. Cristóvão pegou todas as informações com Maria a respeito dos atendimentos que lá faziam. Após recebê-las, disse que no próximo sábado não poderia ir devido a compromissos pessoais e de trabalho, mas que iria no outro.
Três dias depois dessa conversa, era uma segunda-feira, Cristóvão pediu a Maria que preparasse um jantar especial para a quarta-feira, pois ele iria trazer alguém especial para provar do seu tempero. Ela deu um sorrisinho maroto, mas ninguém sabia o que estava por vir.

          Na noite do dia marcado, Maria estava finalizando o jantar, por volta das oito horas da noite, quando ouviu a campainha tocar. Decerto era seu patrão que chegara com a tal da “alguém especial”. Só não entendeu por que ele mesmo não abrira a porta.

          Assim que girou a maçaneta e abriu a porta, os olhos de Maria esbugalharam-se e ela quase enfartou. Precisou ser amparada por Cristóvão e por Jéssica, a companhia que ele trouxera. Sentaram-na no sofá e quando conseguiram acalmá-la, as coisas começaram a se esclarecer.

          – Jéssica? É você mesmo, minha filha? – perguntou a emocionada Maria.

          – Como assim? Vocês se conhecem? – foi a vez de um estupefato Cristóvão perguntar.

          Jéssica demorou, mas reconheceu sua mãe naquela senhora tão sofrida. Vinte anos não foram suficientes para apagar de uma o semblante da outra. Como sua mãe estava acabada, sofrida! Pensou Jéssica. Caiu no choro também. Um misto de alegria e arrependimento. Alegria por tê-la encontrado e arrependimento por tê-la abandonado. Abraçaram-se forte e demoradamente. Parecia que Cristóvão nem estava ali na sala.

          Muitos minutos depois, calmas e recompostas, puderam falar. Jéssica começou:

          – Esta é minha mãe, a quem eu, junto com meus irmãos, abandonei há vinte anos. Não tivemos força para ajudá-la a superar os problemas. Nós a abandonamos à própria sorte e fomos cada um cuidar da sua vida. Perdão, mãezinha, perdão!

          – Eu também peço perdão, minha filha. Eu devia ter sido mais forte e ter pensado melhor em vocês antes de escolher os caminhos errados.

          Choraram mais uma vez e Cristóvão ficou sem saber o que falar ou fazer.  Conseguiu apenas pronunciar:

          – Vamos jantar a três, então?

          Durante o jantar, as histórias foram surgindo. Maria quis saber sobre o filho mais novo e Jéssica disse que não sabia dele. Depois que saíram de casa, ficaram um tempo na rua, um tempo em abrigos e, por último, pipocando de casa em casa dos poucos conhecidos e amigos. Quatro anos depois separaram-se em definitivo e nunca mais se viram.

          Ela encontrou apoio numa ONG, estudou e hoje trabalha num importante banco no centro da cidade. Tornou-se uma mulher bem decidida, independente, além de muito bonita. Como teve ajuda para mudar e melhorar de vida, hoje ela é uma das responsáveis pela ONG que um dia a ajudou. Ela estranhou a mãe não ter perguntado pelo mais velho. Foi então que Maria lhe contou a história do assalto e da forma triste que reencontrara, Marcos. Fez-se um breve instante de silêncio e Jéssica continuou:

          – Mãe, durante muito tempo eu senti verdadeiro ódio da senhora e guardava muito rancor. Julgava que por culpa da senhora, o pai tinha sido morto e a nossa vida estava daquela forma. Por isso decidimos ir embora de casa. Os anos e os acontecimentos foram criando uma casca muito dura em meu coração e isso me fazia sofrer. Há cinco anos conheci a Doutrina Espírita e aos poucos fui me libertando desse sentimento negativo. Hoje eu reconheço que houve erros por parte de todos e que cada um é responsável por suas escolhas. Me perdoei, te perdoei e também peço o seu perdão.

          – Hoje, filha, eu consigo entender isso tudo. Estou ainda me perdoando, pois tenho consciência dos meus débitos. Mas não tenha dúvidas que te perdoo e agradeço o seu perdão. Meu caminho ficará mais leve.

          Olharam para Cristóvão e ele estava com os olhos marejados. Era muita emoção. Como ele ficou relegado a segundo plano naquele jantar, só lhe coube dizer que conheceu Jéssica em um evento que o buffet organizou para o banco em que ela trabalhava. De lá para cá já são três meses que os dois se conheciam e também já haviam contado suas histórias um para o outro. O que acontecera naquele jantar foi apenas mais um capítulo, não o capítulo final desta história.
Cícero Carlos Lopes
Enviado por Cícero Carlos Lopes em 07/01/2019
Código do texto: T6545321
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Ferraz de Vasconcelos - São Paulo - Brasil, 43 anos
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