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Acertando contas com o passado - Parte 8 (de 8)

Parte 8 – Últimos débitos e bônus: reencontros e partidas

          Conforme prometido por Cristóvão, no sábado após aquele jantar, ele fora ao terreiro frequentado por Maria. Jéssica também os acompanhou. Aquela noite era uma gira de caboclos.
 
          A primeira a ser chamada foi Maria. Ela apenas agradeceu por tudo. Tinha se encontrado na vida, reencontrou a filha, entendeu que cada um colhe aquilo que planta. A vida já tinha lhe dado talvez mais do que merecesse. O caboclo que atendeu a ela sorriu, aplicou-lhe um passe para equilibrar as energias, pois emoções positivas em excesso podem nos tirar fora do prumo e disse-lhe que a vida costuma retribuir ainda mais aqueles que demonstram gratidão por aquilo que recebem.

          Na sequência foi a vez de Cristóvão. Chegou frente à entidade, saudou e foi saudado com um abraço. Postou-se ereto, fechou os olhos e antes que falasse qualquer coisa, o caboclo aplicou-lhe um passe com as mãos, primeiramente, depois ao som da maraca. E começou a falar:

          – Filho tá bem hoje! Diferente da última vez que esteve aqui. O semblante está alegre e muita luz emana de ti. O filho quer contar algo?
Cristóvão contou o que ocorrera com ele nos últimos dias. Só esqueceu ou omitiu o sonho que tivera com Patrícia. O caboclo olhou-o fundo nos olhos e disse:

          – Filho, não está esquecendo de nada não? – e deu um trago profundo em seu charuto, baforando depois ao redor de Cristóvão, que insistiu em dizer que de nada esquecera. A entidade, então falou:

          – Tem uns dias que a filha do filho lhe falou em sonho, não foi? Quando o corpo físico adormece, o espírito se liberta e viaja pelo espaço de acordo com os pensamentos. Mas nem sempre as pessoas se lembram das viagens que fazem. O filho se recorda bem do que ouviu aquela noite, não é mesmo?

          Cristóvão balançou afirmativamente a cabeça. O caboclo continuou:

           – Agora, as outras coisas que o filho disse ao caboclo, tudo são contas da vida que chegaram e estão chegando para o filho pagar. E já está na hora de o filho saber o porquê para deixar de se martirizar tanto nessa vida.

          O caboclo pediu a um cambone uma cadeira para Cristóvão e também pediu ajuda a um outro médium incorporado para que ficasse atrás do assistido. Cristóvão sentou-se e as entidades postaram-se na frente e atrás dele. Aquele que começou o atendimento colocou a mão na testa de Cristóvão e desceu como que a lhe fechar os olhos e deu um brado agudo muito forte. Cristóvão sentiu que saíra do corpo e pairava, sendo amparado pelo caboclo, que lhe disse:

         – Está vendo aquela filha sentada ali na assistência, aquela que te trouxe até aqui? Pois bem, numa existência anterior, o filho aqui tirou dela e matou duas crianças para que não fosse revelado um segredo perigoso para o filho.

          Cristóvão ficou sem entender, mas o caboclo abriu uma espécie de tela mental e ele pôde se ver numa época diferente da atual. Parecia uma fazenda antiga, tempo da escravidão. Ele, Cristóvão, era o senhor daquela fazenda e Maria era uma jovem e bela escrava. Cristóvão, à época Mauro, tinha seus instintos carnais muito aflorados e em certo dia acabou por violar a Maria, que na época se chamava Joana. Dessa violência resultou uma gravidez, da qual veio à luz um casal de gêmeos.

          As crianças começaram a crescer fortes e saudáveis e Joana caiu na besteira de exigir de Mauro o reconhecimento dos filhos. Foi uma atitude tola porque era um momento em que os negros não tinham voz nem vez. Um fazendeiro rico e importante como ele não podia ter seu nome vinculado a dois mulatinhos frutos de uma relação como aquela. Mandou que o feitor tomasse as crianças, ainda bebês, de Joana e levasse para ele. Mauro mesmo encarregou-se de dar fim à vida daqueles inocentes seres.

          Joana, movida pelo ódio e pelo forte desejo de vingança, fez uso de forma negativa dos conhecimentos magísticos de seu povo e conduziu Mauro à completa ruína. Primeiro a loucura de sua esposa, que se entregou libidinosamente aos prazeres da carne. Depois foi a vez de
 
            Mauro, que, atingido por estranha doença, perdeu a mão dos negócios e levou a fazenda à falência e veio a falecer sozinho e abandonado por todos. Joana foi a única que permaneceu a seu lado para jogar-lhe a última pá de cal sobre seu caixão. Estava vingada.
Através de outro brado agudo, o caboclo fez com que retornassem ao tempo atual no terreiro. Cristóvão caiu em choro convulsivo. E o caboclo continuou:

          – O filho entendeu agora o ditado “aqui se faz aqui se paga”? Isso se chama “lei do retorno”. Entendeu por que os teus dois filhos partiram? Por que tua mulher enlouqueceu? Entendeu por que aquela que te trouxe até aqui foi abandonada pelos filhos? O que o filho tirou no passado, o filho vai ter de cuidar agora no presente. A vida está dando ao filho uma chance de se redimir pelos erros cometidos. Uma das crianças o filho já encontrou e ela é agora uma mulher muito bonita.
Um pouco mais calmo e sem chorar, Cristóvão falou:

           – Entendi, caboclo. Entendi. Tenho muito o que pedir perdão e me perdoar. Mas como vou achar o outro filho de Maria?

           O caboclo sorriu, deu um abraço em Cristóvão e disse:

           – Quando vocês forem embora daqui hoje, estendam a mão àquele irmão que está lá fora tomando conta do que não é dele. É só isso que caboclo pode falar hoje. Vá em paz, filho. Vá em paz!
Cristóvão tomou um copo d’água que lhe foi trazido, recuperou o fôlego e retornou para a assistência, onde Maria e Jéssica estavam preocupadas à sua espera querendo saber o motivo da demora. Ele apenas respondeu:

           – Coisas do passado! Coisas do passado! – abriu um sorriso e pediu para irem embora.

           Naquele sábado o céu estava extremamente límpido, a lua brilhava grande e cheia, iluminando clara e perfeitamente a rua. Assim que chegaram no carro para irem embora, Cristóvão lembrou-se do que o caboclo disse e viu o homem que estava a tomar conta dos carros. Ele estava do lado direito, próximo à Maria. Cristóvão tirou da carteira uma nota de baixo valor e pediu para que Maria entregasse ao homem.
Maria recebeu a nota e virou-se para entregar ao homem. Tomou mais um susto. Olhou bem para aquele rosto, que não opunha resistência e perguntou seu nome:

          – Cleiton, senhora!

           Maria teve um rápido desmaio. Não tinha mais idade para tantas emoções. Cristóvão percebeu e saiu correndo para ajudá-la. Jéssica ouviu a voz do homem dizendo como se chamava. Aquele nome e aquela voz lhe eram familiares. Foi até o homem, que estava assustado, e não pôde se conter: era seu irmão. A vida unia mais alguns fios de sua teia e lá de dentro do terreiro, os caboclos sorriam e agradeciam ao Pai Maior por mais uma missão cumprida.

         Dali foram direto para a casa de Cristóvão. Mais alguns pontos precisavam ser esclarecidos. Entraram e a primeira providência foi permitir que Cleiton tomasse um banho. Cristóvão cedeu algumas roupas dele para que pudesse vestir. Apenas depois é que se reuniram para conversar. Cleiton falou abertamente sobre a raiva que sentira da mãe em virtude da morte do pai. Falou também que depois que se separou dos irmãos passou a viver na rua, pedindo esmolas e fazendo pequenos bicos para sobreviver, mas que não se entregara ao tráfico – embora tivesse provado drogas. Por algum motivo que ele desconhecia, permanecera vivo para aquele momento. Em seguida, Jéssica e Maria contaram para ele as suas histórias e sobre o irmão mais velho.

          Cristóvão, que a tudo observava sem nada falar, foi até a janela, olhou para o alto, sorriu e agradeceu ao Criador por ter tido a chance de participar daquele reencontro.

           A vida, no entanto, segue seu curso. Alguns meses se passaram e as coisas foram se acomodando. Cleiton começou a trabalhar com Cristóvão e logo mostrou disposição para aproveitar bem a chance que recebera.  Jéssica casou-se com Cristóvão e os quatro passaram a morar todos na mesma casa.

          Maria e Jéssica eram frequentadoras assíduas do terreiro de Umbanda. Jéssica, inclusive passou por um curso e começou a fazer parte da corrente mediúnica. Sua vivência no kardecismo trouxe alguma ajuda, mas o mais importante foi a sua disposição para aprender e ajudar o próximo com a sua mediunidade. Maria ia para tomar os passes e ajudar de alguma outra forma, embora fosse médium bem desenvolvida, não apresentava mais condições físicas para o trabalho com atendimentos. Cleiton não era muito ligado à religião, mas procurava manter-se num caminho reto e de vez em quando ia também tomar seus passes. Cristóvão tornou-se um estudioso e bom conhecedor da religião, frequentava assiduamente as giras, mas preferiu não trabalhar. Achava ser mais útil na parte teórica.

          Jéssica e Cristóvão não tiveram filhos biológicos, mas decidiram adotar um casal de irmãos já passados dos sete anos, ato altamente louvável. Dedicaram às crianças todo o amor que podiam e viram-nas transformarem-se em pessoas de bem. Ficaram juntos até que chegou a hora para ambos, já velhinhos, de partirem de volta para casa.

          Cleiton casou-se e deu prosseguimento à sua vida, que se não foi das mais luxuosas, também não passou mais por tantas dificuldades. Compreendera que cada um tem da vida aquilo que semeia.

           E Maria, a Dona Maria. Esta grande alma foi a primeira dos quatro a retornar para casa. Perdoou e foi perdoada. Reconciliou-se com a vida e consigo mesma. Em sua passagem foi assistida por sua guardiã, que a recebeu de braços e sorriso abertos. Mais uma missão tinha sido cumprida. Ainda teve o privilégio de receber Jéssica e Cristóvão para quitar de vez os débitos com o passado, ao menos com aquele passado que aqui conhecemos.

Cícero – de 03 a 06/01/2018
Cícero Carlos Lopes
Enviado por Cícero Carlos Lopes em 07/01/2019
Código do texto: T6545326
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Sobre o autor
Cícero Carlos Lopes
Ferraz de Vasconcelos - São Paulo - Brasil, 43 anos
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