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O Meio, o Fim

 Francisco caminhava pelas planícies em direção ao Reino, sustentado pelas generosas e estranhas árvores que lhe davam um fruto parecido com tomate e pêssego, além das lebres que se permitiam serem caçadas por sua visão cansada e seu estilingue prestes a arrebentar.
  Acreditava estar na metade do caminho quando a campina deu lugar à colinas; não havia mais árvores frutíferas, apenas lebres, que eram mais difíceis de caçar devido ao relevo. No centro das colinas havia montanhas que passavam dos trezentos metros de altura, e que deveriam por ele ser superadas. Nem mesmo as lebres se aventuravam naquelas rochas inóspitas; todavia Francisco, negando-se a escalar, encontrou uma passagem ladeira acima entre as duas montanhas bem mais larga do que se imagina. Seu estomago estava cheio duma ave abatida pelo disparo derradeiro de sua atiradeira, cuja borracha arrebentou logo em seguida. Ao chegar ao cume, conseguiu ver os palácios que o aguardavam, tentou tomar um gole da cachaça que trazia em um cantil mas estava vazio; Francisco não lembrava de tê-la bebido, atirou o frasco lá de cima e teve como divertimento vê-lo quicar entre as rochas.
 Retomou fôlego e desceu chapeando por uma trilha sinuosa, sua reclinação fazia-o andar aos saltos, dando lhe velocidade e consequentemente pressa. Francisco avistou o que parecia uma curva, freando-se  percebeu se tratar de uma grande pedra bloqueando sua passagem. Ao parar percebeu-se fatigado, repousou impaciente por alguns segundos e logo tentou mover o obstáculo com os punhos, com as costas, nada, naquele momento seus quase trinta e  oito anos pareciam pesar mais que a pedra. Experimentou como alavanca um toco, que fora deixado ali por algum lenhador sabe-se Deus quando, ela não moveu sequer um centímetro. Francisco tentou mais uma vez, por desencargo de consciência, nada; abandonou o toco e voltou para casa satisfeito com até onde chegara.
 Não odiava a pedra, mas também nunca a esquecera, até porque ela rolou montanha a baixo, depois pelas ladeiras asfaltadas, por fim assentando-se  no início de subida da avenida Tancredo Neves, bloqueando o caminho que o levava até a igreja nos domingos. Com o tempo encontrou outras pedras iguais àquela, primeiro na entrada do parque onde corria, depois na rua de sua sogra e também no portão do escritório, obrigando-o a exonerar-se. Em sua cama, entre ele e sua esposa, rolou, como a roda de uma carro que se desprende, uma pedra achatada, que lembrava muito a tampa do poço que havia no sítio do seu avô, lembranças da infância, adorava o gosto ferroso daquela água mas não podia com o peso dessa primeira pedra que privava seus desejos, sempre precisava de um adulto para movê-la, e por fim quando vinha seu pai ou algum tio arrastá-la o pequeno Chiquinho a puxava junto, acreditando fielmente estar ajudando de alguma forma.
 Mais tarde, enquanto bebia trancafiado no galpão que havia nos fundos de seu pátio, duas rochas entraram furtivamente em sua casa, uma assentando-se  na porta do quarto de seus filhos e a outra no de sua esposa; deu de ombros. A derradeira e maior rocha também seria de certa forma desnecessária, rolara até a entrada deste mesmo galpão, onde Francisco se exilara, até que os vizinhos, incomodados com o cheiro pútrido que dali exalava, arrombassem a porta e tirassem lá de dentro apenas sua carcaça.



Felipe Ferrão Silva
Enviado por Felipe Ferrão Silva em 14/01/2019
Reeditado em 19/01/2019
Código do texto: T6551013
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Felipe Ferrão Silva
General Câmara - Rio Grande do Sul - Brasil, 30 anos
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Felipe Ferrão Silva