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A mulher dos sonhos...



Aquele era  mais um desses dias pacatos em que nada insólito acontece. Mas, ao contrário do que tudo indicava, ao caminhar pela rua, vi  uma mulher  um pouco atrapalhada que se aproximou no intuito de pedir ajuda.
De forma exuberante, ela se aproximou tanto que pude sentir seu hálito fresco e, em seguida, ouvir nitidamente seu  pedido de  ajuda para algo que poderia me render grande dose de adrenalina.
Sem entender o que acontecia, continuei prestando atenção na mulher que, mesmo ao me tratar com familiaridade, começara a me chamar por um nome que não era o meu (dando-me assim forte sinal de que me confundira).
Ela era estrangeira e por isso falava em português com um carregado sotaque italiano, mas aparentava entender mais sobre meu país do que eu mesmo, e logo que ficamos a sós em um bar ali próximo, de modo confidencial, disse-me:
—  Para que nossa missão não falhe, é  importante que memorize o que digo...
— Sou todo ouvidos — disse, jocosamente.
— Ao contrário do que você ouviu de seu estimado professor nos primeiros anos escolares, a história deste país não começa em 1500 e sim no ano de 1789, com a tomada da nação francesa pela burguesia nacional de lá.
— Interessante — observei, após  lembrar-me do conselho sábio que minha avó me dera um dia de que “louco não se contraria”. Ainda absorto no antigo conselho e tentando recuperar a atenção, continuei a ouvir aquela história, porque havia em minha mente também uma esperança singela, de que aquela loira viesse a se interessar por mim, e de que naquele engano, pudesse haver alguma conspiração do Universo, algo do tipo “nosso amor escrito nas estrelas”.
— Foi então que surgiram os famosos conceitos que hoje estão na moda nas redes sociais de Esquerda e Direita, pois assim começaram a se dividir as pessoas, Direita eram os conservadores e Esquerda os que se propunham como  liberais.
— Sim, sim. Eu já ouvi falar disso — acrescentei, observando como ela umedecia os lábios com a língua a cada intervalo daquele improvável diálogo.
— O resto dessa História — acrescentou — talvez você já tenha ouvido falar.
— Sim — concordei, sem jamais ter ouvido falar de nada daquilo.
— Pois é...! É bom mesmo que você saiba, pois sua prodigiosa memória (tão propagada em nossa fechada confraria) será decisiva para o cumprimento de nossa missão...
— Com minha memória não se preocupe, ela continua tão boa como  nos velhos tempos — disse, mentindo novamente.
— Pois bem, então você sabe que os progressistas (aqueles que se achavam os moderninhos da época) começaram a forçar a barra para acabar com a monarquia e tanto fizeram até que conseguiram, depois de colocar em prática o mais famoso aparelho de morte, a guilhotina. Com isto, a tal Revolução Francesa decapitou não somente reis e rainhas como os próprios revolucionários e mais tarde gerara, além do pensamento filosófico positivista, o conhecido Napoleão Bonaparte, percursor de ditadores como Hitler, Stalin, Mussolini, etc.
— Eu sabia disso, mas você  contando torna tudo mais colorido e interessante — disse eu, novamente a interrompendo, numa tentativa desesperada de galanteio.
— A Revolução Francesa... —continuou, ainda movendo os lábios daquela maneira  hipnótica — A Revolução chegou ao Brasil e tomou forma na também famosa Revolução Farroupilha. Até o lema e os ideais eram parecidos! Aqui o positivismo também encontrou espaço através do político gaúcho Júlio de Castilhos e, mais tarde, tomaria moldes mais práticos com a implantação do Estado Novo de Getúlio Vargas: eis a trajetória que as ideias francesas percorreram até chegarem aqui no Brasil.
— Sério mesmo? Eu nunca consegui imaginar essa espécie de silogismo.
— Com certeza! Tudo isso é sério. Mas  estas ideias francesas somaram-se, também, às ideias de Karl Marx aclamadas na época. Aqui no Brasil, seu maior divulgador foi um contemporâneo seu e conterrâneo de Vargas. O sujeito que iniciou a esquerda brasileira no caminho do amor a Marx foi o gaúcho Carlos Prestes.
— Quanta coisa aconteceu e eu aqui sem saber de nada.
—Como sabes, Prestes saiu do Exército Brasileiro para se tornar o primeiro guerrilheiro do país. Amealhou uma pequena legião de seguidores que aumentou até formarem a conhecida Coluna Preste. Ele saiu do Rio Grande do Sul e percorreu todo o país. Ah... ele fundou o Partido Comunista do Brasil.
— Do Prestes eu já ouvi falar... E dizem que era um sujeito tão macho que usou a primeira mulher como escudo ao ser pego pelos militares da era Vargas, e depois a usou como propaganda contra Getúlio Vargas pelo fato de ela ter sido enviada ao seu país de origem.
— Não é bem assim, meu amigo — disse ela, em tom veemente, enquanto descruzava lentamente as pernas em minha frente à lá Sheron Stone, fazendo com que, como numa espécie de sortilégio, eu concordasse instantaneamente.
— Bem... E qual é a minha missão? — perguntei ansioso.
Aproximou-se de mim lentamente, como se fosse contar mais um daqueles segredos, segurou-me pelo pescoço e me beijou.

Nervoso e suado, acordei.
André Garcez Verissimo
Enviado por André Garcez Verissimo em 14/01/2019
Reeditado em 14/01/2019
Código do texto: T6551019
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
André Garcez Verissimo
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 31 anos
11 textos (97 leituras)
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André Garcez Verissimo