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Acorda Tereza

     Foi numa sexta de madrugada - quando cheguei após secar a ultima garrafa de Jack Daniel's do bar da esquina do Seu Amaro - que me deparei com ela estirada pelo chão. Minha avó estava viajando em visita a sua irmã mais velha prestes a morrer de câncer no pulmão, de modo que me peguei em casa sozinho com Tereza. Ela estava dormindo no chão do quartinho onde minha vó costurava, e mesmo assim resolvi despertá-la do seu sono profundo. Como uma garrafa estilhaçada em mil pedaços, juntei todas as peças do piso vermelho feito sangue e lá estava ela de novo, outra vez firme e forte disposta a me ajudar. Tereza estava acordada mais uma vez.
     Apenas Tereza podia me amparar e me tirar dessa tristeza profunda que me consumia por inteiro. Já não sabia o que fazer, Tereza era minha salvação e minha única esperança, somente a ela eu podia me entregar. Havia prometido para mim mesmo que desta noite não passava, e acordaria Tereza para cumprir o dever qual por mim fora concebido, já que agora eu realmente sabia o que queria, e iria até o fim sem me arrepender depois.
     Tereza ainda não era Tereza quando apareceu em casa pela primeira vez. Já tinha se passado uns três anos desde o trágico acidente responsável por levar a vida dos meus pais, eu devia ter pelo menos uns oito, quando assim como eu, minha avó materna também resolveu criar a frágil ainda sem nome. Isso foi na mesma época que ela comprou uma máquina de costura daquelas antigas de pedal e começou a costurar por hobby para uma cooperativa local, para suprir os dias rotineiros de uma comum dona de casa aposentada. Confesso que aquela quieta e inocente de pele clara, posteriormente apelidada por minha avó de Branca - também como a neve, mas macia como um tecido ora de algodão, ora de cetim - não me chamava atenção, até mesmo porque fomos praticamente criados juntos. No entanto, com dezesseis anos eu fui diagnosticado com fobia social, dessa maneira, sem sair de casa e sem concluir os estudos pelo medo irracional de socializar com o mundo lá fora, eu só tinha minha avó Carmelita e Branca, a qual fui sentido cada vez mais um desejo inexplicável por ela. Foi o momento exato em que deixei Branca de lado para finalmente poder conhecer sua forma mais bruta como Tereza.
     Devido aos meus problemas sociais, eu não tinha mais nada a perder e me sucumbi sem medo à sedução de Tereza, sem resistir a sua tentação. Ainda estava sob efeito do Whisky quando suspendi o corpo mole de Tereza até a mesma se encontrar completamente firme. Ao perceber que estava segura de si, o laço dos seus braços então me envolveu e sua pele macia suavemente foi tocando o meu pescoço de modo que aos poucos me apertava com mais afinco. Não demorou muito, logo eu estava impossibilitado de respirar. Sem nenhum pingo de ar, de uma forma brutal Tereza pôs a me sufocar.
     A verdade é que peguei todos os tecidos brancos da minha avó que estavam espalhados pelo chão, alguns feito de cetim e outros de algodão, e amarrei um em cada parte prendendo tudo numa peça só. O conjunto de panos brancos agora era uma corda. Pendurado e enforcado, minha vida eu tinha dado por encerrada. Mas nada disso teria acontecido se não fosse por Tereza. Graças a Tereza agora não sou mais um mero figurante dessa tal peça chamada vida. Graças a Tereza, a corda Tereza.

Significado Tereza: Corda feita de panos geralmente de lençóis usada por presos para fugirem da prisão, ou como visto acima, qualquer outros panos da avó costureira que sirva para tirar a própria vida. Todavia, ambos com os mesmos propósitos: A BUSCA PELA LIBERDADE E A SUPOSTA FUGA DA DOR.

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Dan Will
Enviado por Dan Will em 16/01/2019
Reeditado em 16/01/2019
Código do texto: T6551996
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Dan Will
Bastos - São Paulo - Brasil, 26 anos
69 textos (3429 leituras)
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Dan Will