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O real sentido da insanidade

“Agora, estou aqui sozinho na companhia de estranhas e novas sensações, as quais me parecem já velhas conhecidas. Lá fora, o vento sopra no escuro e parece que quer arrastar tudo que encontra à sua volta, como se estivesse disputando um espaço que lhe é vital

Não sei se alguém lerá essa carta algum dia. Não sei se alguém terá interesse em lê-la, não sei se ela será encontrada, ou se será perdida para sempre. Talvez ela se estrague, encharcada pelo meu sangue que certamente será derramado daqui a pouco. Mas caso alguém a encontre e tenha paciência para lê-la, só peço que acompanhe atento o que vou dizer. Não destino essas letras amargas a ninguém em especial, o destinatário da carta é incerto, assim como incertas são as razões que me levam a escrevê-la, uma vez que escrevendo-a, não encontrarei alívio para o meu mal-estar, nem tampouco mudarei a minha decisão. O destinatário da carta será quem encontrá-la e quiser lê-la, ou então será o vazio, que vai absorver minha vida em breve.

Tudo aconteceu rápido demais. Agora estou aqui, sentado em minha mesa nessa sala escura, em uma noite chuvosa e de vento forte. Mas agora pouco, quando eu nem pensava em escrever essa carta, eu estava lá fora, caminhando sob uma leve garoa, a mesma que agora se transformou em chuva torrencial.... é incrível a capacidade de certas coisas em se transformar. Sempre me intriguei com isso. Em um minuto, o que cai do céu é uma fina gota de água suave, no minuto seguinte, são violentos espasmos de uma força sobrenatural e desconhecida, que, se tiver a capacidade de raciocínio, deve pensar em tudo, menos nas razões que a levam a cair tão forte sobre o solo, para se dissipar em minúsculas partículas que explodem por todos os lados. Quando ela cai leve e fina, fica quase inteira ao atingir o chão. Quando se transforma em força quase destruidora, despedaça-se a si mesma quando cai no chão. Será que, para a chuva, compensa se destruir assim, explodindo-se em milhares de gotículas, somente pelo prazer de cair forte sobre nossas cabeças? Será que a chuva não preferiria continuar sendo para sempre uma fina garoa, mantendo-se quase inteira ao cair no chão? Bom, mas não sei o porquê de eu pensar nisso agora. É melhor eu voltar à carta ao meu destinatário desconhecido, ou não terei tempo de concluí-la.

Se eu realmente soubesse quem sou, talvez isso tudo fosse evitado. .Se ao acordar naquela manhã e vir o corpo nu ao meu lado, eu tivesse me levantado sem sequer olhar para seus olhos abrindo-se logo depois, eu agora não estaria escrevendo essa carta. Mas como evitar? Aquela pele pedindo por meus toques em silêncio. Pedindo pelos meus toques, após o seu corpo haver me absorvido durante toda a noite.

Pensando melhor, eu nem deveria ter chegado naquele ponto. E digo mais, ela me avisou. Ela me disse, em voz triste, porém segura de que era melhor, que aquilo não iria muito longe. Eu, na hora, recusei-me a aceitar continuar ouvindo, mas ela insistia, insistia, insistia.... chegava a ser irritante, achei que ela estava querendo se livrar de mim após termos passado a madrugada em um turbilhão sexual. Mas como eu poderia ter pensado isso sobre ela.... ela, que me amava?

Mas, como eu estava dizendo, ela acordou e se espreguiçou, com um sorriso meigo e malicioso no rosto, e alisou meu rosto. Pareceu que o tempo parou naquele momento. Mas aí ela abaixou os olhos, olhando para seu próprio corpo nu, e me disse “não dá..... a gente sabe que isso nunca dará certo”. Confesso que na hora eu fiquei sem saber o que pensar. Parecia que estava tudo indo bem.... e é por isso que eu repito a você, que encontrou minha carta, é impressionante a capacidade de certas coisas em se transformar.

Tentei perguntar o que ela estava querendo dizer, mas assim que proferi as primeiras palavras, ela me interrompeu e disse que eu sabia muito bem o que ela estava dizendo. E o pior é que sabia mesmo, mas não sabia que sabia. Se eu realmente soubesse quem sou, teria entendido isso na mesma hora. Mas aquele calor parecia que estava fritando meus sentidos. Os sentidos, na verdade, são por si só algo em brasa, algo que se nós não controlarmos, nos consomem em chamas vivas. Mas aí eu pergunto (não querendo encher o paciente leitor dessa carta com perguntas profundas e talvez loucas), mas aí eu pergunto: quem consegue controlar os sentidos?

Melhor dizendo, quem consegue realmente saber sobre si mesmo? Se a questão é: se eu soubesse quem eu sou, eu teria evitado tudo isso, acho que eu não teria como evitar nada, já que acho que ninguém consegue compreender a si mesmo. Estamos tão acostumados a pensar sobre o mundo, a pensar para o mundo, que deixamos de lado o nosso próprio interior. Não querendo parecer egocêntricos ou alienados, acostumamo-nos a só refletir sobre o que atinge a humanidade, atinge visivelmente, eu quero dizer, e o que atinge a nós mesmos, em particular, fica relegado, porque aprendemos desde sempre a não dar atenção visível ao nosso interior. Mas eu não sei por que não podemos conciliar as duas coisas.... acho que podemos dar atenção ao exterior, à humanidade, e ao nosso interior ao mesmo tempo, mas eu sempre aprendi a, se pensar em demasia sobre o meu interior, não deveria dar tanto espaço assim a isso, ou ao menos, não deveria expor tanto assim aos olhos dos outros.

Olhe eu, desviando o assunto da carta, novamente!! Mas a verdade é essa, talvez eu não tivesse mesmo como evitar que isso tudo acontecesse, já que não é possível conhecer a mim mesmo profundamente, ou então talvez eu esteja buscando uma justificativa para tudo o que aconteceu, uma justificativa para a razão que me leva a escrever essa carta. Uma razão para algo sem razão nenhuma, mas que, entretanto, sempre foi a maior razão da minha vida.

Será que tenho tempo de acender um cigarro e ir até a janela ver a chuva cair? Preciso disso, para conseguir voltar ao assunto da carta. Vou fazer isso. Levarei comigo, até a janela, o papel e a caneta, e escreverei enquanto vejo a chuva cair e termino meu cigarro. De repente, já não estou me preocupando tanto com o fato de talvez não ter tempo suficiente de terminar a carta. Terei sim esse tempo. Olhe aí, leitor, mais uma transformação: minha preocupação com o tempo já se transformou em uma certeza de que o tempo, para mim, não importa.

Pronto, aqui estou, parado à janela, fumando, e escrevendo enquanto pesadas gotas de chuva caem à minha frente. Tento proteger o papel contra o efeito destruidor do líquido que desaba do céu, já que o vento forte traz até dentro de minha casa algumas dessas gotas. Mas meu cigarro parece não ser atingido.

Estou quase terminando o cigarro, escrevi várias linhas, mas nenhuma referente ao assunto da carta (assunto que deveria ser “eu”). Mas, vamos lá:
Quando ela me disse que nós sabíamos que não daria certo, eu me entristeci. Como era possível que, depois das demonstrações dadas durante toda a madrugada, e também durante todo os dias anteriores desde que ela surgiu em minha vida, como era possível ela dizer aquilo? Mas disse.

Eu, por minha vez, só tentei compreender as suas razões, mas sem perguntar-lhe nada. Talvez eu ao tenha dito “nada” porque quis procurar em mim mesmo a explicação (a história do “você sabe muito sobre o que estou falando”. Eu quis realmente saber, e sabia que essa resposta estava em mim.... mas eu não sabia realmente quem eu era.).

Então, levantei-me e saí do quarto. Atrás de mim, ela não disse mais nada. Parecia até que não estava mais lá, que tinha sumido tão repentinamente quanto aparecera. Mas eu sabia que ela estava ali, me olhando, talvez chorando. Eu tinha certeza que estava, pois eu a sentia.

Mas quando olhei para a cama, não a vi. Ela não estava mais lá. Eu me enganei. Estava sentindo-a ali presente, mas ela já não estava mais. Como era possível isso? Como era possível eu sentir sua presença, mas ela não estar presente?

Então, eu me desesperei. Desesperei-me com esse fato, e também com uma necessidade sufocante de entender algo que, aquele momento, não tinha importância: queria entender como é que ela havia desaparecido sem eu perceber, estando eu ali presente o tempo todo, mas não com os olhos voltados para ela. Talvez eu também estivesse querendo, naquele momento, saber por que ela foi embora tão de repente.

Mas aí, enquanto eu me perguntava tudo aquilo, uma outra dúvida foi surgindo: quem era ela? Como apareceu em minha vida? Quando comecei a querer entender tudo, fiquei mais confuso e com a certeza de que dentro de mim a realidade se tornava algo muito complexo e além de minha compreensão.

Foi então, leitor, que percebi que, se eu soubesse quem eu realmente era e sou, essas dúvidas não existiriam. Desviei os olhos do local onde antes a mulher estivera e saí de casa. Na rua, uma fina garoa começou a molhar meus cabelos. A noite estava estranhamente escura, apesar de, pouco tempo antes, estar um dia claro. Continuei caminhando e sentindo a fina garoa me molhar, enquanto a confusão foi aumentando dentro de mim. Percebi então que talvez não adiantasse de nada eu tentar me conhecer, saber quem eu realmente sou, pois nada disso evitaria o que já aconteceu. Foi então que resolvi fazer o que estou prestes a fazer, mas antes, quis escrever essa carta para que, quem a encontrar, possa tentar compreender o que eu nunca compreendi. E quando eu resolvi fazer isso, a fina garoa se transformou em uma chuva forte, quase tempestade. Entrei em casa encharcado. As lâmpadas não acendiam, e acendi uma vela para poder escrever.

E agora aqui estou, sozinho na companhia de estranhas e novas sensações, as quais me parecem já velhas conhecidas . A carta está quase terminada, leitor. E a minha história também, a minha vida, estranha vida de estranhas sensações que sempre ofuscaram o que realmente sou, estranha vida vivida na companhia de coisas e situações que sempre me foram queridas até agora, até o momento em que a mulher me disse algo que no fundo eu já sabia: que nada disso daria certo. Essa frase derrubou meu mundo, despertou algo que sempre esteve dentro de mim, convivendo com minhas incertas certezas. Essa frase fez-me ver que eu vivia em uma situação sem sentido, com sentido só para mim A partir daquele momento, tudo à minha volta foi desaparecendo, até mesmo o dia ensolarado que sempre me acompanhou. A noite que eu nunca vi caiu tão repentinamente que me assustou. O tempo ensolarado foi substituído por uma fina garoa que depois se transformou em forte tempestade. Eu nunca havia visto chuva, apesar de saber que ela existia. Eu nunca havia visto a noite, apesar de saber que ela existia. E quando essas coisas que sempre se mantiveram afastadas de mim acabaram me encontrando, é o momento em que vou acabar com tudo. Continuo parado na janela e escrevendo, mas agora vou abrir a porta e receber a forte tempestade sobre meu corpo, nessa noite escura. Levarei comigo essa carta para que alguém a encontre. Tenho certeza que a chuva não molhará esse papel, pois apesar de ele estar em minhas mãos, ele não faz parte do meu mundo. Esse papel onde escrevi essa carta não pertence ao meu mundo, e assim, a chuva não o estragará. Esse papel onde escrevia a carta continuará protegido contra o mundo, assim como eu me protegi até o momento em que o mundo me alcançou ”

II
Último parágrafo de uma breve notícia publicada no jornal da cidade, no dia seguinte:
“ (...) ao meio-dia de ontem, testemunhas ouviram um ruído semelhante ao disparo de uma arma de fogo. Ao chegarem ao local, encontraram um homem caído no chão, com um tiro na cabeça. Ele estava segurando firme uma carta. Na outra mão, segurava um revólver que, segundo a polícia, foi de onde saiu o disparo que o matou. Os peritos concluíram que se trata de um caso de suicídio, conclusão a que chegaram principalmente após lerem a carta que estava junto ao corpo, a qual disseram ser bastante confusa, mas que permitia concluir que o seu autor cometera suicídio. Não foram divulgados mais detalhes do caso”.

No mesmo jornal, a página seguinte dizia:

“E a cidade continua sofrendo com a falta de chuvas, que prejudica principalmente os agricultores. Há quase quatro meses não chove na região. E a previsão do tempo para hoje é a mesma de ontem, a qual vem se confirmando há quatro meses: dia ensolarado, sem a menor perspectiva de ocorrência de chuvas.”
Vitor Souza
Enviado por Vitor Souza em 18/09/2007
Código do texto: T657509

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Sobre o autor
Vitor Souza
Piracicaba - São Paulo - Brasil, 38 anos
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