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Entre a pele e a carne. II

Parte II

   Todas as informações se repetem em sua cabeça; as orientações do manual do escritor, a estrutura do jornal e o futuro incerto que havia de ocorrer sem o envio daquela matéria. Determinou um objetivo, para que pudesse dar fim á vergonhosa posição de escritor que se encontrava. Braços e torso imóveis, como um manequim, como se estivesse posando para um retrato de um escritor falido. Esse objetivo, que inicialmente era de escrever uma simples matéria, tornava-se apenas uma releitura, uma cópia de todas as instruções contidas no manual do escritor. O mesmo cogitava como uma das últimas opções em caso de falta de “criatividade”, o uso de tópicos rápidos no maior estilo jornal de fofocas. A ideia era simples, utilizar dos números, seguidos de um título estritamente fútil, floreado no caso das instruções, para chamar a atenção do leitor e prendê-lo por poucos minutos na leitura fácil da matéria. Esta fórmula secreta, universal do marketing e publicidade, que agora fazia parte das ferramentas jornalísticas, foi levada ao pé da letra por nosso escritor.
   Falar de sua casa, seu estado, sua história de nada interessaria para uma matéria de jornal naquele estilo, nem que precisasse sair de sua zona de conforto, de sua casa e seu ambiente reconfortante, ele faria o necessário- se não uma, diversas vezes- para atingir seu objetivo. Por motivos óbvios, direcionou sua caminha para o local com maior potencial de ambiente de escrita, uma cafeteria ou lobby mais próximo, qualquer local onde a escrita e a imaginação seja sobreposta pela estética e a sensação de intelectualidade.
   Mesmo que fosse possível achar um estabelecimento que atendesse essas características, seria extremamente perigoso permanecer em um local desses. Neste universo, o roubo de ideias é comum, é de práxis do jornalista ou escritor ou qualquer ramo que necessite de um pouco de imaginação para sua execução, o uso de qualquer ferramenta de persuasão e chantagem. Além do mais, se sua vantagem era de usar o que ele observa, escuta e interpreta no momento em que escreve, e onde ele escreve, é possível que alguém já o tenha feito. Uma situação comum na área da classe alta, como um covil de cadernetas e computadores prontos para te estrangular.
   Um recém formando da academia sem dinheiro e fundos suficientes não está preparado para permanecer nos estabelecimentos próximos, esvaziar seus bolsos foi seu primeiro pensamento ao sair ás ruas. Marchou aleatoriamente nas ruas encharcadas de pessoas descontraídas á vida, contraídas nas telas dos celulares. As esquinas apareciam e sumiam sem influenciar sua noção de tempo, e de todas as luzes que o cegavam, nenhuma era passível de ideias, tudo já havia sido interpretado, lido, escrito e reescrito.
   O que o deixava incomodado, era que mesmo seu belo estoque de palavras não conseguia enaltecer ao menos uma pedra solta na calçada, e mesmo que a torne interessante, de maneira forçada era inevitável que não estabelecer uma matéria rápida e sem conteúdo ainda tornaria sua proposta pouco visível no concurso. Chegou a pensar que não haveria propósito, mas mesmo ele não sabia o porquê deste conceito nos dias atuais. Como aprendeu em sua formação, ou mesmo qualquer olhar mais profundo sobre a sociedade, veria que o propósito é frívolo, vidas sem objetivo não procuram por respostas e significados. Muito menos humanos com vida útil de insetos voadores, e olhos fugares que caçam a informação e a distração com tamanha habilidade.
   Uma das várias escolhas ruins daquela tarde era a de atingir o limite das ruas que compunham as classes altas, aquele pequeno pedaço de terra branco e iluminado, que tem seus limites perfeitamente delimitados por muros e portões, formando um círculo perfeito cercado por outras ruas e esquinas com características diferentes. Depois da sua região, ou no fim do mundo como diziam, havia um perigo real aos habitantes da primeira, um lugar “sujo” e sem beleza, sem a luz que cega seu dia a dia, e ainda mais depois do entardecer, o escuro se encarregava de apagar essa região da memória. Riscos entravam em colapso quando o jovem pensava que mesmo não tendo escolha, alguma recompensa viria por testar sua coragem ao passar os portões em busca de ideias.
Matheus Ongaro
Enviado por Matheus Ongaro em 12/06/2019
Reeditado em 12/06/2019
Código do texto: T6671344
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Sobre o autor
Matheus Ongaro
Jacarezinho - Paraná - Brasil
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Matheus Ongaro