Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Canção do Exílio

      Lá fora, 37º em pleno junho. Aqui dentro o ribombar de trombetas evangélicas me faz avistar o destino próximo. O que fazer com as angústias e desilusões antigas? O que fazer com o pulsar desordenado de um coração que me dilacera? Uma gutural e cadavérica gargalhada plaina na atmosfera quente e úmida de meu quarto e me faz claudicar as próprias pernas. O que é isso? A paisagem fria e estéril dessa terra me consome. Serão saudades? Recordações? Saudades e recordações?
      -- U Qui mi incomoda nãum é a partida, max u tempu di espera i a saudade que essa porprociona - dizia-me vez em quando compadre Nestor. Notórias palavras... meu compadre, hoje vejo, a saudade sufoca e angustia. Angustia por não saber lidar com ela, angustia por exilar-nos num vale de sombras, angustia pela intensidade sintática que possui, por não ser nada nem tudo, mas a ausência de ambos. Saudade é ferida que não sara.
      Sarará um dia? Não importa, nada mais - ou quase nada - importa. O calor é infernal, torna-se desesperador. O céu turvo e sem folhas a manchá-lo com seu verde musgo me assusta - paisagem morta, seca, “vazia”, paisagem monocromática. Os dias são sempre assim, nenhum pássaro gorjeia no ocaso, nenhuma cigarra vocifera sua estridente melodia, só(mente) pombos, domesticados, não vistos a olhos nus, escondidos nas torres das igrejas e percebidos apenas por seus excrementos imundos depositados nas ruas, denunciam vida pulsante (não humana). As noites, entretanto, são mais agradáveis. Nenhuma estrela, é certo, o luar - que para aparecer tem que se esquivar timidamente dos altos e pontiagudos prédios - divide seu brilho com o néon reluzente e multicolor... E as luzes, a vida por aqui, sem ela nada pode, nada vive, tudo é preso.
      É, compadre Nestor, você que está certo, a saudade machuca (angustia). A saudade exila o exilado, compadre. Não restam mais caminhos, as saídas se fecharam e o abismo é fundo, tão fundo e vazio quanto eu... Se ao menos eu pudesse me conformar: Não permita Deus que eu morra, sem que volte para lá. Se ao menos tivesse a coragem de chorar, meu Deus. Como arrastarei pela vida o escarniante latejar das recordções, as minhas infantis recordações? Como viverei aqui, trancafiado numa fria prisão de mármore, sem o fulgor intenso dos balões, única luz em uma vida?
      Queimam-se na ardente fogueira as ilusões efêmeras. Enquanto isso sobe, sobe balãozinho querido, sobe na alvura da noite escura, que escrevo eu aqui, escrevo e vivo, entre quatro paredes, enjaulado feito uma fera amedrontada, a saudade que fica dum tempo - nenhum - que não volta mais. É o paraíso no fim.

---------------------------

CONTO ESCRITO EM 2001 E PUBLICADO EM MEU LIVRO DE CONTOS, INTITULADO "PANDEMÔNIO".
Jóe José Dias
Enviado por Jóe José Dias em 25/09/2007
Reeditado em 22/01/2014
Código do texto: T667776
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Jóe José Dias
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 37 anos
30 textos (5453 leituras)
2 e-livros (72 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 14/12/17 16:00)
Jóe José Dias