“Quem fala a verdade não merece Castigo”

Fui à lotérica do meu bairro pagar a conta de energia elétrica para minha mãe e num “piscar” de olhos. Zummm, tinham levado a minha “caíca”.

Enternecido, me pus a chorar, pois aquela bicicleta da família, já estava a uns três anos conosco. Pensava angustiado. E agora o que vou dizer a mamãe? Visto que ela sempre me orientava a colocar o cadeado. Pois ela dizia:

- “O seguro morreu de velho”, então aonde vá, coloque o cadeado.

Algumas pessoas vieram me consolar, mas a cada instante, em que vinha em minha mente o voltar pra casa, o medo de uma bela “peia” me dominava.

Eu rezava pra Deus me ajudar, pra nossa senhora do Perpetuo Socorro e pra Nossa senhora de Nazaré, mas o medo vencia as minhas preces.

De tão atormentado pelos pensamentos, pensei em não voltar. Pensei em ir direto pra casa da minha tia Dina e ficar por lá uns dias. Porém teria que avisar lá em casa, se não a surra dobraria.

E pensando, refleti:

- Como ir para casa da titia sem roupa, sem nada e chegar lá assim? Ela ia me esculhambar e fazer voltar pro rumo de casa. Eram tantos pensamentos, que me amarguravam e me deixava em cárcere privado, que a minha cabeça, parecia que ia explodir. Até que, andando em círculos encontrei o senhor Antônio e pude dividir com ele a minha angustia.

De pronto ele me disse:

- Meu filho, é melhor você contar a verdade. Pois todos nos estamos sujeitos à violência urbana. Ademais, quem fala a verdade não merece castigo.

Mas eu ponderei em certo ponto:

- O Fato é que eu não obedeci às orientações que sempre ela me deu e não tranquei a bicicleta com cadeado. Confiei em mim e olhe no que deu.

Ele ouviu e disse:

- É por esse ponto você pode ser punido, pois mesmo que fale a verdade você não está isento da punição, que é justa, pois você não obedeceu. No entanto tenho certeza, que a dona Graça vai entender.

Em casa entrei com muito medo e minha mãe a me ver chegar perguntou logo:

- Filho você pagou a conta de energia?

Respondi timidamente quieto:

- sim

Em seguida fui logo direto ao assunto:

- Mãe, pode me bater.

E ela sorrindo e ao mesmo tempo expressivamente preocupada perguntou:

- Por quê?

E eu então expliquei tudo o que tinha ocorrido e disse-lhe, que estava ciente do meu erro e que ela podia me bater.

Ela, em pé, taciturna me analisando, enigmaticamente desenhou um sorriso e me abraçando falou:

- Estou orgulhosa de você por ter me dito a verdade e ter reconhecido o seu erro, quando não obedeceu as minhas orientações.

Eu ali ainda cabisbaixo, esperando a surra e ela continuou:

- No entanto, não há motivos pra ficar triste, pois o seu irmão foi ao mini box do seu Sinval comprar macarrão e açúcar, que por sinal está o “olho da cara” e quando saio viu a nossa bicicleta escorada. Pensando ter ido nela, trouxe-a de volta pra cá. De um salto, ansioso, o menino correu para os fundos da casa, onde estava a bicicleta, e ao examiná-la e ter certeza que aquela era a sua bicicleta, aliviando o peso da alma, não se aguentou na alegria e rindo bastante, voltou a cozinha e abraçou a sua mãe.