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Netí

 
Acordava cedíssimo, esticava a mão pra alcançar os óculos na cabeceira, rezava o credo e um Pai-Nosso em voz alta, na intenção de purificar o começo do dia. A coluna pedia lentidão. Puxava o ar com vontade enquanto estalava os ossos ao se espreguiçar, principalmente os do tornozelo antes de sair da cama.
Achava graça no próprio ritual sem força, mas calmo o suficiente pra apreciar os feixes de luz pelas fresta da janela.
A casa de taipa cheirava a fumo e a pena de galinha. A umidade não a incomodava. No inverno, dona Netí esquentava citronela pra espantar os mosquitos. Punha lenha no forno, pra que o mofo não consumisse as fotos do altarzinho da sala. Perdeu o marido num acidente na lavoura e os dois filhos pela cólera. Netí acendia velas e ornava o oratório com pequenas flores, qualquer uma que brotasse próximo à casa, já que não aguentava andar muito.
Conversava alto com o finado, contava sobre as coisas da fazenda, lembrava de quando havia família, ria sozinha de tanto lembrar. Chorava também.
Quase todo dia recebia a visita de alguém da pastoral, do atendimento de saúde domiciliar, do padre. Fazia gosto em montar a mesa com bolo fresco e repetia todas as vezes que os ovos eram do dia. Chicória e Malvina eram galinhas “botadeiras”, dizia.
Certa vez ganhou um microondas na rifa da quermesse, mas preferiu doar pra casa de auxílio de menores. Não queria fogão a gás ou microondas pra não deixar a comida com gosto de cidade (dizia que só confiava no seu próprio tempero).
Na feira do sábado, fazia questão de arrastar o chinelo e aquele eterno curativo no pé, até voltar para casa com limão, peixe, farinha e o que mais o trocado pudesse pagar. Açúcar não podia por causa da doença.
Hoje, a idade pediria um chuveiro elétrico e um fogão. Pelo menos faria o tempo girar depressa. Dona Netí era zelosa com a casa. Devagar, ela ia varrendo, tirando o pó e a fuligem, até o dia despencar do céu.  “A esperança envelhece com a gente”, ela dizia. Hoje, era mais fácil não falar, esquecer ou fingir. “Já, já a morte chega”, pensava alto enquanto olhava a fileira de cupim nascendo pela porta da cozinha.
Aos domingos, conseguia levantar ainda com o orvalho vivo. Na missa das seis, sentava no primeiro banco e sempre levava uma cesta com lanche pros coroinhas. Uma oração para a imagem do altar, depois, beijava a mão do padre. Aguentava com um sorriso largo aquela dor senil e ainda arrumava alegria pra cantar o louvor. Às vezes a primeira dama, que frequentava a mesma missa, a convidava pra o almoço, mas ela nunca aceitou. Apesar de ser cuidada como um patrimônio histórico, apesar de ser grata,  queria somente voltar pra casa e se banhar nas memórias.
Sua cota de vida era mesmo a homilía e só. Engolia a hóstia sem fé alguma, acendia velas pra um santo qualquer, pedindo em silêncio um lugar no paraíso. Ninguém ouvia reclamação de Dona Netí. Era tudo tão pouco...
Só notaram quando houve silêncio por uns dois dias, até que a benzedeira a encontrou sentada na cadeira de balanço, penteada e ainda cheirando a alfazema; um terço na mão e na outra, uma foto do marido ainda jovem.
Sem pulso, sem alarde, partiu com a mesma suavidade que abraçava seus limites. Serena, como quem ainda pensava em dar exemplo.
Lis Nogueira
Enviado por Lis Nogueira em 14/08/2019
Reeditado em 19/08/2019
Código do texto: T6719728
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Lis Nogueira
Maceió - Alagoas - Brasil
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