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Palavrões

     João Carlos era um rapaz bom, brincalhão e, geralmente, muito tranquilo. Era, pois morreu.
     Quando se deu conta do que ocorrera, estava numa longa planície gramada. Poucos metros à frente tinha um banco de praça e um homem lia um jornal, atrás dele um enorme muro que se estendia para os dois lados.
     – João Carlos! – disse o homem precipitando-se e abrindo os braços para um abraço longo e apertado. – Bem-vindo ao Paraíso!
     – Ué! Eu? – perguntou João ao homem. – Cês têm certeza disso?
     – Claro. Você foi um grande ser humano. Com grandes qualidades e feitos. – estavam andando, como se contornassem o longo muro, enquanto o homem guiava João.
     – Sério?
     – Fazer rir também é um dom.
     – Tudo bem então. – João ainda não acreditava que tinha conseguido ir para o Paraíso. – Sinceramente, pensei que aqui seria... Diferente...
     – Ah! Mas é. – disse o homem com um sorriso. – O Paraíso propriamente dito está atrás do muro.
     – Então eu tenho que escalar o muro para entrar? – a expressão de João fez o homem rir.
     – Não. Aqui tem uma regra muito séria: não são permitidos palavrões. – João arregalou os olhos e o homem sentenciou. – Se você disser qualquer um que seja, você vai direto... Entendeu? – o rapaz deu um sorrisinho, esse era seu ponto fraco. O homem sorriu e apontou para o muro. – Bem-vindo, meu filho.
     Um portão dourado se materializou no meio do muro e o homem sumiu. João Carlos entrou pensando na ideia de não falar mais palavrões. Viu-se maravilhado com o Paraíso, parecia um condomínio enorme. Via algumas torres ao longe e se perguntava o que era; via grandes construções e queria ir correndo até lá; via pessoas, via anjos. Perdia-se pela paisagem exageradamente linda que se descortinava à frente quando foi interrompido por uma voz grave.
     – Carlinhos! – o rapaz gelou e se virou furioso e suplicante para não ser quem pensava ser. Mas quem mais lhe chamaria pelo nome que mais detestava se não aquele infeliz? – Que bom te ver! – Renato, o típico sem noção chato; amigo do pai de João Carlos, morrera anos atrás.
     – Não creio... Renato... – João Carlos respirou fundo e contou até cinco. – Que surpresa... Agra... – o rapaz puxou um anjo que estava próximo e sussurrou-lhe – A gente pode mentir aqui? – o anjo sorriu e balançou a cabeça. Voltando-se ao tio de consideração – Que surpresa...
     – E não é? No início pensei que era uma piada do Capiroto, mas não é não. – Renato encheu a mão em um tapa que deu nas costas de João Carlos que cambaleou alguns centímetros. João Carlos voltou à posição ereta e respirou mais uma vez. – Mas quer dizer que tu veio para cá?
     Novamente João Carlos puxou o anjo que estava ali perto e perguntou-lhe:
     – Sarcasmo tá podendo né? – o anjo sorriu e assentiu com a cabeça. O rapaz voltou-se para o homem mais velho. – Não, eu sou um holograma. Tô aqui só para sacanear mesmo.
     O homem encarou João Carlos por alguns segundos e depois deu-lhe um segundo tapão, explodindo em uma gargalhada.
     – Mas tu não mudou nadinha, né Carlinhos? – o rapaz deu dois passos inteiros para não cair no chão e voltou-se para o anjo, novamente.
     – Palavrão tá realmente fora de cogitação, né? – o anjo sorriu mais amplamente e acenou com a cabeça.
     – Cara... Ca! Tio Renato. Renatão. Eu vou ali dar uma conhecida no lugar e depois passo aqui pra te ver, tá legal? – o homem sorriu e se afastou, rindo de algo que João Carlos não sabia o que era.

     João Carlos andou calmamente pelas ruas daquele lugar. Atrás de si, novamente, gritaram-lhe.
     – Carlinhos! – o rapaz se virou para ver a sua primeira namorada, ele tomou um susto.
     – Eita por... – um anjo olhava seriamente para o rapaz que sorriu e completou a frase – Porcaria... Como você veio para cá?
     – Ah. Tava chateada... Saí de moto... Meti cento e vinte... Quando vi tava aqui... Mas e você? Como veio para cá?
     – Tava na rua... Era noite... Um mal-entendido... Enfim...
     – Carlinhos, por que a gente não ficou junto mesmo?
     – Alto, loiro, forte e dinheiro para... Dar pros pobres... Pelo menos não fui corno, virei um alce...
     – Você não mudou nada. Ah, mas agora não tem mais esse problema. – a garota o abraçou e ele deslizou para fora do abraço.
     – Daqui a pouco... Talvez... Conta até doze mil... Quando terminar a gente se fala.
     Ele continuou sua caminhada.

     Pouco à frente encontrou uma construção que lhe lembrava uma biblioteca e lá entrou. As pessoas estavam sentadas em cabines reservadas olhando em globos que lhes mostravam seus entes vivos.
     João Carlos sentou-se em um dos reservados e ficou olhando para o globo. Pouco tempo se passou desde seu falecimento e ainda se sentia um pouco confuso. Um anjo aproximou-se e o sorriu, delicadamente dizendo.
     – Vem comigo.

     O anjo o levou para fora e o guiou pelas ruas enquanto conversavam.
     – Sabe quem sou eu? – perguntou o anjo e o rapaz balançou a cabeça. – Sou seu anjo da guarda. – o rapaz riu.
     – Te dei um trabalhão da por... – o anjo o encarou. – Porca... – os dois se encararam e riram.
     – É bem verdade, mas é a minha função.
     – Mas aqui é o céu mesmo?
     – Sim. Apesar de ser diferen... – o anjo foi interrompido por uma voz estridente.
     – Carlinhos!?
     – Mas o que as pessoas têm contra meu nome? É João... – ao virar-se o rapaz deu de cara com a professora que mais odiava em seu ensino médio, a professora que mais o perseguiu, de sua pior matéria: física.
     – Não acredito que você está aqui. – ela disse em um tom desafiador e quase de deboche.
     – Muito menos eu. – virando-se para seu anjo da guarda. – Vocês precisam arrumar um pouco os critérios, tá bem mal frequentado isso aqui. – o anjo apenas riu e recuou.
     – Concordo com você.
     – Mas esse dia tá fo... – ele olhou para o anjo que lhe advertia com o olhar. – Fogo...
     – Aposto que continua a mesma coisa. – um arrepio subiu a espinha de João Carlos. – Insolente.
     – Vai valer a pena?
     – Desrespeitoso.
     – Será que vai?
     – Um projeto de fracasso.
     – Vai muito! – o rapaz pegou a mão de seu anjo da guarda e a apertou firme. – Foi um prazer te conhecer, cara. Qualquer dia me visite. – voltou-se a professora. – AH, VAI TOMAR NO CU, PORRA! SE FUDER PRA LÁ, CARALHO!
 
     Abriu os braços como a famosa estátua carioca, num pedido mudo de perdão por seu último pecado. Depois, caiu num imenso túnel que o levou para uma espécie de sala de trono. À sua frente, sentado estava o chefe do inferno. O rapaz se levantou sem tirar os olhos da figura assustadora à frente.
     – É você que vai me castigar? – o demônio negou lentamente com a cabeça e apontou para trás dele. Lá estavam os três seres que o condenaram.
     – Era só um teste, bobinho.
     – Puta que pariu, caralho, porra...

João Victor Zibetti
Enviado por João Victor Zibetti em 12/09/2019
Código do texto: T6743337
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Sobre o autor
João Victor Zibetti
Rio das Ostras - Rio de Janeiro - Brasil, 22 anos
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João Victor Zibetti