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AYAKAMAÉ, O AMOR PROIBIDO!

                                                         AYAKAMAÉ, O AMOR PROIBIDO!
                                                                       - ARIELSON APOSAN -

                                             CANTO I
Quando eu era pequeno, do tipo que não tem tamanho suficiente para subir numa açaizeira, os adultos na tribo me chamavam de "curumim". Claro que esse não é meu nome, mas significa "pequeno" e por isso não me importava de ser chamado assim. Quem sou eu? - Wakan. Onde vivo? - Na aldeia Cunaní, no meio da floresta amazônica.
Uma das coisas que eu mais gostava quando pequeno, era ouvir as histórias que o pajé contava á noite. Muitas delas me deixava com medo, mas não poderia de forma alguma demostrar, pois, desde cedo, aprendemos na tribo que "o tal do medo" é uma doença que enfraquece a alma e para me tornar um grande guerreiro, eu deveria deixar o medo para traz.
Certa vez, quando a noite cobriu a aldeia, todos se reuniram em torno do fogareiro que chamuscava e nos mantia aquecidos. O pajé contou-nos como Tupã criou o lugar onde vivemos, eu já ouvira aquela narração, mas sempre ficava impressionado ao imaginava Tupã me formando do barro. Mas, naquela noite, o pajé contou uma história que eu nunca tinha ouvido antes, e roubou toda minha atenção; era algo aproximadamente assim:
"O sol e A luz se apaixonaram, mas como dois membros do universo eles jamais poderiam ficar juntos, pois se eles se encontrassem, o mundo acabaria, a lua de tão triste, começou a chorar, e das suas lagrimas surgiu Ayakamaé, o rio amazonas".
A história do rio, mexeu tanto comigo que naquela noite nem conseguir pega no sono. Quando todos estavam dormindo, resolvi descer até o riacho para observar o reflexão da lua na água, - aquilo era incrível. Assentei-me em uma pedra, e cantarolei alguns ritos. Quando pensei que estava sozinho, avistei alguma coisa se debatendo no outro lado do riacho. De súbito, recuei, mas logo acabei notando que era um corpo, e não demorei em ir verificar. Para minha surpresa, se tratava de uma marabá, daquela que não se ver na mata. Ela era da cor de ébano e tinha em seus braços e no pescoço amordaças feitas da pedra que brilha. Seu rosto estava machucado, e suas veste feitas de ticum estavam rasgadas, de forma que seu seio ficava aparente.
Levei-a para minha oca, e ressequir suas vestes, e lhe cobrir com couro de suçuarana. Ela me olhava como se tivesse encontrado o próprio Tupã. Mas ela tinha um brilho em olhos que nem mesmo a mãe terra sonhava em ter. Quando dei-lhe um pouco d'água, ela suspirou profundo, abriu um sorriso fagueiro e deixou que o sono lhe tomasse de conta. Fiquei observando por horas e percebi que ela tinha dentro de si, "a doença que enfraquece a alma" seus olhos tremiam e uma vez ou outra, falava uma linguagem estranhas como: " Arayé a je" não conseguir entender, mas mesmo assim, pus em sua testa um pano molhado.

                                          CANTO II
Um vez, ouvir dizer que quando estamos dormindo, entramos em um mundo só nosso, onde tudo é possível e os desejos mais profundos ganham vida. Eu caminhava em um bosque, sempre acompanhando de perto uma garotinha, cujo seus cabelos pareciam folhas de Baobá, e seus dentes tão lívidos como a parte interior da maní. Ela falava como se suas palavras fossem canto, pois aos meus ouvidos parecia algo tipo de melodiosa. Ela proferia as mesmas palavras que a marabá recém chegada, e foi daí que percebi que ambas tinham uma aparecia comum. A garotinha percebeu que um animal feroz se aproximava e desceu correndo em direção ao rio, lá havia uma jangada feita de tacume e acapu; me sentir aflito, pois de forma alguma conseguir ajudá-la, era como se eu não fosse dali, mas a garotinha conseguiu chegar a salvo na jangada e, o animal feroz urrou e voltou mata adentro. Então acordei.
Procurar pela desconhecida, foi a primeira coisa que fiz, pois ela não estava mais em minha Oca, mas ouvir murmúrios tão alto do lado de fora, que já passava pela minha cabeça que talvez alguém tenha a encontrado. E não havia me enganado, ao sair avistei, "a marabá" amarrada com cipó no meio da aldeia.
Corri para solta-la e o aglomerado que a cercava se desfez. Eu conseguia enxergar nos olhos de cada um, a tensão pelo desconhecido, pois jamais acontecera em nossa aldeia de uma mulher da cor da noite aparecer. Eu também estava supresso, mas diferente de todos, encontrei-a lutando para viver e tive uma sensação dentro de mim que ela também desejava ser livre.
Depois de todo aquele momento de tensão, que julguei por um momento que não teria fim, o Pajé nos convocou para sua Oca. E nós fizemos presente sem hesitar um segundo.
- Quem é ela? - Perguntou o pajé, depois de bafar seu cachimbo.
- Encontrei-a na água, lutando para viver! - respondi, enquanto ela ficava em silencio e apenas nos observava atentamente.
- De onde você veio? - Perguntou o pajé, dessa vez olhando diretamente a ela.
- Sou Yolanda, vim do Zaire! - Disse ela, tremula. Infantis
A conversa durou mais tempo que qualquer um lá fora podia imaginar. Entretanto, tomou um rumo tão agradável que nem conseguiu presumir. "Yoyo" como Yolanda desejou ser chamada, explicou a nós, como foi escravizada e vendida. O pajé pasmado pelo que ouviu, permitiu que Yoyo ficasse conosco, mas me proibiu de vê-la, pois acreditava que eu seria o futuro líder da tribo e deveria casar-me como uma filha de tupã.

                                            CANTO III
Fazia-se três dias que Yoyo estava na aldeia, e fazia-se os mesmos dias em que não ouviu sua voz. Apenas a via passar, com peixes para assar, ou quando ia torar farinha de maní. Mas sempre estava acompanhada com alguma mulher, segundo pediu o pajé, ela jamais ficava só.
Tentava tirar Yoyo da minha cabeça, mas quando a vi enfeitada para a festa da lua, desistir, nada adiantaria, - ela estava linda. Como de costume, ouvimos atentamente as palavras do pajé e depois, tambores e flautas fizeram o som. Todos, menos Yoyo e o Pajé começaram a dançar, e eu, fiquei observando-a e o pajé a nós dois. Não deixei que a noite se afundasse, então levantei-me e convidei Yolanda para dançar, o pajé não se importou, a essa altura ele se embebedava como os demais.
Yoyo começou a mover o corpo e, em seguida, movimentar ás pernas, os braços e o quadril. Uma dança muito diferente da qual estávamos acostumados a ver.
- Que dança é essa? - perguntei.
- Balelé! - Disse ela, sorrindo.
Dançamos até o momento em que fora permitido, Yoyo foi para sua oca, assim como fez todos os outros. Eu, novamente não conseguir dormir, então desejei tomar um banho no riacho. Mas quando passei próximo da oca de Yolanda ouvir alguns grunhidos de medo e dor, não pensei duas vezes, fui verificar o que acontecia. Ao entrar, notei que Yoyo relutava contra Waín que tentava lhe roubar o prazer.
Novamente agir por impulso, quando pude perceber o que havia feito, já era tarde. Waín sangrava bastante que a vida lhe negou companhia. Eu não tinha ideia do que faria, mas evitava demostrar meu medo, - adulto não sente medo! Na minha aldeia havia uma regra suprema, a mais importante de todas, que a ser quebrada por alguém, esse, teria o mesmo fim. Essa regra é a morte, jamais poderia tomar de um irmão de cor.
Aflito que certamente seria descoberto, desci a lezíria, em direção ao riacho. Yoyo acompanhava-me de perto, e perguntava "o que faremos" quase a todo momento. Foi então que vi uma jangada, ás margem.
"Alguém está vindo" alertou Yoyo. "O que faremos?"
"Ayakamaé" Disse apontando em direção ao riacho.
"O quê?" perguntou Yoyo, sem entender.
Peguei a mão de Yolanda e descemos em direção ao riacho.
"Pelo rio amazonas!"
Yoyo sorriu de alívio.
                                                                                          FIM
Ari Aposan
Enviado por Ari Aposan em 28/10/2019
Reeditado em 14/11/2019
Código do texto: T6781523
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Sobre o autor
Ari Aposan
Macapá - Amapá - Brasil, 23 anos
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