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UM CONTO DE CLASSE

Foi alçado da cama, pelo barulho estridente e irritante do despertador, ás 4:30 da manhã, hora melhor para o sono de um mortal. Um mortal que no dia anterior, desgastou suas forças até 9 da noite, na maquina de corte de chapa. Rotina de todos os dias. Também pudera, 04 filhos para criar, só fazendo extras mesmo. E foi um dia tenso.

Os camaradas de agonia diária, quase não trabalharam, apesar de tentar faze-lo para esquecer. No dia seguinte, seria detonada uma bomba e com ela estilhaços seria soltos. Cheguei em casa, moído, tal carne e com uma dor de cabeça, agravada por dois copos de cachaça e 1maço e meio de cigarros consumidos no dia. Meus filhos dormiam e sonhavam com deuses e anjos. Minha mulher, á frente da TV, assistia a novela, que esbanjava a vida dos ricos e lançava por terra a vida dos pobres. Sonolenta, levantou-se e me beijou. Disse: “Vou esquentar a comida, tome um banho, sua toalha está no pé da cama”. Comi, pouco, pois a cabeça estava ao ponto de estourar. Não troquei nenhuma palavra com minha esposa, só dei um boa noite, quando ela dirigiu-se para o quarto. Fiquei só, pensativo.

Pensativo estava, quando levantei naquela madrugada. Tomei o café puro, sem açúcar, como o médico recomendou. Glicose alta. Recebi a marmita quente de minha mulher, lhe dei um beijo. Seus lábios estavam frios e roxos, como num leito de morte. Não era frio, era medo. Antes de abrir a porta, ouvi sua suplica: “Não vá hoje, fique em casa”. Não respondi, calado estava, mudo fiquei. Dirigi até o ponto de ônibus, era o primeiro a ser apanhado. Uma dor no fígado, me incomodava, acho que era os efeitos da pinga com jurubeba, da noite passada. Estava em meu horário, a condução é que não estava. Disse em voz alta: “Será que interceptaram os ônibus?”. Esperei alguns minutos e nestes fumei dois Derby. Já arquitetava minha volta, quando o motorista do Mercedes, buzinou. Entrei e ele disse: “Não há ninguém nos outros pontos, eles foram mais cedo, você não foi? Vai entrar?”. Não respondi apenas, acenei com as mãos pedindo que toca-se em frente. Ele falou o caminho todo. Disse que estava o maior fundurcio a frente da fabrica: “Os home tão lá”, falou “mas ta tudo em paz”.

Não tinha uma alma viva, nos abrigos de ônibus e muito menos nas ruas. A dor no fígado aumentava e aquele condutor do veiculo não parava de falar. Os quinze minutos que separavam meu bairro da industria, pareceram uma eternidade. Não dava para ver muita coisa. Um caminhão enorme, fechava o portão da fabrica. Uma multidão de camaradas, á frente, conversando ao mesmo tempo, em que um rapaz bem novo discursava, em cima da carroceria do veiculo. Acho que era do Sindicato. Não conheço ninguém. Nunca quis ser sócio. Meu chefe dizia que era bobagem. Eles incentivavam a baderna e pudiamos perder o emprego. Mas parece que alguma coisa me dizia, que eu devia ouvir aquele jovem. Mas outra falava o contrario: “Pense nos seus filhos”. Mas as vozes insistiram em travar um debate, em minha consciência. Isto fazia arder de dor meu fígado. A primeira, gritou “Se você embarcar nessa, vais morrer de fome, nunca mais arruma trabalho”. A outra berrava, do lado esquerdo, “Com este salário, você e sua família já estão morrendo de fome”. A outra rebatia: “Para de bobagem, melhor um passarinho na mão do que dois voando, não faça isto, estes caras não ligam para nada só querem tirar proveito político”. A da esquerda com um tom mais forte, “Você não quer um futuro melhor para seus filhos? Não quer uma vida sem sacrifícios? Ter condições para pagar suas contas e comer decentemente? Veja estas há 10 anos, aqui o que o Patrão te deu?.

Estava zonzo, com cada frase das vozes. Tinha decidido no bar no dia anterior, que entraria. Mas comecei a pensar. Porque? Que ganho com isto? O chefe berra comigo todo dia, quase perdi a mão na maquina, meu pagamento fica todo para pagar farmácia, meus filhos vivem doentes, porque não comem direito e outras necessidades que não posso lhes dar. Segurar emprego?. Vejo dezenas de camaradas serem demitidos, todos os dias, e não tinha parada. Não tenho dinheiro para nada. Meus sapatos que uso, serve para trabalhar e ir á missa. Minha mulher não tem um vestido novo há muitos anos. A prestação da casa da atrasada e já tem ação de despejo. Pedi um aumento, me negaram. Pedi um empréstimo para pagar o tratamento médico de minha filha, negaram. Minha casa caindo aos pedaços. Não sei como pagar a água e a energia, tão atrasados. Mas o meu patrão não anda de ônibus, tem um Honda Civic, mora em uma mansão em um condomínio fechado. Deve comer filé mignon, eu como mingual de fubá com Chuchu.

Parem de falar não agüento mais. Calem a boca. As vozes cessaram. Desci do ônibus. Fui cumprimentando um a um de meus camaradas, que retribuíam com sorrisos e abraços. Eles sim são meus amigos. Eles são meus pares. Aproximei do caminhão e pedi: “quero falar”. O garoto que discursava, passou o microfone: “Uma água viva e cristalina, inundou meu coração e minha cabeça, estou pronto”. Aquele dia foi o primeiro, de muitos em minha vida por um mundo melhor.

dialetico
Enviado por dialetico em 03/10/2007
Código do texto: T678448
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Sobre o autor
dialetico
Limeira - São Paulo - Brasil, 55 anos
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