Vida nova

Em uma noite fria de julho, com os cabelos desalinhados e ainda molhados, ele pagou no guichê a noite passada com a ex-amante. Engatou a primeira marcha do carro e, lentamente, foi contornando a rótula que o levaria para casa. Pelo retrovisor acompanhou-a saindo também, até contornar a mesma rótula e seguir em sentido contrário.

Aliviado, seguiu em silêncio, certo de que, apesar de todos os revezes dos últimos 15 anos, não esquecera de sí. Sentenciou, naquela noite, a sua liberdade. Estava feliz.

Chegou em casa e, ao entrar na cozinha para tomar uma água, deparou-se com a cuidadora de sua esposa há 7 anos que tivera, há 10 anos, um AVC isquêmico que a deixara sem movimentos do lado esquerdo nos três primeiros anos. Os anos seguintes foram agravados por uma esclerose em alto grau que a colocara em vida quase vegetativa. O clima na casa determinava, a cada dia, a iminência do caos.

O casal tivera 2 filhos, ambos residindo fora do país por questões profissionais, já que passaram por excelente formação, mais condizente com experiências em países mais desenvolvidos. Ele médico e ela engenheira química. Ambos tinham conhecimento da situação da mãe e, consequentemente, da abnegação do pai nesses anos todos. Mas, especialmente incentivados por ele, decidiram alçar vôos em busca de sua realização.

O casamento durava 40 anos. Conheceu a esposa numa pequena cidade do interior chamada Barracão, apaixonou-se e, mesmo contra a vontade dos sogros, logrou êxito na conquista, contraindo matrimônio no último dia do ano de 2008. Na virada para 2009 os fogos de artifício refletiam nas suas alianças, já nas mãos direitas.

Ele era de família humilde, filho de alfaiate e dona de casa. Trabalhava desde os 15 anos em um comércio varejista de um tio. Ela, filha única de um casal de fazendeiros considerado o de maior patrimônio por aquelas bandas. Levaram 3 anos para convencer os pais que o amor venceria toda e qualquer dificuldade. E assim iniciaram a vida.

No quinto ano de casados ele passou em um concurso para escriturário de um banco regional e assumiu na capital por sua excelente colocação. Levou a esposa e a acomodou em uma pequena casa em um bairro distante do centro, já que o início de carreira não previa proventos muito generosos.

Ela, como nunca buscara uma profissão, acabou caindo em solidão na cidade estranha, longe dos pais, dos primos e dos serviçais da família que sempre a atendiam, mesmo depois de casada, na sua cidade natal. Em latente depressão iniciou um círculo interminável de ofensas ao marido, culminando em humilhações que o deixavam atônito frente aos seus vizinhos, que muitas vezes ouviam os gritos escandalosos da esposa. Mesmo assim, o sentimento de amor ainda continuava um tanto preservado entre os dois e, no terceiro ano da mudança surgiu a primeira gravidez, acalmando os ânimos e buscando refazer as suas esperanças de uma vida melhor. O primeiro filho nasceu com saúde, foi extremamente bem cuidado pela mãe e, quando tinha 3 anos, passou a dividir as atenções com uma maninha, que também chegara com saúde e uma vivacidade ímpar. A família como um todo se assentou e, nessa época, o provedor já havia galgado a Gerencia e, consequentemente, um melhor patamar financeiro. Foi então que ele comprou um belo apartamento no bairro Bom Fim e matriculou os filhos no Colégio Bom Conselho.

A esposa seguia envolvida com as atividades escolares dos filhos, intercaladas por atividades esportivas e curso de inglês, mais adaptada à nova realidade. Foi mãe extremada e, ao mesmo tempo, uma boa esposa para o Gerente da Regional Sul, cargo que o marido já ocupara quando seus filhos se formaram. Ambos cursaram Mestrado e, 4 anos após a formatura, o filho já estava residindo na cidade de Milwaukee, trabalhando em um hospital especializado em queimaduras e casado com uma americana. A filha seguiu o mesmo caminho, rumando para Utah.

Nessa virada o casal conheceu o tão temeroso ninho vazio. Ele, pressentindo a solidão pela ausência dos filhos, decidiu envolver-se mais e mais no trabalho. Por sua vez, a esposa foi novamente caindo em profunda depressão. As visitas ao psiquiatra eram frequentes e os remédios já equivaliam a uma dosagem extrema. Acordava e deitava literalmente sedada, zonza, sem norte. Com o resultado do vazio recomeçaram as ofensas e humilhações direcionadas ao marido, especialmente quando se tratava de assuntos financeiros. No fundo ela sentia-se frustrada por o ver crescer profissionalmente por seus próprios méritos, enquanto ela, além de preocupar-se com os filhos, nada fizera para colocar outro sentido na sua vida. Alegava que herdaria as fazendas da família e que jamais o deixaria colocar a mão em um hectare sequer. Ele, já com a vida profissional estabilizada - absolutamente muito distante de ser um homem com posses - não dava ouvidos à mulher, até que chegou no limite e pediu a separação. Ela, em total descontrole, não aceitou e em momento algum comentou com os pais, nesse período já com idade bem avançada.

Foi então que, em 2012, tudo mudou com a doença, deixando-a em uma cama completamente dependente de cuidadoras. Gritava tanto durante a noite que o marido teve que isolar o seu dormitório com espumas anti-ruídos como se um estúdio de gravação fosse.

Em uma tarde de janeiro de 2015, ele, caminhando pela Rua dos Andradas, esbarrou em uma moça alta, loira e de olhos azuis. Pediu desculpas sem desviar o olhar e, num ímpeto desconhecido, convidou-a para um café. Ela, um tanto retraída, aceitou e os dois rumaram para um local discreto no interior da Galeria Chaves.

O café foi o início de um romance tórrido por vários anos. Encontravam-se 2 vezes por semana, sempre no mesmo Motel, e lá sonhavam uma vida juntos. Ela era viúva, sem filhos, aposentada e livre de quaisquer amarras, podendo e querendo viver com ele. O inverso verdadeiro.

Naquela noite de julho, já com uma Casa de Repouso aguardando pela esposa, com pleno aval dos filhos, ele finalmente senteciou para a amante que o pesadelo tinha acabado. Não se sentia um homem insensível; e sim alguém que conseguia vislumbrar um futuro tranquilo, trabalhar menos, viajar um pouco e curtir o sossego de um lar quando chegasse em casa, na simplicidade dos tempos de Barracão, quando, com o salário do final do mês, conseguia ajudar nas despesas da casa dos pais com extremo orgulho e divertir-se com a molecada nos finais de tarde na única sorveteria da cidade.

Tudo mudara desde que tomara a decisão. Teria paz para pensar na sua vida e, quem sabe, retomar os estudos. Tudo ficara claro.

Dos 40 anos de casamento, contrariando a certeza que tinha, além da realização com os filhos, os bons períodos foram poucos e o que restou na figura da esposa não mais tinha consciência de coisa alguma, incapaz de julgar a sua decisão.

Era preciso avançar para viver.

Nov.19

Exercício Laboratório Escrita Criativa - Historicidade

PRAGMATHA

Rosalva
Enviado por Rosalva em 26/11/2019
Reeditado em 27/01/2020
Código do texto: T6804664
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