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O velho guitarrista

     Bairro Alto. Varanda de direito de quarto andar. Estava trabalhando a técnica com o segundo volume do “escuela razonada de la guitarra”; os olhos desviavam-se mais uma vez para a partitura quando, em refazer de repetição, retomava folego e o ânimo.

      Apesar da postura e posição correcta das mãos, sabia jamais poder vir a ser “Baden” ou “Williams”, dificilmente conseguiria evoluir de forma a tocar bem peças como “el colibri” de Sagreras, “sunburst” de York ou “la catedral” de Barrios Mangoré. Mesmo assim, continuávamos lutando, eu e o exercício pouco melódico. Entretanto ouço a voz baixa e educada. Que opina.

- Jorge, é impressão minha ou você está fazendo bons progressos?

   Francisco era sempre encorajador e tinha paciência de santo para ficar me  ouvindo. Consegui retorquir com um tímido “achas mesmo?”.

- Sim. A prática leva à perfeição – disse ele enfaticamente, de modo a
  não deixar margem para dúvidas.

   Ficou observando e escutando mais um pouco após o que saiu em silêncio, sem mais aviso. Voltaria uns quinze minutos mais tarde para arrastar-me até ao sítio do costume – a cervejaria da Trindade. Onde fomos entrando e sentando.

- Duas canecas, por favor – pedimos, cheios de sede.

- Sabes, é interessante como a história se faz! Muitas vezes o que
  conhecemos dos factos pouco tem a ver com o que se passou na
  realidade.

- Sim – disse eu, anuindo e recostando-me. Já estava acostumado a
  estes inícios mansos. Quase sempre precediam uma longa conversa.

- Por exemplo, conheces aquele quadro famoso, o tal que se encontra
  no Instituto de Artes de Chicago - “O velho guitarrista”?

- Conheço. Que tem ele?

- Sabes o que se diz não é? Foi pintado na fase azul. Chegam a afirmar
  que o quadro é uma representação do próprio artista, do acto de
  criação de arte e sua relação com a burguesia. Tudo disparates!

- Hmmm... como assim?

- Vou-te contar... e começou

    Nessa altura, o pintor ainda não era muito conhecido e tinha uma vida nocturna intensa. Efectuou várias viagens a Paris, onde acabaria por fixar-se definitivamente. Tinha a mania de sair e ficar acordado até altas horas da noite. E foi numa dessas saídas nocturnas  que o encontrou.

- Encontrou? A quem?

- O guitarrista, homem! O motivo do quadro.

- Então quer dizer que o velho existiu mesmo?

- Claro! Mas não era assim tão velho. Deixa-me continuar...

   Encontraram-no junto ao passeio, numa esquina em fundo de rua.  Pernas cruzadas, face inclinada para baixo, olhos meio fechados,  a posição desafiava todas as regras que qualquer boa escola de guitarra ensinaria. Uma técnica longe de ser perfeita paria aqueles sons, maravilhosos.

    Encantados com o que ouviam, entabularam conversa  – “Hei hombre, vine tomar una copa con nosotros”. O grupo sentou-se e depressa surgiram as perguntas. Queriam saber tudo sobre o estranho personagem. E ele contou em flor de noite tudo o que o tempo permitiu.

   Nunca tinha tido aulas de música; era apenas um pobre de Cristo,  funcionário público cinzentão. Naquele dia de Outono a mulher tinha saído bem cedo, deixando o catraio na ama. Como tantas vezes, vestiu o sobretudo, bateu com a porta e preparou-se para fazer a pé os dois quilómetros, distância que o separava da repartição.  Meteu caminho pela rua e foi andando em passo rápido, estugado. Foi então que o viu. Barba branca mal cuidada em rosto onde as rugas disputavam espaço vorazes. A guitarra. O som imperfeito. A interpelação.

- Amigo, dê-me algo para comer por favor. Tenho fome.

   Olhou para aquele cimo de barba cujos olhos cintilavam. Aquilo irritava-o profundamente. Como se não bastasse o trabalho chato, a rotina dos dias sem fim, ainda tinha que levar com esses cães vadios. O pé fez voar a taça com as poucas moedas – Vai trabalhar pá. Deixa-te de histórias. Ainda se tocasses alguma coisa de jeito...

    A tijela voou para o espaço onde o homem já não estava. Então algo lhe bateu por detrás violentamente. Uma dor sem nome entrou de fininho e instalou-se autoritária.

   Acordou algumas horas mais tarde. A luz da lâmpada do hospital deixou perceber esboços de uma face com máscara branca. Pouco a pouco os contornos foram-se tornando nítidos de nitidez estranha – que o feria. Fechou os olhos. A melodia surgia em sua cabeça.

- É pá. Quer isso dizer que o gajo ficou com problemas na cachimónia?

- Isso mesmo amigo. Ficou a bater mal. Foi se lhe o juízo, veio-lhe o
  jeito para a música. Perdeu o emprego, a mulher fartou-se e pô-lo a
  andar. Passou a deambular pelas ruas – ele e a sua amiga.

- Amiga de seis cordas não é?

- Exacto. A velha guitarra.  Sabes o que tocava o gajo quando o
  encontraram? Tocava “la ultima cancion” do Barrios Mangoré. Uma
  peça cujo trémulo faz corar de vergonha o “recuerdos de la alhambra”
  do Tárrega.

- Olha lá pá – ainda disse eu.

      Pensei contar-lhe o que sabia.  Em 1903, data da pintura do célebre quadro, Barrios tinha apenas quinze anos e só mais tarde, por volta de 1905 comecaria a compor “a sério”. Além disso, “la ultima cancion”, última composição do génio, fora criada bastante tempo depois.

  Conhecendo o meu amigo, sei que não o atrapalharia minimamente. Provavelmente ele diria: Pois! Mas sabes o mais incrível? É que a história de “la ultima cancion” está igualmente mal contada. Ela diz que Barrios se inspirou no som efectuado por um mendigo a bater à porta. O que não diz é que o mendigo entrou mesmo e trazia com ele uma guitarra. Ah! Já se está mesmo a ver quem era esse mendigo não é...

  O ditado diz “apanha-se mais depressa um mentiroso que um coxo”. Mas como há mentirosos que correm muito, reconsiderei. Limitei-me a continuar o “olha lá pá” com um “não achas que ainda bebíamos mais duas?”



 

José Espírito Santo
Enviado por José Espírito Santo em 14/10/2007
Código do texto: T693867

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Sobre o autor
José Espírito Santo
Portugal, 51 anos
155 textos (7507 leituras)
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