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Lições de esquecer

   - Frustração! Não consigo...
   - Não consegue o quê?
   - Esquecer.
   - Ah, de novo isso... "Mas por que esquecer pessoas importantes em nossas vidas? A vida é uma experiência fantástica e apesar de caótica somos muito mais sucesso que fracasso". Alguém já me disse isso.
   - Está bem, está certo: esquecer não vou mesmo. Mas quero parar de desejar.
   - Bem, então aí você vai ter que esquecer.
   - E como faço?

   - Em primeiro lugar, ocupe o seu dia inteiro. Inteirinho. Não deixe um só segundo ocioso, não permita que escape um desvão de tempo onde a memória possa se refugiar. Ao acordar, pela manhã, desvie seu pensamento, programando mentalmente sua jornada diária na qual não haverá espaço para lembranças.
 
Em seguida, à mesa, nada de acompanhar com os olhos a fumaça do café, perdendo-se melancolicamente em recordações. Nenhum cheiro, nenhum ruído, nenhum estímulo poderá acender as luzes da memória. Mantenha-as apagadas. Pegue o jornal, leia as notícias – as piores – e, se necessário, em voz alta. Mas preste atenção ao que lê, nada de devaneios distraindo sua atenção das péssimas notícias ali impressas. Se não conseguir se concentrar, leia quadrinhos, faça palavras cruzadas; mas não permita que sua mente escape.

Ao passar por aquele lugar, ao ouvir aquela música, ao sentir aquele perfume,  imediatamente pense em outra coisa. Outros lugares, outras músicas, outros perfumes. Propositalmente anule de sua mente as boas recordações, e nessa hora lembre-se somente dos momentos ruins, dos desencontros, das discussões. Não deixe que a distância amenize as infelicidades, mas pelo contrário, faça-as cada vez mais presentes em sua memória.

Ligue para seus amigos, os mais divertidos. Preferencialmente aqueles que nada sabem do objeto de sua obsessão. Eles não perguntarão, não o farão recordar, e acima de tudo o farão rir. Na pior das hipóteses, que eles estejam precisando de um ombro amigo! Assim você sairá da condição de necessitado para a de provedor, distraindo seu foco ao auxiliar o outro.

À noite, só em sua cama, jamais permita que a memória de outras noites mais felizes atice sua alma ou regue seus olhos. Não se perca em recordações românticas, que seu corpo insiste em manter vivas. Desça às profundezas do inferno, aqueça-se nas labaredas do cão, venda sua alma para que a lembrança da outra pele, que lhe servia de cobertor e abrigo, queime junto ao fogo eterno. Feche os olhos, respire fundo, e tenha a certeza de que amanhã será uma outra estréia, na qual só poderá desfilar ante seus olhos o nunca visto...

   - Vou tentar me lembrar.
   - Ué, mas você não queria esquecer?
   - Evidente que sim, mas para esquecer preciso me lembrar de todas essas lições!
   - Ah, certo.
   - Só mais uma perguntinha...
   - Diga.
   - Por que é que estou falando com um espelho?
   - Bom, aí é com você. Cada louco com sua mania...
Vany Grizante
Enviado por Vany Grizante em 16/10/2007
Reeditado em 17/10/2007
Código do texto: T697362
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Vany Grizante
São Paulo - São Paulo - Brasil, 58 anos
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Vany Grizante