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Recortes

Ele apagou o cigarro no cinzeiro de pedra-verde-musgo e a porta do quarto bateu. Abriu a janela e viu o dia. Quente úmido abafado. Abriu a janela e viu mais janelas. E viu telhados e estacionamentos. E viu uma casa bonita com um quintal grande e bonito e com crianças brincando no quintal. E fechou a janela. As crianças no quintal bonito davam um ar de esperança bonito praquele apartamento cinza gélido sem-graça e cheio de recortes na parede. Então ele sorriu. Abriu a porta do quarto e dessa vez lembrou de prendê-la pra que não batesse novamente. Abriu a janela da sala pra que entrasse um ar puro e novo na casa. Um cheiro de concreto molhado pela chuva que insiste em chover de madrugada pra que o ar da manhã seja úmido e o da tarde abafado. Abriu a janela pra que entrassem energias novas e saíssem as antigas. Renovar as energias, ele disse. Disse sete vezes e acendeu uma vela. Com a vela acendeu a chama do fogão. E com a chama esquentou a água pro café. Preciso molhar as samambaias, pensou entre o cheiro de café novo as velhas pastilhas azul-piscina da parede da cozinha e a mesa de madeira. O jogo de xícaras coloridas. Escolheu a branca. Pra renovar as energias.
Ela chegou em casa atirou as pastas e folhas e sapatos no sofá cor creme. E sentou-se com ele à mesa. Escolheu a xícara verde. Beijou-lhe a testa. Serviu um pouco de café e completou com leite. Ele sorriu.
- Você está bebendo café demais. E está muito magro. Aposto que mal almoçou hoje.
- Acordei agora.
- Você está desperdiçando sua vida.
- É o que me resta pra desperdiçar.
E então ele foi até o quarto buscar os cigarros e abrir novamente a janela. As crianças continuavam brincando no quintal grande.  Voltou a cozinha e ela entrou no quarto, pegou a toalha e foi pro banho. Sentado na sala ele fumava e esperava que ela saísse do banho pra que pudessem conversar. Não que quisesse conversar. Mas queria ouvi-la, porque ela falava bastante e falava coisas bonitas e falava sobre pessoas e falava como uma amiga deve falar. E ele a amava. Amava como se ama a alguém que fala coisas bonitas e lhe passa a mão nos cabelos despreocupadamente. Amava como se ama alguém que se preocupa porque você está magro demais. E tomando café demais. E fumando demais. E aproveitando a vida de menos. E escrevendo bem menos do que deveria. E saindo menos de casa. Ele a amava porque não esperava que a amasse. Mas foi uma coisa forte. Uma coisa que veio vindo com o tempo e aí não deu tempo de segurar. Que cresceu dentro dele e tomou conta. Que escolheu ele pra morar. Dentro dele. E na casa dele.
Ela saiu do banho e cheirando a sabonete sentou do lado dele no sofá creme. De dentro da pasta tirou uma revista que ela disse que tinha umas imagens incríveis. Pra que eles recortassem e colassem pela casa. E tirou um livro que ela disse que ele tinha que ler. E ele prometeu que leria assim que tivesse tempo. Ela riu, porque ele sempre tem tempo. E tirou também um buquê de rosas pra eles porem no vaso que fica na mesa de centro. Mas ela se desculpou por as rosas terem murchado por estarem guardadas dentro da pasta porque ela pegou uma chuvinha no caminho e aí foi obrigada a guardá-las. Mas ele disse que não tinha problema e que eram as rosas mais lindas que já tinha visto. E botou ali no vaso. Do lado da vela. E disse que agora sim a casa absorveria energias. Trouxe rosas vermelhas porque vermelho é a cor da paixão, e nós dois estamos precisando de paixões. Ele disse que a vela rosa não foi coincidência. Deitada nas pernas dele, ela falava, e falava bastante, e falava coisas bonitas.
E enquanto ela falava ele ia percebendo que talvez seu apartamento não fosse tão cinza gélido e sem-graça. Que os recortes as velas e as flores deixavam o ambiente alegre. Que ele tinha ali dentro tudo o que queria e precisava. Que ele amava. Amava a ela. Amava a casa. Amava a ele. E quanto mais ela falava e mais ele ia percebendo, mais tinha certeza de que a única coisa que tinha pra desperdiçar estava ficando mais bonita. E indispensável.


Gustavo Gaspar Almeida
Enviado por Gustavo Gaspar Almeida em 17/10/2007
Código do texto: T698874
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Sobre o autor
Gustavo Gaspar Almeida
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 29 anos
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Gustavo Gaspar Almeida