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O último sonho

Então é isso, doutor, eu vou morrer?

-Bom, morrer todos vamos, não é bem assim…

Ah, tenha santa paciência! Aquele homenzinho de branco com um milhão de diplomas na parede acabara de dizer com todas as letras que “o tumor no cérebro foi descoberto tarde demais” e agora lhe aparecia com esse tipo de 'delicadeza'? Pensava ele, acaso, estar tratando com algum ignorante? Essa completa falta de tato só evidenciava seu despreparo para lidar com os pacientes. Esses jovenzinhos… Acabam de sair da faculdade e acham que já sabem tudo da profissão. Como se todos aqueles cursos no exterior e horas em laboratórios pudessem sobrepujar a experiência cotidiana no trato profissional. Chegam a crer, em seu extremo pedantismo, que basta uma vasta bibliografia nas costas, alguns anos de hibernação em salas de estudos e já se está automaticamente apto a tudo. É bem verdade que, tecnicamente, estão cada vez mais preparados, mas incapazes são de enxergar que o êxito nas inter-relações humanas não pode ser aprendido em bibliotecas; que aquilo que se exercita em cadáveres ou bonecos nas universidades será um dia praticado em seres humanos de verdade, vivos, com pensamentos, sentimentos e, alguns dizem até, espírito. E como seria conveniente naquele momento que realmente houvesse algum espírito…

- Ora, doutor, eu bem sei que todos vamos morrer! Quero informações palpáveis! Acho que já estou suficientemente desesperado para que fique fazendo suspense.

- Acalme-se, seu Antônio. Não seria preferível que voltássemos a conversar depois que o senhor se tranquilizar?

- Mas será possível, misericórdia, que vai continuar me enrolando? Mas que espécie de médico é esse que sequer consegue dar um diagnóstico a um paciente? Desse jeito o senhor acaba por me matar ainda mais cedo!

- Tudo bem, conversemos agora, mas fique calmo.

- Pois fale!

-Bem, como lhe disse, o seu tumor está em um estado muito avançado. Como médico, o que posso afirmar é que as probabilidades de cura, infelizmente, são baixas. Porém, com o tratamento adequado, temos chances de retardar um pouco o avanço da doença. Agora, afora da seara médica, aconselho que apegue-se à fé, caso tenha alguma. Não tenho muito tempo de atuação, portanto não posso lhe afirmar muita coisa baseado em minha experiência, mas tenho ouvido histórias de curas absolutamente fora de cogitação para a medicina. Portanto, a última coisa que podemos fazer é perder as esperanças.

Antônio não havia ficado satisfeito com aquela explicação, mas não insistiu, jamais obteria mesmo a resposta que almejava. E, é preciso admitir, tudo o que desejava ouvir era um puro e simples “sim, você vai morrer”. Não que Antônio quisesse morrer logo, longe disso! Agora que contava com seus 57 anos e, apesar de já não ser tão novo, tinha ainda muito o que viver. O que ele queria mesmo era que se lhe desfizesse por completo qualquer fragmento de esperança. Não desejava passar seus últimos dias lutando uma batalha impossível de ser vencida. Antônio sentia, no fundo, que já não tinha chance alguma. Mas precisava que isto lhe fosse dito com todas as letras. Sim, porque a esperança é uma criança levada e, se lhe é dado um grão de liberdade, certamente aprontará nele suas travessuras. Mas como faz sofrer a esperança que possui apenas um grão para  se movimentar…! É só o que basta, um grão e destroem-se todas as possibilidades de um homem resignar-se. E agora Antônio teria de lidar com aquelas baixas probabilidades de cura, aqueles milagres da fé… Era muita tortura para um homem só!

Como Antônio ficara mudo, o médico continuou:

-Com relação ao tratamento…

-Esqueça! Não haverá tratamento algum. Pode deixar que eu mesmo decido o que fazer dos meus últimos dias_ e saiu do consultório batendo a porta.
****************************************

Apesar de sua atitude para com o médico, Antônio não tinha a menor idéia do que fazer de seus últimos dias, nem acreditava, de fato, que essa escolha estivesse em suas mãos. Para um homem jurado de morte é um tanto difícil crer que se possa decidir verdadeiramente sobre algo.

Saiu da clínica e foi andando em direção a um cais que havia ali perto. Apoiou-se na mureta e ficou olhando o mar, fixamente. Ainda não tinha chorado, mas poderia fazê-lo agora, sem deixar quaisquer vestígios. Suas lágrimas fundiriam-se ao oceano e ninguém jamais as veria. Quem sabe ele também pudesse… Não, não. Melhor apagar essas idéias da cabeça. Tudo tolices que abatem naturalmente um homem em momentos de extrema angústia. E não se pode deixar dominar pelo que se imagina em momentos de angústia.

 Antônio precisava mesmo era abrir-se com alguém. Isso! Nessas horas um confidente pode ser muito útil para que se clareiem as idéias. Mas quem? Procurava em sua cabeça uma pessoa à qual pudesse confessar suas desditas. 57 anos de vida e só agora percebia o quanto era um homem solitário, sequer tinha construído uma família. Acendeu um cigarro, e outro, e mais outro… Ao menos agora poderia entregar-se àquele prazer sem qualquer tipo de culpa. Observava a fumaça saindo concentrada de sua boca e de suas narinas, indo cada vez mais alto, dispersando-se com o vento até desaparecer, suave, espontânea, indolor… Havia em seu íntimo uma certa inveja daquela fumaça. Talvez não fosse de todo inútil o conselho que o médico lhe havia dado. Quem sabe se procurasse uma igreja… Bem, não custava nada tentar.

***********************************

A alguns minutos dali havia uma pequena igreja. Caminhou até lá, entrou e sentou-se em um banco. Estava vazia, tanto melhor! Apenas o capelão cuidava de arrumar algumas coisas para a missa que seria ministrada mais tarde:

-Vieste confessar? Aguarde só um minuto.

Antônio pretendia, de início, apenas tentar rezar um pouco, mas não fez qualquer objeção. De fato não era uma má idéia ter uma conversa com o capelão, quem sabe ele pudesse auxiliá-lo de algum modo… Esperou. Pouco tempo depois ouviu o chamado:

- Estou pronto! Vamos ao confessionário.

- Na verdade não queria me confessar, apenas ter uma conversa, se isso for possível.

- Pois estou a seu dispor. Do que se trata?

- Imaginei se, não sei, talvez o senhor pudesse me dar algum auxílo…

-Claro, filho, o que te aflige?

-Bem, hoje fui ao médico receber o resultado de alguns exames e, bom, estou desenganado.

- Desenganado? _ O padre calou-se por um momento, como se devesse isto a Anônio_  Imagino a dor terrível que estás sentindo! Fizeste bem em procurar a casa de Deus, aqui encontrarás conforto para tua alma.

- Como posso estar certo de que tenho mesmo uma alma?

- É o que Deus nos diz, assim está na Bíblia.

-Mas, padre,  queria, antes, uma explicação razoável para crer na própria existência de deus. Se ele de fato existe e é tão grande em benevolência, por que motivo estaria sendo tão malevolente comigo?

Antônio sabia o quão clichê era aquela pergunta e até imaginava quantas vezes o padre havia tido de respondê-la, mas não podia fugir de questioná-lo.

-Deus sabe o que faz, não nos cabe questionar. Ele sempre escolhe o melhor caminho, porque é a personificação da sabedoria. Não posso explicar-lhe Sua existência, mas posso indicar os caminhos para que você mesmo a sinta. Deus só faz sentido para nós quando é vivido dentro de nossos corações. Procure Deus dentro de você e eu garanto que a resposta que encontrará não poderá ser diferente da que eu encontrei.

- E quem pode nos garantir que deus não é um grande farsante que se diverte nos iludindo, interferindo nos rumos de nossas vida, causando alegira e sofrimento a seu bel- prazer?

-Tire esses pensamentos de sua cabeça, filho! Eles te desviam do caminho correto. Os homens, quanto mais adiantados em sabedoria, tanto mais justos e amoros são, e isso você tem como observar e comprovar aqui mesmo na Terra. Como Deus, que é o detentor da sabedoria suprema, poderia não ser dono também do amor e da justiça supremas?

-Tudo bem, padre! Vou meditar acerca de suas palavras.

-Isso, filho! Afaste de sua mente estes pensamentos angustiantes, tenha fé e, com toda certeza, uma morada lhe será reservada ao lado Dele. Tua existência não termina por aqui, acredite!

-Obrigado, padre! Agora devo ir.

-Vá com Deus e volte sempre que precisar de algum conselho! Espero ter ajudado.

- Sim, ajudou bastante!

*******************************

A verdade é que Antônio proferira aquelas últimas palavras em consideração ao padre, o qual havia lhe recebido tão prestativa e amorosamente. Não estava convencido de nada daquilo, muito pelo contrário: aquela conversa apenas reforçava suas antigas suspeitas. Sentia-se podado em sua liberdade, amarrado aos desmandos da vida como um barco à velas o é ao vento.

Entretanto, no âmbito restrito de seus pensamentos, ele era livre. E os pensamentos o levavam, agora, por caminhos tortuosos. Mas será que ele deveria mesmo afastá-los e substituí-los por outros mais otimistas? Não, não... Ao menos no pensar Antônio tinha de preservar a sua liberdade. Se determinado pensamento lhe queria vir à cabeça, como poderia censurá-lo? O que desejava mesmo era, através de seu sincero raciocínio, chegar a um motivo para tudo isto. Nada de trapaças! Porém, quanto mais procurava uma explicação, mais argumentos encontrava para achar tudo uma grande palhaçada, para sentir-se prisioneiro do que quer que tenha sido que o criou e simplesmente o fez existir e raciocinar sem lhe dar a mínima satisfação.

Ninguém poderia ajudá-lo, a tentativa com o capelão ilustrou muito bem. Sabia que as pessoas sequer se empenhariam em entendê-lo de fato, simplesmente abstrairiam tudo o que ele dissesse ao gênero “pensamentos ruins e auto-destrutivos” sem sequer refletirem acerca do conteúdo desses pensamentos e, cheios de certezas, buscariam encontrar táticas para fazê-lo esquecer tais idéias; táticas essas que seriam as mesmas para qualquer espécie de pensamento que se enquadrasse ao gênero “pensamentos ruins e auto-destrutivos” .

Mas Antônio, mais do que ninguém, entendia agora como todas as certezas eram vãs. Vivia em sua plenitude a angústia de existir:

- A vida é mesmo a maior negação da liberdade_ pensava.

-Talvez, ao contrário do que é amplamente propagado, não exista liberdade enquanto exista pensamento. Talvez o pensar não seja mais que evidência de nossa imperfeição, ignorância e aprisionamento; e, quem sabe, nossa pior punição... Só há pensamentos onde há dúvidas, só há dúvidas quando não se está no controle, só não se está no controle quando se é dependente, só se é dependente quando não se é livre…

Fora esta a conclusão à qual Antônio chegara. Percebeu a vida como um grande teste à sua liberdade, teste este do qual pretendia sair vencedor.
**********************

Era preciso ter coragem para colocar em ação aquele plano de vitória, mas Antônio não possuia ainda essa coragem. Porém, nem que precisasse se valer de artifícios, ele a encontraria. E era no bar que esperava encontrá-la.

No bar, bebeu o suficiente para se sentir o homem mais poderoso do mundo, mas não tanto para esquecer de seu intuíto. Já tendo arranjado a coragem da qual necessitava, achava-se pronto para lançar seu derradeiro grito de liberdade. Seria no mar! Aquele mesmo mar que vira suas lágrimas seria, agora, palco de seu triunfo. E ele estava logo ali, em frente ao bar, bastava atravessar a avenida.

E que golpe baixo Antônio levaria quando já estava quase vencendo a guerra! Jamais imaginara que a mesma bebida que o enchera de coragem seria aquela a roubar-lhe o equilíbrio em plena avenida e: booomm! Um acidente terrível! Antônio fora atropelado. Os últimos quatro meses de sua vida, passou em uma cama de hospital, tetraplégico.





Eleanorrigby
Enviado por Eleanorrigby em 19/10/2007
Reeditado em 18/08/2017
Código do texto: T701148
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
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São Luís - Maranhão - Brasil, 29 anos
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