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estrela da manhã


ESTRELA DA MANHÃ

Lúcio Fernando não tinha hábitos e se fumar era um vício, pouco lhe importava detalhes sobre patologia, moral ou ética. O dia amanhecia e seus olhos vermelhos ardiam enquanto a alvorada se desdobrava numa hemorrágica borboleta ferindo a escuridão noturna de são Paulo. A garrafa de uísque estava seca e o cigarro era o último. Do décimo andar do apartamento tudo lá fora era belo e distante. Os edifícios sufocavam horizontes e tornavam qualquer coisa burocrática a luz da manhã. Aquele canalha não poderia ter feito isso, pensou, e o canalha era seu pai. Não queria dele mais nada, então, inflamado de raiva buscou em cima do guarda roupa o revólver que já foi do avô do pai de seu pai e que supostamente seria seu, pegou a arma na mão, sentiu seu peso entre os dedos e abrindo o tambor notou que ali havia uma bala para cada geração de desgraçados na família de seu pai. Possuído por um fogo estranho e sentindo-se possuído de uma liberdade jamais provada, viu-se na obrigação de fazer justiça contra aquele que desonrou sua mãe, largando-a na doença pra viver com outra mulher.
E assim foi que, sentindo as chamas de uma fúria sem igual arderem no fundo do peito, escondeu a arma entre as roupas e a pele e foi ter uma conversa séria com seu velho conhecido.
Pegou alguns ônibus, andou a pé e chegando naquele bairro nobre caminhou em passos largos e determinados. Tocou a campainha, a madrasta foi quem atendeu. Ela disse surpresa, Lucio Fernando, tudo bom com você? Enquanto destrancava o portão. Taciturno e grave, avançou arrancando da cintura a arma adentrando o quintal. Ela fez um gesto de horror, empalideceu e foi entrando em casa em marcha ré. Seu pai estava na sala com dois filhos, e essa cena comoveu Lucio, sentiu-se um bastardo.
Seu pai com o seu imutável olhar reprovador disse, o que você quer seu vagabundo. Lucio Fernando com os olhos ainda ardendo e mornos de lágrimas, disse: não quero nada, e isso lhe pertence: deixou a arma sobre a mesa da sala e saiu pela mesma porta que entrou
Den
Enviado por Den em 21/10/2007
Código do texto: T703770
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Sobre o autor
Den
Siderópolis - Santa Catarina - Brasil, 41 anos
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