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Ana e as Baratas

                                                                                   JANJÃO
(Para ler este texto o autor sugere ouvir "A Day In The Life", dos BEATLES)

“Oh Senhor Cidadão, Oh Senhor Cidadão, com quantos kilos de medo se faz uma tradição. Oh Senhor Cidadão, eu quero saber, eu quero saber, se a tesoura do cabelo, também corta a crueldade”. Senhor Cidadão - TOM ZÉ (1972).

As baratas domésticas são de duas espécies, a Blatta Germânica e a Blatta Orientallis, sendo de famílias diferentes. As baratas estão entre os mais antigos habitantes da terra, existem a 350 milhões de anos, muito antes do aparecimento dos dinossauros.

A família das baratas tem 4 mil espécies, sendo que apenas 20 vivem entre os humanos. A maioria preferem lugares tropicais e são noturnas, as poucas que se vê durante o dia pode significar uma infestação.

Estas e outras informações Ana obteve ao ler os livros de biologia, trazidos pelo padre capelão do presídio em que ela estava presa naquele ano de 1973. O interesse pela disciplina e pelos insetos, teve inicio de forma trágica.

Estudante de ciências sociais da USP, Ana militou no movimento estudantil e foi presa ao tentar realizar um assalto a uma agência bancaria, ação típica das organizações armadas para ter dinheiro para a causa.
Foi levada para o DOPS (Departamento de ordem política e social), e lá conheceu seu algoz, um militar de nome ou codinome miro. Com um corpo escultural, Ana já de cara foi vitima da truculência e selvageria de Miro. Em uma sala escura, foi despida e violentada pelo torturador, ao longo de 2 semanas.

Ana sabia que seria estuprada, quando o carcereiro de nome Mosca, se dirigia a sua cela pontualmente ás 2 da manhã e lhe pedia para limpar a vagina e o anus. O ritual macabro realizado todos os dias, consistia também em o gorila introduzir nos órgãos genitais de Ana, objetos e insetos.

As baratas foram os insetos de maior freqüência no corpo de Ana. No inicio ela tinha nojo de bicho tão remelento e sujo. Sempre teve asco e não medo pelos habitantes de varias pernas e asas.

Mas com o tempo, adquiriu curiosidade e até afeição por elas. Primeiro porque as bichinhas faziam já parte de seu cotidiano e segundo, por achar que as mesmas eram vitimas da estupidez de Miro, que ao invés de deixa-las em paz, para buscar alimentos as usava para suas intenções sádicas.

Como o personagem de Kafka em Metamorfose, Ana chegou a estabelecer comunicação com as baratas que freqüentavam sua cela, conversando com elas sobre assuntos dos mais variados e as vezes comia durante todo o dia açúcar, alimento preferido das Blattas.

Os companheiros de prisão andaram achando que a linda morena, estava pirando, em constante delírios e que precisava de atendimento médico e psicológico.
Na verdade a sobrevivência no cativeiro, foi uma das motivações de Ana, para não morrer ou perder a lucidez. As baratas eram sinceras e fieis a ela. Pois todas as noites compareciam no mesmo lugar, para as conversas animadas com a militante.

De seu torturador Ana adquiriu desprezo e ódio. Das baratas curiosidade e cuidados.
dialetico
Enviado por dialetico em 24/10/2007
Código do texto: T707405
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Sobre o autor
dialetico
Limeira - São Paulo - Brasil, 55 anos
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