Inconsequências

A sociedade humana é dominada pela hipocrisia, desculpe a sinceridade, mas não sou afeito a meias palavras, ou melhor, antes eu o era, mas não agora. Alguns podem até me rotular como malagradecido, não importa. A verdade é que eu me sentia preso a essas convenções hipócritas e precisava engolir o asco que sentia por Armengard, um homem outrora rico e que me ajudou na pior fase da vida (isso preciso reconhecer).

Entretanto, como todo mal administrador da própria fortuna, a desgraça recaiu sobre o seu destino. Então, aquele que antes era bajulado e admirado por todos, passou a ser mais um alcoólatra fedorento e desprezível, sendo constantemente encontrado desacordado em alguma sarjeta envolto em urinas e vômitos (oxalá fossem somente dejetos dele).

Eu, de minha parte fiz o que pude, procurei-o oferecendo auxílio, mas o vício e a amargura por ter sido abandonado pela família e os bancos, foram mais forte do que qualquer filantropia.

"Se ele está feliz assim, quem sou eu para contraria-lo?" foi com esse pensamento que me eximi de qualquer responsabilidade. Mas o moribundo, não sei porque cargas d'água insistia em me cumprimentar na rua. Em princípio eu o respondia de longe com um sorriso e aceno, depois só um discreto sorriso, por fim, passei a evitar qualquer contato com ele. Mas, o desgraçado não parece ter entendido a sua inconveniência e insistia em me cumprimentar publicamente. E não com um cumprimento qualquer, às vezes assoviava, ou gritava meu nome, ou abria os braços, como se eu quisesse um afago de sua pessoa em meu paletó novinho e bem cosido ao vinco do alfaiate.

Nossa como eu o odiei. Ó, desculpe se essa palavra causa repulsa. Mas, essa é a verdade. O odiei, odiei com toda força do meu coração. Odiei aquele maldito mendigo, rebotalho escroto, velho, acabado por sua própria promiscuidade.

Você deve estar se perguntando por que eu digo que agora me livrei da hipocrisia social? Graças ao bom Deus, essa abjeto foi encontrado morto essa manhã, afogado no próprio vômito, o pulmão enfraquecido pela pneumonia e a anorexia em que ele vivia, não resistiu ao frio do inverno e o restante a natureza se encarregou de concluir. Então, me vi livre da obrigação de ter que suportá-lo.

A minha esposa teima em me advertir sobre a cólera divina, que eu deveria tê-lo assistido, assim como ele fez a nossa família. Ora, que culpa eu tenho sobre o seu destino? Não o matei, ele mesmo o fez. Agora não preciso mais fingir que tolero a presença de alguém que não suportava nem a ideia de que um dia existiu. Não sou culpado, ninguém é culpado. Foi tarde, não sofre mais nesse mundo. A vida segue.

M P Cândido
Enviado por M P Cândido em 04/12/2020
Reeditado em 08/12/2020
Código do texto: T7127268
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