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Vegetam os Corpos Que Me Seguem

Prólogo

Num mundo onde a normalidade são pessoas queimadas por não serem exactamente o que o grande líder Ministro pretende, Ismael um padre judeu convertido ao catolicismo, revela-se um exímio assassino e traidor.

André um homem que passou a reger-se de forma doentia pelas preces de São Judas Tadeu após algumas revelações pouco fiáveis.

Romão Bondini de famílias italianas emigradas para o Brasil, vendido a portugueses diabólicos por 100 euros com apenas dois meses de idade. Escapando por um triz a uma rede de pedofilia que tinha como base de apoio uma poderosa organização em Lisboa. Teve uma infância feliz, mas foi marcado para toda a vida.

Dona Josefina, mãe adoptiva de Romão, que lhe ensinou tudo aquilo que o vai permitir lutar contra o horror instalado em Lisboa. De novo o centro do mundo. A ela dedica os amores e horrores de uma vida de emoções quase contraditórias. Pela perseverança, força, pela dedicação à Liberdade. Morreu o corpo, mas a alma reside dentro de todos os crentes. A luta ganha novo fôlego todos os dias. O vencedor leva tudo, menos as vidas perdidas.

Capítulo 1 - André


O André dizia-se que tinha enveredado por negócios obscuros embora na realidade não passe de um mero comerciante que tenta sobreviver vendendo congelados.

Diziam que se drogava quando era adolescente, e que tinha violado uma prima engravidando-a. Foi severamente espancado pela própria família e nunca recuperou por completo desses momentos de loucura. Depois veio-se a provar que era um tio que durante alguns anos tinha abusado dela, os testes de ADN provaram tudo o que havia a provar. Esse tio foi encontrado morto, num recanto sujo, com uma bala na cabeça, e nunca se veio a descobrir o assassino.

 
Entretanto, fumava os seus charros, participava em alguns pequenos assaltos a residências em Birre, ali para os lados de Cascais. Diz-se, porque nunca se provou nada e para além disso, de que servia essa fama? Para nunca arranjar emprego, para se envolver nos negócios obscuros da prostituição, embora também nunca se tivesse provado nada, por obra de algum espírito santo desencantado não se sabe de onde. A polícia nunca juntou provas para o pôr na choça uma vez que fosse, mas foi-se criando uma áurea de meliante à sua volta que impunha respeito no bairro.


A lenda, qual lenda se o André nem conseguia passar de um Fiat Uno e de viver num apartamento arrendado ali para os lados da Reboleira, na Amadora, num daqueles prédios sujos onde moram oito inquilinos por piso e é usual ver-se nas portas, 'aqui mora preto!'.

 
Mas rezava a lenda que afinal tinha um terreno de 100 hectares, criação de cavalos, uma Adega e mulheres que nunca mais acabavam. Havia ainda quem dissesse ser ele o justiceiro sem nome que evitava que as meninas desprotegidas fossem violadas na noite escura, que os imigrantes sem papeis fossem levados para a escravatura, que a profunda mentira e hipocrisia que girava em torno do seu nome apenas serviria para o calar, para o matar e fazer regressar a vida à normalidade.

A verdade? Apenas a confusão com um fulano que mais tarde se viria a provar ser o irmão gémeo desaparecido e que mais tarde iria aparecer em circunstâncias sinistras.
André nunca esteve na Reboleira, nem na tal quinta de 100 hectares, vivia apenas na Graça, em Lisboa, num daqueles prédios antigos, em que era uma aventura subir as escadas, como num castelo dos antigos à espera que aparecesse algum mouro para nos cortar as goelas. Não, era apenas um prédio antigo, ainda os carros podiam circular livremente e entupir as ruas, nunca havia lugar para estacionar. A única coisa certa no meio disto tudo era que tinha um dom especial para engatar mulheres, desde as novas às mais maduras. Era charmoso o sacana, e ele sabia o que fazia com elas. Talvez por isso a inveja. Mas também porque era um cantor daquelas músicas lamechas, mesmo xaroposas, ranhosas. Nunca gostei de o ouvir, mas as gajas ficavam histéricas e sexo nunca lhe faltava. No entanto nunca o vi no Top, só a tirar top's, isso sim ele sabia fazer e muito bem, parecia uma romaria de gajas malucas de volta do André, até ao malfadado dia.

- Um maço de tabaco se faz favor
- Sim senhor
- Porra, tanto tempo, é rica por acaso, já vendeu tudo e eu estou aqui a mais?
- Toma lá pá, não me chateies
- Livro de reclamações e já!
- Oh senhor tenha calma, sabe isto é muita coisa ao mesmo tempo
- Cambada de incompetentes

 

Capítulo 2 - Ismael

Ismael, um gajo bem parecido, com quase dois metros de altura.
Sabe-se de fonte segura que foi pai umas quatro ou cinco vezes, que o confessionário parecia uma romaria de meninas bonitas com decotes generosos a confessar os seus pecados. Tinha a lata de contar tudo, 'elas gemem', despindo a alma de preconceitos, loucas de excitação com Ismael. Um homem assim não consegue ser de ferro e entre a entrega a Deus pela eternidade e saciar as fraquezas da carne, nunca se esqueceu da carne, Deus devia ter algo melhor com que se ocupar. E a carne foi sempre saciada. Dizia ele, que era dos olhos azuis e do cabelo loiro, tinha uma voz rouca e para além disso fazia musculação. Padre? Sim era Padre.

O Ismael, é filho de pais judeus, pessoas demasiado liberais, de mente bem aberta. Mas desde muito novo encantou-se com a doutrina cristã, com os ritos católicos, cedo se deixou fascinar pela entrega a Deus, sobretudo pela época dos autos-de-fé, era poderosa para ele a ideia de se entregar a um ser espiritual que tudo comandava. Conta-se que uma vez, no meio de uma briga, conseguiu acabar com uma querela pela via do diálogo, pela via da persuasão. Saiu de lá com um olho negro, um braço partido, mas decidiu nesse dia que se ia entregar a Deus, sentia que tinha sido uma força divina a controlar os seus impulsos homicidas, que o tinha feito agir como Jesus Cristo, dando a outra face. Tinha doze anos, um Q.I. de 350 e convenceu os pais a inscreverem-no num seminário. A mãe desgostosa, pensou que tinha errado na educação, que ele ia ser violado nos seminários e que nunca seria avó na vida. O pai, esse não achou piada ao facto de um judeu querer ser padre, de sonhar em dar missas doutra religião. Quase que desabou o armagedão naquele apartamento no topo de uma colina. Mas Ismael levava sempre a sua avante. Mas da mesma forma que discutiam, acabavam sempre por entender que cada um tinha os seus credos e deixaram-no ir. Sempre foram fáceis de convencer, esse sempre foi o dom especial de Ismael.


Na véspera da ida para o seminário perdeu a virgindade tendo uma aventura amorosa com uma vizinha, amiga da mãe, trinta anos mais velha e outras ideias se lhe afloraram na mente.

Até morrer a mãe ficou sempre com aquela ideia que ele era gay, que tinha ido para o seminário e que os mais velhos o iam violar, tinha lido isso em livros, tinha visto uns filmes que falavam do assunto. Puro engano. Com dezasseis anos redescobriu os prazeres da carne, logo após ter sido ordenado o padre mais jovem da história, sendo inclusive, recebido pelo Papa, ultrapassando todas as dificuldades que era ter tal distinção.

 

Começou naquilo que descobriu ser a sua melhor vocação, tendo relações sexuais diárias com algumas senhoras casadas que deliravam com a conversa dele. Um autêntico garanhão, que depois se penitenciava lendo o Livro do Apocalipse, de longe o seu preferido. Ao contrário das chicotadas que dizia que dava em si próprio. Mas tudo era apenas aparência, mesmo o que estava atrás da fachada da entrega a Deus.


- Dizei-me menina o que vos traz aqui
- Padre o senhor.... aiiii.... aiiii.... hmmmm....
- É pecado, é pecado
- Pequei, pequei
- Tende juízo, rezai... ai tapai vossos peitos formosos, tão belos!
- Ó senhor Padre eu sonho consigo, é pecado e o meu marido desconfia...
- Tapai-vos que estou a perder a respiração, ai! Rezai vários... ufff que calor! Vinde ter comigo aos meus aposentos, sede discreta...

E um dia tudo se desmoronou. Ou talvez não.


Capítulo 3 - Bondini

E um dia no café da Periquita, em Sintra, no meio de uma zaragata, depois de uma velhota ter sido assaltada, Bondini cruzou-se com um Padre a fazer respiração boca a boca a uma senhora de idade que veio a descobrir que se tinha feito desmaiar de propósito só para o charmoso Padre da sua paróquia a beijar. Resultou? Se resultou, mas a velha foi presa e humilhou-se perante a populaça a rir desvairada, mas ia feliz a serigaita, com o sabor do Ismael na boca, podia ir para o Inferno que ia satisfeita.

Mais à frente estava um fulano de óculos escuros e gel no cabelo, um brinco em cada orelha e uma miúda ao seu lado com umas roupitas curtas a tapá-la ao de leve, custou-lhe desviar o olhar dela.

Cinco minutos depois, e um dente caído sentiu alguém colocar-lhe um curativo, talvez vindo da ambulância que tinha parado lá em baixo.

Ao longe a polícia falava com o namorado da gaja quase vestida que tinha feito desaparecer um dente a Bondini. Foi ter com ele e pediu desculpa e que tudo o que pudesse fazer para não fazer queixa dele, ele estaria de acordo. Pediu a companhia da mulher que provocara o desacato

- Não tens mesmo vergonha ó cabrão
- Tu disseste o que eu quisesse
- Ok vamos os três
- Anda cá coisinha fofa
- Tu levas! Tu levas!

e o Padre interveio. A polícia até o Padre quis levar preso, mas com a sua persuasão lendária conseguiu que tudo se resolvesse a bem.

- Senhor Guarda, por Deus, tende calma, tende calma que o Senhor perdoa estas pobres almas

Capítulo 4 - Regresso ao passado

Então um belo dia, já se conheciam há cinco anos, todos os três no auge dos 25 anos, formosos e endinheirados, foram jantar uma valente mariscada.

André, carregado de gel, com o seu fato Armani, bem justo ao corpo musculado.
Ismael, transfigurado, quase irreconhecível, de fato preto, casaco de cabedal à Matrix, cabelo bem curto e um charuto cubano na mão direita. Um padre de charuto e todo de preto? Charuto divino!

Sentaram-se na mesa do costume e falaram,

- Por Jesus, Bondini
- Ah! Ah! Ah! Era ver-te ali a lamberes a velha, estava toda maluca
- O Senhor perdoou-me, dei umas chicotadas no lombo e pronto
- Deves ter dado é umas trancadas na Sofia
- Cuidado com a linguagem André
- Oh querias era papá-la!

de um futuro que amargamente se transformaria em pura ilusão

- Tenho uma ideia, mas preciso que alinhem todos
- Temos orgia hoje? Eh! Eh! Eh!
- Nada disso seu tarado, e tem este gajo o compromisso que tem!!!
- Diz então e tu Padreco cala-te, deixa o André falar...
- Então é assim, conheço uma vivenda ali para os lados do Restelo...

E ouviu-se um estrondo enorme...

Capítulo 5 - A bomba rebentou

O pó, o sangue, pedaços de corpos a voarem e gritos, muitos gritos. Bondini no meio dos destroços não conseguia distinguir nada direito. Em plena Baixa Pombalina, um atentado? Parecia que algum terrorista não gostava das atitudes subservientes do governo português e como sempre quem pagava era o mesmo, o indefeso eleitor

- Ismael, estás bem?
- Ai, porra para esta merda
- E tu Bondini?
- Estou bem André, deixa-me em paz

e quando o pó assentou, ainda viram uma senhora de vestido ensanguentado, à procura dum braço,

- Alguém viu o meu braço?

libertando-se da vida. Andava por entre os escombros, perdida. E caiu de repente, abatida sem se saber porquê.

De repente, algo agarrou com toda a força Bondini. Sem piedade, sem a mais pequena noção do bem ou do mal. Apenas levado dali. A ultima coisa que se lembrou foi ver o Ismael fugir. Presumindo que quisesse esconder a sua condição de padre. Pareceu-lhe ver alguém com um bastão a persegui-lo. Desfaleceu.

 

Capítulo 6 - A tortura


- Então chamas-te Romão?
- Sim
- Olha para cima filho da puta! Quando falo contigo olhas para mim... porrada neste! - um polícia com ar de boi enfurecido, berrava! Os outros obedeciam
- Meu Deus!
- Aqui estás fodido, o teu deus sou eu! E eu é que sei o que deves dizer por isso não te desvies! Filho da puta, olha para cima!!! Cabrão de merda que te mato já aqui!


 

O corpo doía-lhe, as dores eram absolutamente lancinantes, apenas lhe apetecia morrer, não entendia como era possível aquela reviravolta brutal, à espera de uma noite com gajas boas, de sexo a rodos e acabar tudo assim, numa sala obscura. Parecia que viva num passado obscuro daqueles que tinha lido em livros acerca de mentes psicóticas.

Tinha havido uma insurreição, uma Junta Militar tinha tomado conta do poder, apregoava-se de novo o nome de Salazar nas ruas, a pena de morte tinha sido instaurada, as execuções sumárias uma prioridade do novo Executivo. As fronteiras fechadas e ameaças a todos os estrangeiros presentes. Mas naquele momento só lhe interessava sair dali, faria o que fosse preciso, apenas era preciso adivinhar o que aqueles gajos queriam, eles não diziam e isso fazia-o lembrar a velha Inquisição.

Nos momentos de curta solidão, nu, deitado num chão sujo, ouvia gritos de dor lancinante

- Não, isso não
- Diz-nos nomes cabrão!
- Eu digo... mas parem com isso, por favor
- Parem... que ele vai falar já a seguir, tem três segundos para começar a falar, um, dois...
- André Queirós, Romão Silva e a família deste também- nunca falou tão rápido na sua vida...
- Eu sabia, ficas na solitária uma semana e depois vais sair... pensa bem no que vais ter para me dizer se alguma desta informações for mentira...
- Oh não, protejam-me, sou um homem morto
- Descansa que tenho bons planos para ti minha puta, o teu alimento vão ser as ratazanas que aparecerem pelo ralo do esgoto, tenta sobreviver-lhes - e ria-se, sinistro, aberrante...

e pensava delirar quando ouvia o seu nome, no meio da violência sem sentido, sem que houvesse alguém que a fizesse parar

- Então Romão, ou será Romano, o terrorista?
- O quê?
- Não me chateies merdoso, não mintas, não mintas, já sabemos de tudo
- Não entendo
- E a Dona Josefina... - o fulano que o ia torturando batia com o bastão nas paredes, cada vez com mais força e resolveu dar-lhe no joelho direito - bem me parecia que és o filho dela!
- Não! Não! A minha mamã não... - o choro tornava-se compulsivo, a fúria cada vez maior -
- Sim, gosto dessa raiva - pisando-lhe a mão - vais precisar dela para viver meu filho da puta...

e lá vinham eles para cima dele, pontapés por todo o lado, choques eléctricos nos orgãos genitais, seria possível descrever maior dor? Pensou no que os levava ali, não sabia o que tinha feito, já tinha visto daquilo em filmes e agora estava ali... estava a ser violentado. Apenas lhe falavam na mãe, isso punha-o louco. Porquê? O que havia de tão importante na sua pessoa para o maltratarem daquela maneira? Puro gozo de violência gratuita? Não percebeu durante muito tempo.


 


Capítulo 7 - A ilusão da liberdade

Um dia libertaram Bondini. Ia dentro duma carrinha, sem aviso, sem sequer pararem, deitaram-no para a rua, completamente nu. Era Inverno, daqueles dias bem frios, o corpo definhado, devia ter emagrecido uns 30 quilos, dores indescritíveis, pesadelos sem fim de noite nunca dormidas, talvez se tivessem passado alguns meses, talvez uns dias... dias não, que era Verão quando aquilo tinha acontecido. Meses sim, alguns meses. Não conhecia aquele sítio, era muito estranho. Um olho não o conseguia abrir. Alguns carros passaram e só ouvia as pessoas indignadas por estar nu

- Tapa-te ó tarado
- Vamos chamar a polícia, isto já não há vergonha
- Estás feito tarado, vais ser fuzilado - e riam-se, fugindo de uma sirene que já se ouvia lá ao longe...

mas houve alguém que parou.



Capítulo 8 - Reencontro

- Entra Romão, meu querido

Era a Raquel, a sua mulher, coincidências, ou talvez fizesse parte do plano

- Sabias que eu estava aqui?
- Isto está um horror, um verdadeiro horror!
- Mas sabias que eu estava aqui, só podias saber!
- Sabia, claro que sabia, temos quinze minutos para entrar numa casa.
- Mas o que se passa?
- É a ditadura, do piorio, matam por tudo e por nada, e o povo rejubila!
- Queria eu saber porque é que me fizeram o que fizeram?
- Cala-te amor, deixa-te estar quieto.

ou talvez não, tudo lhe era muito confuso, não sentia a perna direita, o coração batia desgovernado, apenas sonhava com uma cama, com alguns minutos de sono, havia muito tempo que não dormia, que não sabia o que era um a porra de um sono reparador. Será que dali para a frente saberia voltar a viver?

- Romão... meu Deus como te maltrataram, temos que entrar ali na casa da minha amiga
- A Mariana?
- Sim , sim...
- Entrem, entrem depressa, os caças já estão no ar... depressa por Jesus...

Não se lembrou de mais nada, senão de acordar, numa cama de lençóis de flanela, sedado, mas com dores horríveis nas pernas, os braços sem reacção, a boca sem a conseguir mexer. Olhou para o lado e viu Raquel. Há quanto tempo não via a sua mulher, e o desejo não era de sexo, apenas procurava uma forma de conseguir ter motivos para lutar. Depressa os arranjou, as forças vinham sempre de onde menos se esperava.


Capítulo 9 - Raquel

A Raquel lançava sempre um sorriso quando falava na Mariana, era a irmã adoptiva, mais chegada a ela que a própria irmã, com quem sempre tivera uma relação conflituosa, bastava olhar para aquelas duas mulheres, de coração deslumbrante, que se deixavam encantar nos seus silêncios, dizendo mais que muita retórica impingida, muitas das vezes apenas para confundir.

Porém no dia em que rebentou a bomba em Lisboa, Raquel encontrava-se em Mafra, na casa dos pais, onde trabalhava, ali muito perto do Convento, numa agência de viagens, cujo negócio havia montado com um primo com quem sempre tivera grandes afinidades e que havia entrado com o capital necessário para começar uma aventura que ela sentia ser única, para demonstrar a sua capacidade estrondosa de fazer dos negócios mais estranhos, nos sítios mais improváveis uma referência, uma falta de prudência que fazia a diferença, quase sempre pela positiva. Certamente foi a sua postura no negócio, a sua candura implacável que utilizava amiúde para convencer os clientes, que a fez esquivar-se à dura realidade com que se deparávam.

 

Veio-se a descobrir mais tarde outras peripécias que iam construindo um puzzle deveras intrincado, que nunca se imaginou poder ser a realidade, mas era, demonstrada da forma mais assustadora e cruel.

Raquel nascera há vinte e nove anos, quatro anos mais velha  que Bondini. Muito madura, de uma beleza e sensualidade quase demoníacas. Sempre vivera naquele pequeno paraíso, de vento e frio chamado Mafra, passeando a sua triunfante beleza e inteligência pelas terras saloias. Algo de normal naquela terra de cortar a respiração.

 

De amor e de dor, de contemplações passadas, dos réis e rainhas, das caçadas e das idas à Ericeira, que naquele tempo já era uma sombra feia da antiga vila piscatória. É certo que a profunda e desorganizada corrida à construção haviam desfigurado tudo e que a incúria dos governantes estava a dar os seus frutos podres e a demonstrar aos profetas da desgraça a sua infeliz razão. Raquel seguia bem atenta a toda essa constelação de asneiras, capitalizando o que podia funcionar a seu favor.

Cresceu no meio de uma família de algumas posses, tanto o pai como a mãe eram dali perto, do Sobreiro, bem ao lado da famosa Aldeia de José Franco, que ainda hoje atrai tantos turistas apesar do abandono a que começa a estar votada.

Fez a escola toda em Mafra, conhecendo cada catraio que cirandava por aquelas bandas, nunca se moveu para além daquele círculo, andando por entre os mafarricos e os jagozes com um à vontade de quem quer tirar o melhor de cada um para seu exclusivo proveito. Oportunista? Interesseira? O tempo seria bom conselheiro na demonstração cabal de quem ela era.

Foi para a Universidade, tirar engenharia informática, aprendendo todos os truques para penetrar nas mais intrincadas redes informáticas ao ponto de ser referenciada pela Judiciária como uma das mais perigosas hackers do universo europeu. Era de tal forma temida que chegou a ser interrogada algumas vezes, mas nunca houve provas suficientes para a prender, ou mesmo para a fazer mudar o rumo da carreira.

Reza a lenda que o seu professor de Programação na Universidade era um agente disfarçado da PJ e que ela se dispunha a actos de loucura que o punham fora de si. Sexo? Sim, sexo. Valia tudo, o prazer naquela mulher era algo de insaciável.

Conheceu-a na discoteca Sociedade Anónima, numa noite de intenso nevoeiro em que não se via um boi à frente do nariz, tinha ido para os copos com o André. O Ismael nessa noite estava a ultimar os preparativos para a ordenação. Na pista tocava o Blue Monday, coisa arcaica que sempre o deslumbrou, ainda hoje vibra com aqueles sons, ainda para mais quando se lembra que foi assim que conheceu a mulher da sua vida.

O primeiro contacto foi apenas um mero roçar, viraram o corpo e de braços bem no alto, ela com a sua figura esguia, de peitos arrebitados, linda, linda de morrer, morena e de olhos verdes, excitou-o logo na altura...

- Quero fazer amor contigo
- Não perdes tempo, vamos

... tão simples como isto, tinha visto alguns filmes porno que não eram tão directos, e foram até a uma mesa, naquela noite fria, de nevoeiro brutalmente intenso. Ela sentou-se em cima dele, levantando a saia, roçando o seu sexo quente, meu Deus, tão ardente e prepotente na sua ânsia de o comer, logo ali, com tanta gente e sem ninguém a ligar nada, tal o frenesim que o Blue Monday provocava naquela malta nova, em transe. Depressa lhe fez a vontade penetrando-a com vigor. Enquanto isso as duas bocas uniam-se num salivar guloso sem a mais pequena preocupação de se sujarem ou de beliscarem a reputação.

Olhou para o lado e viu André. O gajo piscou-lhe o olho e levantou-se, já tinha uma loira debaixo de olho e nessa noite nem sequer chegou a sair com ele, estava em absoluto êxtase. Foi directo para Mafra com Raquel. Deitaram-se sem nunca se largarem. Sem dormir, numa noite de sexo intenso, escaldante, brutal, como nunca mais tiveram.

Nessa noite descobriram que nada mais os separaria, nas abençoadas fraquezas da carne, que tudo obscureciam.

Casaram dois meses depois, na loucura de uma dança tribal qualquer numa discoteca da moda de Lisboa, que desapareceu no fatídico dia 24 de Abril.

Nesse dia Raquel estava em Belém, a ultimar um negócio com dois casais amigos que queriam marcar uma viagem para Cuba, tinha feito a viagem de automóvel de Mafra até aos limites do Rio Tejo, donde já se avistava a Ponte 25 de Abril.

Esta era uma parte da Raquel, a sua atitude perante a vida era sempre de insistir, de avançar com os projectos por mais estranhos e bizarros que parecessem. Mais pela crença que pelas virtudes, mas ela encontrava sempre as virtudes necessárias para continuar…

- Que o homem não separe o que Deus uniu… - e um beijo na boca selou um casamento perfeito…


Capítulo 10 - Uma luz


O dia 24 de Abril ficou marcado na história, na reviravolta dos nossos destinos de devassidão e ultraje aos símbolos da normalidade. A novíssima polícia nascida da pequena guerra que destruiu toda a Lisboa e impôs um novo regime encarregou-se de alterar tudo.

André, foi brutalmente espancado junto ao Éden-Teatro, por alguém que dizia ser ele um comunista que roubava o pão dos pobres. As provas baseavam-se nos ditos. Houve mesmo quem lhe tentasse atear fogo, dizendo ser o gel obra do demónio, e todos seguiam cegos na sua razão ignóbil.

- Apanhem que é ladrão! Cortem-lhe a mão, ele é ladrão! Assassino comunista!
- Chulo da sociedade, mereces a morte, tens o demónio no cabelo...

E cuspiam-lhe para cima, e depois fugiam. Ouviam-se tiros.

 

De repente André deixava de ter gente a bater nele, passava a ter apenas um amontoado de mortos em cima dele. Nessa confusão conseguiu escapar aos exterminadores. A polícia da pureza e da beatitude.

Sem se poder mexer, começou a chorar, em absoluto silêncio, apenas esperando por algum momento em que acalmasse a fúria destruidora dos novos senhores de Lisboa. Que raio de pesadelo!

Mas a alma gritava, e sentiu-se tomado por uma sensação muito estranha, algo que nunca havia sentido antes, e as dores passaram, a paz sobre veio no meio da guerra suja que se havia instalado.

Sem saber como André viu-se num deserto, em pé, como se tivesse viajado no tempo e estivesse noutra vida. Viu um grupo de homens com mocas na mão, outros tinham pedras enormes e no centro um homem de corpo desprotegido rezava e sem nada o fazer prever olhou para André. Os homens na fúria desregrada não se aperceberam, André veio a descobrir que era apenas um invisível. Mas o homem, desprotegido que estava no meio da multidão enlouquecida, pronta a despejar as mocas e as pedras para cima dele, estava sereno. Passou essa serenidade a André. Afinal aquela era uma situação limite, de profunda radicalidade em que a vida se esvairia em sofrimento atroz. A vida, porque a alma daquele homem é eterna e esse olhar trespassou André, para sempre.

Uma voz entrou-lhe pelos ouvidos, de mansinho...

«Senhor Jesus, Tu escolheste S. Judas entre os teus Apóstolos e fizeste dele, para o nosso tempo, o Apóstolo das causas desesperadas. Agradeço-Te por todos os benefícios que me concedeste por sua intercessão e peço-Te que me concedas a Tua graça nesta vida para que possa participar um dia, na Tua glória, na alegria eterna. Amen.»

André nunca acreditou em Deus, talvez pelo exemplo depravado de Ismael, ou por sentir que os padres eram o exemplo puro e duro da devassidão com as suas riquezas diabólicas, enquanto o mundo morria de guerras e à fome.

André sentiu-se abraçado e a força recebida de São Judas Tadeu fê-lo acreditar que o desespero daquele momento seria ultrapassado!

Foi de tal forma intensa esta revelação que se tornou um devoto fanático para lá de todos os limites.

Três dias depois, André acordou, num sitio escuro, pleno de sujidade e rodeado de desencanto. À sua frente alguém rezava

- Mãe, o senhor acordou, o senhor acordou! - estava uma menina de cerca de seis anos, com o espanto de uma vida que renascia

- Eu... onde...
- Tenha calma senhor! Felicidade, traz um pano molhado, o homem ainda arde em febre
- Salvem-no daqueles loucos! Salvem-no por Jesus!
- Há três dias que delira meu querido! Fique sereno... aqui apenas há amor!

Aquele olhar dócil, fazia-o lembrar uma prima por quem se havia perdido de amores em adolescente. E que havia enlouquecido por um casamento que sempre se regera pelo interesse... por instantes, sentiu um pudor intenso, era como se tivesse atracção por uma irmã.

- Durma meu querido, o comprimido que lhe dei vai fazê-lo sair dessa prisão.

- Onde estou? - e adormeceu...




Capítulo 11 - Ismael o traidor

No dia 24 de Abril, o dia de todos os retrocessos, após terem posto Bondini a dormir, Ismael parou de correr

- Esse merdas já está a dormir?

e tomou o comando das operações. Com a sua púdica figura, falsificada por motivos reles de poder, pode, por fim, mostrar-se à sociedade como o verdadeiro salvador, um verdadeiro camaleão sem limites na ansia pelo poder.

- Senhores telespectadores - baaaaaannnng! - o apresentador caiu redondo no chão

- Boa noite! - Ismael sentou-se no lugar do apresentador do Jornal da Noite - começou uma nova era! Lisboa foi tomada e em breve todos os devassos vão ser expulsos deste país. Acabou-se a falsa liberdade!

Ainda com a pistola a fumegar, viu-se um rasto de sangue, o apresentador a ser arrastado pelos capangas de Ismael.

Aguardava-se com ansiedade para saber quem era aquele homem sinistro... que se escondeu na pele de cordeiro durante tanto tempo aos olhos dos que o amavam, e os amigos amavam-no como a um irmão.

- Durante alguns anos pude recolher os dados suficientes que me permitem escolher quem merece ou não viver. Assim sendo vai-se reviver a noite dos facas longas.

Do outro lado do ecrã, quem o ia reconhecendo abria a boca de espanto...

- Mas... mas... ele é judeu! Como é possível.. facas longas?

A sua mãe cega e surda, passava os dias a chorar convicta da homossexualidade do filho, só assim se entendia que ele tivesse ido para padre! Nem imaginava o que pudesse estar a acontecer. O pai, esse estava no Túnel do Rossio, dois dias após a reabertura ao público, morreu após vários dias debaixo dos destroços. Nunca chegou a ser reclamado o seu corpo, tendo sido enterrado como se fosse um sem abrigo, nem direito a um enterro digno ele teve.

- Todavia, meu caros concidadãos... quem renegar o seu passado e acusar os traidores, facilitando o nosso trabalho, limpando a miséria que grassa neste país! Terá o seu futuro garantido! - de seguida entoou uma música tribal, plena de motivos fascizantes e nasceu o novo hino de Portugal.

Ismael na ansia de poder total, tinha-se introduzido nos meandros da Igreja, ganhando muita influência e o silêncio de alguns membros do clero menos incautos, apesar de extremamente poderosos na hierarquia que chegava ao Vaticano. Era uma espécie de assassino a soldo com carta branca para o extermínio de tudo o que se movesse contra o poder que se pretendia instituir.

- Senhor Ministro, Lisboa é nossa, tenho conhecimento que Madrid também foi tomada pelos nossos comandos e o povo está absolutamente dominado.

- Perfeito Ismael.. é pena esse teu sangue de porco judeu - e pegou numa arma branca - preparando-se para a introduzir no peito de Ismael

Este enfurecia-se quando alguém o chamava de porco judeu e o Ministro pensava isso, porque se julgava de alguma raça superior, mas Ismael não era inferior a ele. Bem longe disso.

Inesperadamente a luz apagou-se. Ouviram-se alguns gritos. Quando a luz voltou, o Ministro jazia morto e a sua cabeça havia desaparecido, assim como Ismael.

 

 

Capítulo 12 - A reviravolta

Enquanto André, imbuído pela ideia de por em prática as preces de São Judas Tadeu, ia purificando o mundo como um justiceiro negro, sem nunca deixar rasto das suas acções. Alguém voltava a aparecer no mundo.

Ismael, que se havia escondido na residência secreta do Ministro, instalara-se no escritório deste onde arquitectava um plano com outros dois comandos quando lhe pareceu ver André nas imediações, através das câmaras que vigiavam cada recanto daquela casa.

Algo de muito estranho se passava porque nunca o vira com aquelas feições duras, quase inexpressivas, e pior ficou quando o viu matar um por um os seus fieis que haviam conspirado na morte do Ministro. A cada um que matava mais depressa se aproximava dele.

- Que é que é isto? O André? Devo estar doido...

Entretanto fora do escritório seguia a sinistra personagem, em tudo idêntica a André, e sabia muito bem onde queria chegar, até olhar para uma das câmaras e falar:

- Ismael...

Este ficou petrificado um mero segundo, algo raro nele, sempre frio e seguro de si próprio.

- Sou eu! O André! Preciso falar contigo!

Agora tinha a certeza que algo estava errado e nem sequer respondeu, limitando-se a activar os engenhos explosivos que se encontravam num raio de 100 metros do escritório. Viu a personagem avançar, rindo-se, activou a primeira bomba e nada...

- É perfeitamente inútil meu caro... deixa-te de me tentares impedir, sei tudo acerca desta casa...

Ismael sentiu que talvez fosse verdade e ordenou a fuga do escritório. Mas antes assassinou os leais companheiros, não podia haver qualquer hipótese de alguém lhe sabotar a chegada ao poder e empurrando uma pequena alavanca, abriu uma porta que ra mais uma passagem secreta. Mas teve uma surpresa inesperada...

- E agora...
- Que caraças tu não és o André!
- Eu avisei que sabia tudo sobre esta casa
- Mas...
- De joelhos no chão. JÁ!

Ismael tentou pensar rápido numa forma de escapar, mas tinha ali um adversário à altura... mesmo assim falou

- Podes ao menos dizer-me quem és?
- Não se vê pela cara?
- Mas... ele nunca me falou que tinha irmãos...
- Se nem ele sabe, agora anda por aí feito parvo a pregar a boa nova
- Isso não é dele - Ismael sorriu
- Não te rias cabrão... agora algema-te ao varão... já sabes que se fizeres alguma coisa, a porta fecha-se automaticamente e ficas cortado ao meio. Ahahahahah!
- Mas...
- Vou-te explicar... tenho planos para ti, mas preciso tratar de uns assuntos primeiro. Alguém muito mais acima de qualquer um de nós espera por um certo segredo escondido nesta casa...
- Espera lá... já percebi que conheces isto bem, mas há um sitio que só eu conheço... bem te podes desunhar que nunca vais encontrar o que queres sem mim...
- Bluff... pensas que não sei que estás a fazer bluff?
- Experimenta-me... também ando a perseguir esse documento tão importante para alguém muito acima de nós dois. E descobri onde ele está... apenas tens que me levar contigo.

Após alguns instantes em que o irmão de André olhou fixo para Ismael, chamou alguém por um intercomunicador e apareceram dois brutamontes saídos de algum combate de wrestling.

- Garanto-te que eles não são apenas músculo, por isso não tentes persuadi-los... isto não é a Paróquia...

 

Capítulo 13

Raquel era uma secreta devota de São Judas Tadeu, muito embora praticasse todas as suas acções em estado de êxtase, sem a mais pequena consciência dos seus actos.

Em segredo total criara um exército de seres biónicos de características similares aos vigilantes das discotecas nocturnas que antes do dia da destruição pululavam pelas vielas de Lisboa.

Tal ideia surgira-lhe numa visita aos Estados Unidos, no seu jacto ultra-privado, quando vira o seu ídolo Batista a esmagar a cabeça a um monstro com mais trinta centimetros de largura que ele. O futuro não estava nos filmes, apenas numa simples fórmula que ela tinha vindo a desenvolver desde a infância e um simples gesto de Batista dera-lhe a equação final daquele projecto que a tornaria a mulher mais poderosa do planeta.

A ideia dos Estados Unidos era evidente, pelos evidentes ganhos que a sua invenção poderia ter, criando uma raça de guerreiros pronta a destruir apenas com uma simples ordem. Todavia uma outra ideia a assaltava, destruir os próprios dogmas americanos e as suas poderosas indústrias de armamento que devastavam o mundo. Tudo seria feito no mais absoluto segredo, não existindo qualquer tipo de documentação que pudesse escapar do seu controlo. Mas para isso valia-se da sua primeira grande invenção.

Raquel era uma máquina infernal a pôr em prática a mudança radical do mundo, utilizando de forma abrupta as preces de São Judas Tadeu, em nome de um mundo diferente.

A Agência de Viagens era apenas o perfeito embuste para poder seguir o seu trabalho.


Capítulo 14

(continua dentro de momentos)
Manuel Marques
Enviado por Manuel Marques em 04/11/2007
Reeditado em 19/04/2010
Código do texto: T723159

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Sobre o autor
Manuel Marques
Espanha, 45 anos
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Manuel Marques