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Tudo o que move é sagrado

* Publicado na coletânea "Contos Fantásticos" da CBJE em Dezembro/2006.

A farra tinha sido maravilhosa. Após uma festa de 15 anos na sexta-feira, passei o sábado com os amigos na praia e à noite tomamos todas na boate. O domingo foi mais tranqüilo, apenas uma cervejinha no final da tarde no shopping. Acordei cedo na segunda- feira para ir para a faculdade. Poderia até faltar, mas como era o primeiro dia daquele semestre e eu já havia sido reprovado na disciplina uma vez, fiz o esforço de me levantar e, embora atrasado, me deslocar para assistir à aula. Ao chegar me dirigi de imediato a lanchonete para tomar uma água de côco e comer uma torrada para diminuir a ressaca que era terrível. A cabeça doía muito e ainda sentia o gosto da bebida em minha boca. O tempo passou rápido e ouvi o sinal do intervalo. Os novos colegas da turma saíam conversando, eles já se conheciam do semestre passado. Eu era estranho naquela turma, pois, como havia sido reprovado, os meus amigos de turma estava no semestre seguinte. Ainda meio sonolento da noite mal dormida, coloquei uma pastilha de hortelã na boca e tentei me levantar para me apresentar ao novo grupo. Não consegui. Estava com ânsia de vômito outra vez. Decidi ir embora. Uma aula a mais outra a menos não teria importância. Me dirigi até o carro e após abrir a porta, desabei no banco. Sabia a solução. Precisava dormir imediatamente de forma profunda. Fiquei por alguns minutos observando as folhas das árvores que se moviam pela ação do vento; os pássaros cantavam melodias que não me agrediam o ouvido, mesmo com a forte cefaléia. Até mesmo um formigueiro ao pé da mangueira, me mostrou um exemplo de força e organização, com as formigas carregando alimentos para estocar.  Alguma coisa me pediu para voltar até a lanchonete. Estava muito mal. Só mesmo alguma força sobrenatural me demoveria da vontade de ir para casa. Voltei. Ao chegar ao pátio, vi algo que se movia de forma harmônica. Talvez a oitava maravilha da natureza; ou poderia ser o décimo terceiro trabalho de Hércules. Não sei ao certo. O que posso afirmar é que mexeu com todo o meu corpo. O coração começou a bater descompassado, fazendo com que todo o meu organismo se manifestasse em resposta àquela explosão de euforia. Os olhos brilhavam como estrelas numa noite sem lua. Decidi me aproximar e me declarar apaixonadamente. Era aquela a mulher da minha vida. Respirei fundo e caminhei em sua direção. Estava tão próximo que já podia ouvir pela primeira vez o sublime acorde de sua voz. Ela conversava sorridente com algumas amigas de sala. De repente, algo súbito me impede de caminhar, uma tontura me toma conta do corpo e uma ânsia de vômito aparece de surpresa. Tentei controlar a salivação e não consegui. Senti que iria vomitar e procurei um lugar escondido para fazê-lo, já que o banheiro estava distante. Decidi sentar numa mesa próxima à dela e, da forma mais discreta possível, aliviar aquela angústia. Não era possível. A sudorese era profusa. Os movimentos peristálticos aumentaram e na primeira regurgitada já trouxe a torrada junto com a água de coco ingeridas na cantina. Depois da primeira o mundo caiu. O mau cheiro tomou conta do espaço e o barulho da vomitada chamou a atenção de todos. Ouvi quando algumas vozes pronunciaram: - que nojo!  - mal educado, vem fazer isso perto da gente.  – vamos sair daqui.  Junto com as vozes que se distanciavam, o toque de retorno às aulas diminuía o barulho em minha volta. Em poucos minutos tudo estava em silêncio, menos o meu coração. Ele chorava baixinho. Sabia que havia perdido tudo. Aquela menina linda que sorria conversando com as amigas, pela qual eu havia me apaixonado, havia sumido pra nunca mais voltar. Afinal, o que diria uma princesa a um plebeu que vomita aos seus pés logo no primeiro encontro? A ânsia diminuía e eu voltava lentamente ao normal. Comecei a definir outra vez o canto dos pássaros. Ouvi novamente as folhas dançarem se roçando umas nas outras. Enxerguei o movimento das formigas estocando comida no formigueiro. Tudo aquilo se movia em minha volta, menos eu.  Eu estava sentado, cabisbaixo, envergonhado e desiludido. Não queria estar ali, mas estava. Fechei os olhos por alguns segundos para chorar e ouvi outra vez uma melodia que eu achava que não ouviria jamais. Uma mão suave deslizou os dedos em meus cabelos e me ofereceu um lenço de papel molhado para que eu me limpasse. – você está bem, rapaz? Eu trouxe estes lencinhos para você se limpar. Levantei a cabeça e olhei para a menina que eu achei que não olharia jamais. Era outra vez a mulher da minha vida. Olhei para ela e lhe disse: Eu sempre estarei bem ao seu lado, porque o que existe dentro de você é tão sagrado como o cantar dos pássaros, a pureza das árvores e o trabalho das formigas. Daquele dia em diante, não a perdi mais.
Henrique Gondim
Enviado por Henrique Gondim em 10/11/2007
Código do texto: T731017
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Henrique Gondim
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 52 anos
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