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Salto Para a Liberdade


Álvaro abre os braços na borda do precipício.

A multidão horrorizada afasta-se do possível suicida.

O vento bate no rosto do homem, seus lábios tremem.

Não de medo, mas pela antecipação da queda.

Finalmente a liberdade tão sonhada, tão procurada.

Os seguranças do parque chegam pelos lados cautelosamente.

Álvaro os vê, mas não se importa.

Nada o impedirá.

Sua vida fora um fracasso total, teve vários casamentos com mulheres fúteis, e seus filhos eram todos pretensiosos e egoístas.

Seu único princípio de sorte foi quando começou a vender estátuas, mas logo até isso teve fim.

Foi preso junto com seu sócio, este sim culpado pelo tráfico.

Doze longos anos em uma penitenciária lhe deixaram profundas cicatrizes no corpo e alma.

Dor e preconceito à sua volta a sociedade.

Trabalhou duro, evitando voltar para a marginalidade.

Ana parecia ser a recompensa pelos longos anos de sofrimento.

Ela o amava sinceramente.

E aos poucos Álvaro começou a ama - lá também.

Quando os dois resolveram se casar o pai de Ana, furioso, os amaldiçoou:

- Pra minha casa você não volta nem morta, no que me diz respeito, minha filha morreu hoje!

Três meses depois do casamento, Ana morreu triturada por um caminhão.

A dor tomou conta de Álvaro.

Ele só queria morrer.

Seus sobrinhos tentavam animá-lo.

O levavam ao bingo, passeavam pelas praças...

Álvaro não era velho, mas pare ele era o fim da linha.

Naquele sábado ensolarado foram a Foz do Iguaçu.

Seus sobrinhos correm para ver a queda d´agua e sua irmã Cristina leva seu caçula para ver o resultado da Mega-Sena.

Cristina havia comprado um cartão da Sena e por insistência dela Álvaro também comprou.

Chorando e rindo ao mesmo tempo, na borda do precipício, o homem solta o corpo no espaço.

Um segurança ainda tenta segurá-lo, mas a camisa barata rasga.

Álvaro tem uma sensação estranha. Sente como se flutuasse no ar.

Poucos segundos depois bate violentamente contra as rochas do solo.

A dor é tão intensa, tão intensa...

Uma luz explode em seu rosto e Álvaro sente-se meio zonzo.

Diversos vultos andam na luz que o ofusca. Um deles se aproxima mais e mais.

- Ana! – grita Álvaro.

Ele estende os braços como um bebê indefeso. O rosto de ambos cobertos de lágrimas.

- Calma! Tudo ficará bem agora. – avisa o espírito de Luz.

O povo no alto do precipício fala ao mesmo tempo sobre o maluco que saltou para a morte.

A irmã de Álvaro, Cristina vêm correndo rapidamente. A felicidade dela não tem tamanho.

- Álvaro! Álvaro! Você ganhou Álvaro! São trinta e cinco milhões! – ela grita.

Algumas pessoas olham para ela, mas a maioria está entretida pelo macabro espetáculo do homem despedaçado no fundo do precipício.

- ÁLVARO?Álvaro? – chama Cristina baixinho.

O corpo só é resgatado três dias depois.

O legista afirma que a morte foi instantânea.

Todos os ossos do corpo se partiram com a queda.

Um jornal sensacionalista publicou uma foto do cadáver.

O rosto sangrento e desfigurado ainda sorridente seguido da seguinte manchete:

“Pobre coitado se mata e perde prêmio MILIONÁRIO! Do que ele está rindo?”.

Andando pelos campos celestiais de mãos dadas com Ana, Álvaro está feliz.

Fim.
Saturno o Vampiro
Enviado por Saturno o Vampiro em 14/11/2007
Código do texto: T737598

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Sobre o autor
Saturno o Vampiro
São Paulo - São Paulo - Brasil, 467 anos
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Saturno o Vampiro