Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

UMA OUTRA MESMA VISÃO

UMA OUTRA MESMA VISÃO

Procurando algo para comer... Essa é a rotina de todos os dias. Nasci pra isso.
E caí, confesso que minhas costas doeram um pouco, mas eu já me acostumara, esse não era o primeiro tombo. O fato é que não foi essa a dor que me doeu mais. Há dores bem maiores, sim senhor!
A casa velha era fria e úmida, em época de chuvas os moradores, ao caminhar pelos cômodos, desviavam das panelas e baldes espalhados pelo chão. A alegria há muito tempo esquecera aquele ambiente. Fora brincar em outro terreiro. As crianças sempre choramingavam fome, bocejavam frio e dormiam doenças. Os pais envelheciam três anos a cada três minutos passados, era culpa da tristeza sofrida na pele.
E olhe que eu já me acostumara com aquele ar melancólico, desnutrido, desidratado. Já não me fazia mais diferença, até que eu caí. Maldito foi aquele momento. Caí no corredor entre a sala e a cozinha e pude ver a cena de quadro de horrores. Impressionante o que o homem é capaz de produzir...
Na sala, os cinco filhos dormiam amontoados para se esquentarem, faltavam-lhes agasalhos, na cozinha a mãe chorava ajoelhada entre lágrimas e preces pedindo aos seus anjos da guarda um milagre divino. Era fato, do chão tornei a sofrer novamente.
O homem tinha uma arma usada em seus outros tempos de favela, fora guerreiro do pó de onde viemos e para onde voltaremos, e há alguns dias o jovem pai de família costumava observá-la todas as manhãs antes de sair, em seguida, chorava ao ver seus filhos como cães chorosos lutando por um espaço no calor do corpo do outro, depois, desviava-se dos corpinhos estendidos ao chão e seguia rumo à possibilidade de um emprego. Quem sabe de um pouco de pão.
Eu não deveria ter caído naquele dia, não naquele dia, fiquei mais perto de tudo, de todos, perto, irremediavelmente perto do humano.
Eram quatro horas da tarde de um dia chuvoso, frio, muito frio. Enquanto as crianças dormiam, um fio d’água escorreu de um canto da parede, cruzou a sala passou bem ao meu lado e atravessou a cozinha.
Eis que na violência do estrondo a porta da sala se abre contra a parede, os choros tornam-se inevitáveis, o susto fora maior. A esposa larga os anjos e as preces a sós na cozinha, quase tropeça em mim e segue em defesa dos filhos; trata-se de instinto materno é assim com qualquer animal.
Na porta da sala um homem sujo, molhado, sem carisma, sem caráter, sem auto-estima, sem alma, sem coração e sem fome.
Eu não deveria ter caído, não naquele dia.
Eu ouvi os estouros. A mulher caiu. O garoto mais velho, nove anos, tentou arrastar um dos irmãos, outros estouros e caíram. A menininha, cinco anos, abraçou os gêmeos, dois anos, e eu a ouvi implorar: “Por favor, tio, não faz dodói não!”
Os tiros, sons rasgando o tempo e as carnes.
Ficaram ali abraçadinhos os últimos três.
Eu esperneava consecutivamente. Fiquei tonta. Tive câimbras. Por que caí naquele dia? Por que justamente naquele dia? Eu não pude acreditar, o ar começava a me faltar, minha visão algumas vezes embaçava, mas eu as via lá em cima a olhar-me esperavam meu fim para se alimentar de mim.
Eu, ali, aguardava minha morte crendo que não veria na vida nada mais tão ruim, então, o engano. O pai abre a porta e congela-se em estado de afasia, nenhum movimento seu é de um ser vivo, sua mente não raciocina os fatos, calmamente, o jovem pai de trinta e nove anos de idade, ajoelhado beija uma por uma a testa de seus filhos, toca levemente o rosto de sua esposa, e assim como o fio d’água escorreu pela parede um fio de lágrima escorreu na face do pai e a sua arma lhe servira bem como um filho serve para uma mãe ou uma mãe para um filho.
Eu quase não respirava, mas um fio de lágrima também teve força de escorrer dos meus olhos. Sensação humana!?
Após algumas horas, eu nem me mexia mais, quase tudo em mim estava morto, mas minha consciência teimava em viver, e essa foi a pior parte.
Nove homens fortemente armados com roupas escuras adentraram a casa, vasculharam tudo, porém, nada encontraram. Como sempre, era tarde demais. Em voz baixa, ouvi dois deles que conversavam. Diriam que fora acerto de contas e que e o indivíduo devia para traficantes. “Está entendido? Você me entendeu?”
Eu senti nojo, dentre todos os sentimentos foi nojo o mais forte, sabe quando se vê algo asqueroso, repugnante e sobe-se na cadeira para que aquele algo não encoste em você? foi o que senti.
E depois nós baratas é quem causamos esse tipo de reação.
Clebber Bianchi
Enviado por Clebber Bianchi em 21/11/2007
Código do texto: T745952
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Clebber Bianchi
Taubaté - São Paulo - Brasil
31 textos (725 leituras)
1 e-livros (16 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 14/12/17 01:21)
Clebber Bianchi