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Livro sem nome - Capítulo 2

Na ida à escola fiquei pensando no que iria acontecer com aquele garoto Luis: “Não sei não, senhor”. Como alguém pode não saber a sua origem? Será que ele sempre morou na rua? Ou aquilo é algum tipo golpe entre ele e o outro garoto? Se for, não sei, mas tinha certeza que teria que saber o que estava acontecendo, eu não sei o porquê, mas intuitivamente sentia uma afinidade com aquela história que ainda não me foi contada. Sabia que eu devia fazer algo.
Minha capacidade de questionar é muito grande, não é a toa que me tornei professor, na minha infância e adolescência sempre quis saber de cada detalhe que meus professores não me contavam ao dar as aulas, minha marca sempre foi o sempre, quando meus professores ensinavam que dois mais dois era quatro eu perguntava: “sempre?”; acho que minha desconfiança começou daí, pois ao entrar na faculdade descobri que isso e vários outros questionamentos que eu fiz nos meus tempos de estudante não eram bem assim como eles me diziam... Em outro sistema esta soma pode resultar o número cinco. Como sempre, existe um detalhe que eu deixo escapar, como um número em uma operação matemática.
E deste mesmo modo, desconfiando de meus professores, acabei desconfiando daqueles garotos que na semana seguinte, sempre que eu passava por aquele mesmo local, me olhavam de uma maneira meio desconfiada, ou poderia dizer, curiosa? Bom, não sei o que poderia ser, mas sempre espero todas as possibilidades possíveis para qualquer assunto que eu não conheça completamente, mesmo que este assunto seja até uma pessoa.
Passaram-se umas semanas e fiquei sabendo que eles formavam um grupo de quatro garotos: Luis, João, Daniel e Régis, os três últimos já eram conhecidos por mim ao passar por aquela rua estranha, sempre em baixo do mesmo alpendre, a pedir esmolas.
Sempre achei revoltante o fato de aquelas crianças não poder ir a uma escola por não possuir os documentos necessários para se fazer a inscrição. Até propus uma campanha de alfabetização aos responsáveis pelo bairro, mas como estes sempre estão no poder para injetar o dinheiro público em ações que os beneficie, voltei do meu discurso já desiludido, imaginando a quem pedir patrocínio, ou se alguém ao menos se disporia a me ajudar.
Se, se, se... Se esta pequena palavrinha não tivesse um impacto tão grande sobre a minha vida eu não estaria aqui vivendo uma grande interrogação. Por que eu quem achou aquele jovem? Por que eu não fiz nada para ajudá-lo? Por que mesmo eu estava tão apressado para chegar cedo ao trabalho? O que aconteceria se eu não o tivesse abandonado?
Todas estas indagações e lembranças me deixaram cansado, não queria outra coisa a não ser uma boa noite de sono, mas mesmo assim eu não quero sonhar.
Thatha Vieira
Enviado por Thatha Vieira em 24/11/2007
Reeditado em 08/01/2008
Código do texto: T750462

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Sobre a autora
Thatha Vieira
Fortaleza - Ceará - Brasil, 29 anos
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Thatha Vieira