Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Setecentos e trinta dias

 
     Ainda primavera. Vento frio vindo do sul.
     Fazer a caminhada pela orla atlântica é um compromisso. Uma oportunidade para pensar. Andar um pouco só. Conversar com o próprio coração; com o outro 'eu'. Fazer os diálogos  (ou monólogos?) sempre produtivos em busca das respostas procuradas, ainda que nunca encontradas. Fascinar-se com esse jogo de espelhos, onde as confissões internas são maceradas... A solidão faz bem. Tantas vezes ela é o próprio aconchego.
   
      A agenda lotada a deixara no limite. Bom dar uma arejada. Sair... algum lugar sem ninguém, para não precisar parar e ter de conversar qualquer coisa vazia de significado ou manter  'papos epiléticos'.
     
     Olhar aquele 'marzão' totalmente entregue, uma dádiva!
     Maravilha! Sensação de liberdade! Já tivera vontade de ali entrar  e ir até onde desse... que aconteceria?...Não, jamais quis preocupar ou incomodar alguém.
     
     Saiu de pés descalços.
     No relógio, 16:10. Sol alto. Horário de verão.
     Pela praia, pouca gente. Alguns carros passando lá ao longe, fugindo da areia que muitas vezes prende os pneus.
     Seguiu para o sul.
     Gaivotas e suas acrobacias; coreografias perfeitas. Únicas companheiras. Conchas aos montes. Alguns siris e peixes mortos. Também mariscos já aparecendo.  Aqui, acolá,  mães-d'água.
     Mar maravilhoso! Que som harmonioso! Céu sem fronteiras, azul intenso com filetes dourados contornando algumas nuvens... Vento inquieto e todo aquele deserto de areia pelo lado oeste...(Como não acreditar em algum ser superior a nós, minúsculos seres no universo?)
 
      O pensamento rodopiando à solta. Quantas coisas a passarem pela mente em frações de segundos!... Coisa mais misteriosa!... E ninguém sabe de nada, a não ser o próprio pensante. Segredo mais intrincado!
     
     Nem se deu conta. Já tinha ido longe. Começou a sentir frio. De novo olhou a hora - 18:42. Dia 27. Fez meia-volta. Uma rajada forte de vento quase lhe arranca o chapéu. Segura-o com força para não perder o presente que lhe trouxeram da Europa.
     Ah! Europa! Como gostaria de conhecê-la!... Perdera  a melhor oportunidade quando ainda universitária: o amor a fez mudar de idéia. Preferiu casar a seguir os estudos no Velho Continente. O cônsul em pessoa lhe ofereceu a bolsa: Literatura. O curso, em Coimbra.
(Ah! Literatura!... razão de tantas e completas mudanças... e como!)
     
     27 ! ! !
     Por Deus! Exatamente setecentos e trinta dias... e tudo por causa da 'literatura'!
     
     Estranhos os caminhos da vida! Quem os pode prever?
         
     Intensa aquela  paixão...súbita paixão...
     Ainda não tinha conseguido entender nada...menos ainda esquecer... Continuava se perguntando.
       
     730 dias...
     O trem viajando pelos mesmos trilhos.
     Cada qual em seu vagão...
     
     Tinha de ser... O destino assim escrevera.
     
     
lilu
Enviado por lilu em 28/11/2007
Reeditado em 13/11/2010
Código do texto: T755765
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
lilu
Pelotas - Rio Grande do Sul - Brasil
889 textos (372168 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 11/12/17 02:03)
lilu