UM SONHO CHAMADO CARNAVAL

Era sozinho no mundo, pelo menos nesse mundo de Deus chamado São Paulo. Não tinha parentes, não tinha ninguém a quem pudesse estar ligado pelos laços de sangue. Sua família ficara no interior do Nordeste juntamente com seu pai, esse, certamente só o pó, já que morrera há muito tempo. Quase não lembrava, era tão menino e, não tinha uma fotografia que pudesse olhar e buscar algum traço físico que o ligasse a Seu João (era esse o nome do pai). O tempo havia se encarregado de apagá-lo da sua lembrança; não apagara o carinho, pois mesmo sendo uma pessoa sem estudo, o velho tinha muito cuidado com o único filho e com a mulher. Dizia: _ esse menino ainda vai ser alguém na vida! E o levava aonde ia tratando de apresentá-lo como se fosse a pessoa mais importante do mundo. E era, pelo menos pra ele. Mal completara 9 anos, seu João se fora. José Antonio quase não acreditou quando, fatídica, chegou a notícia, naquele final de tarde. Maldita cobra venenosa, maldito lugar sem médico e sem recursos para curá-lo. Cresceu sem o apoio daquele que mais amava. Sua mãe durou um pouco mais. Mulher simples, quase analfabeta, sempre trabalhou nas casas de família lavando roupa para sustentar a ambos. Lembrava que pelos idos de 60 tinham tomado o rumo da capital, não a capital do estado, mas a cidade grande, o sonho do nordestino , dele, da mãe e de tantos outros querendo melhorar a vida. Não era nenhum retirante, mas tinha conhecido o pau-de-arara, o calor, o sacolejo do carro nas estradas, a bóia-fria e as paradas nas lanchonetes de beira de estrada. Foram dias e noites a viajar na carroceria do caminhão aos solavancos, muitos trechos não tinham asfalto, a terra vermelha empoeirando a garganta. Comeu broa, carne seca e dormiu em pousadas apertadas ou sob a lona já gasta. Não de todo ruim, viu estrelas na madrugada, iluminou-se com frechas que filtravam a luz do luar. Os adultos, alguns solteiros outros acompanhados dos seus rebentos rumo a uma nova vida na grande cidade de São Paulo. Da cidade grande Zezinho, apelido carinhoso dado pelo pai, não conhecida nada. Só de ouvir falar. Ouvia as histórias contadas por seu José da mercearia, cujo filho já morava lá há mais de dez anos. Ouvia e se encantava com as cartas lidas na calçada. Como era bela a descrição dos grandes letreiros , da gente bonita, as avenidas, os carros, o bom emprego, o saláario no fim do mês. As roupas novinhas que ele mandava. Até uma vitrola com aqueles discos enormes, presente de natal, exibido com orgulho. Ansiosa, a comunidade aguardava a sua vinda nas próximas férias para partilhar as novidades com os amigos. De tanto que ouvia as cartas, lidas pela única professora do lugar, Zezinho julgava saber tudo sobre aquele lugar. Gostava de tudo, da vinte e cinco de março, do bairro da Liberdade, da boêmia Rua São João. Como era bonita a cidade... as cartas não mentiam. Incansável, a mestra Tereza lia repetia, as cartas se tornaram coletivas, tantos a ouviam. Zezinho cresceu na espera... das cartas, das viagens, da mudança, maturou antes do tempo, entre adultos, sonhando com eles, trabalhando com eles. Esperto metia-se nas rodas de conversas, até que algum adulto o mandasse calar a boca, afinal pra que menino se intrometendo em conversa de adulto? O menino crescia, entre enxadas e sonhos, embasbacado desenhava na mente a cidade maravilhosa, imponente com suas enormes vitrines, as grandes avenidas e muito mais do que poderia delinear no seu sonho. Mal sabia que a vida não se faz apenas com sonhos e, numa sociedade consumistaa selva de pedra cobra caro daqueles que não têm muito para lhe oferecer.. A mãe não agüentou as privações, o frio e a falta de agasalho, coitada já habita outra esfera. Morreu sem muito alarde, dormindo como um passarinho. Não pedia muito da vida, não sonhava, apenas vivia. Os sonhos do menino naquelas noites sob a luz das estrelas, numa velha calçada enquanto escutava os adultos foi borrado como a água desfaz uma aquarela. Das dificuldades passadas, que não foram poucas restou apenas um aluguel que divide com a companheira, o ônibus para tomar diariamente e chegar duas horas depois ao canteiro da construção, emprego que apesar de não ser lá essas coisas é o que permite ter a sua dignidade, sua carteira assinada e o seguro desemprego de tempos em tempos. Não teve filhos, como poderia? De seu, apenas a alegria e a folia durante quatro dias. Na avenida, ainda permite-se sonhar e imaginar-se ... rei da folia. Não é apenas um anônimo, a sua cuíca canta, sem dores, coração faz folia. A companheira, bela passista, prepara-se para a entrada triunfal. Isto é real na sua escola e na bateria, ele tem o seu valor.

Coloca a fantasia,mais uma olhada no espelho, instrumento a tira-colo segue, a venida os espera de braços abertos, a glória e a alegria esperadas o ano inteiro. Na quarta-feira de cinzas se encontra de cara lavada, vazio no bolso, mas com um peito cheio de felicidade chamado CARNAVAL.