De Advogado a Juiz

De Advogado a Juiz

Macedopolis é uma pequena cidade localizada a 100 km da capital de um importante país da América do Sul, seu povo vive da agricultura e da pecuária. São cerca de 60.000 (sessenta mil habitantes contando com as crianças), como em todos os municípios desenvolvidos, a cidadezinha possuí uma infra-estrutura de causar admiração a muitos países desenvolvidos. A prefeitura com sua arquitetura colonial, remontam os tempos áureos do governo imperial, seus jardins e praça bem cuidados, é um cartão postal para quem a visita e para os casais recém casados, que antes das núpcias,tiram as mais belas fotografias para seus álbuns de recordações. A câmara municipal com sua tonalidade azul celeste e envolta por pequenas lâmpadas, dá uma expressividade laborativa, aos membros que diáriamente se reúnem no plenário, para discutirem propostas benéficas para melhoraria da qualidade de vida de seu eleitorado.

Possui quatro escolas de ensino médio, três de ensino fundamental, e uma faculdade que é o orgulho da educação do município.Com seus dez cursos acadêmicos, a maioria dos jovens alçam vôos longos para realizarem seus sonhos de empregos bem remunerados, pelo estado e pelo município. Como em toda cidade pequena, existem famílias que se destacam pelo seu poder econômico, Macedopolis não é diferente, quatro grandes famílias se destacavam das demais, os Macedos pelo comércio, os Jordão pela política, os Carvalhos pelas grandes fazendas, e finalmente a família Oliveira, dona dos maiores empreendimentos imobiliários que crescem por todo o município e área vizinha. A cidade tem como padroeira a Santa Ediwiges, em sua homenagem a catedral foi construída no centro da cidade, para que o ressoar de seus sinos sejam ouvidos por quase toda a cidade, pois o campanário tem uma abóbada acústica da mais alta sonoridade. A praça em frente é bem iluminada com bancos de madeira rústica espalhados por toda a praça, ali se reunem aposentados para uma partida de carteado, relembram os tempos pomposos e calmos, casais de namorados, comerciantes que descansam a hora do almoço etc.. em datas festivas da padroeira, as barracas de iguarias, são distribuídas por todo espaço da praça, para que seus fiéis possam andar a vontade e comprar os produtos culinários extraídos da terra.

O Dr. Macedo, influente comerciante tem um filho de nome Marcos, formado em direito e que advogava na cidade em um dos mais bem montados escritórios, todo informatizado, com uma sala de estar luxuosa, com alguns estagiários a seu dispor. Este advogado era o orgulho do pai, pois se formou aos 21 anos e ainda continuava estudando para realizar seu sonho que é o da magistratura.

O maior fazendeiro da região o Sr.Ademir de carvalho, homem bastante conhecido na região, possuía o maior rebanho de corte e um haras dos mais belos cavalos puro sangue do país. Seu filho um jovem elegante de nome Alberto,pretendia dar continuidade aos negócios do pai, foi estudar veterinária na capital, e não se adaptando ao estilo de vida universitária, trancou a matricula e voltou à cidade onde todo o final de semana, entregava-se a farra com os amigos.

Marcos e Alberto, eram grandes amigos de infância, estudaram juntos desde o maternal, e através deles a amizade daquelas duas famílias eram sólidas e nada parecia desfazer o enlace fraternal entre ambas.

Destarte, ambos fizeram um curso preparatório para o vestibular, e nos finais de semana se divertiam fazendo equitação no haras do pai de Alberto, a amizade dos dois era de causar inveja, pois dividiam um com o outro todos os problemas que enfrentavam,

Dona Marta, mãe de Marcos tratava Alberto como a um filho, D.Ediwiges mãe de Alberto, não era diferente, guarda até hoje as fotos deles de quando completaram um ano de idade... pois a diferença natalícia de ambos é apenas de 12 horas, nasceram na mesma maternidade no dia 12 de julho de 1985. Fizeram o vestibular e foram aprovados com destaque, as famílias fizeram uma grande festa de comemoração no iate clube da cidade.

Marcos iniciou o curso de direito na cidade, enquanto Alberto foi estudar na Capital, passado dez meses o Futuro veterinário Alberto, regressa para casa desanimado e sem a empolgação de antes para complementar os estudos, sua mãe tenta lhe convencer que o melhor para ele é se formar e exercer seu oficio, tendo em vista que um veterinário na região iria ter uma clientela muito grande, pois a demanda é espantosa e não há profissionais qualificados no trato bovino e eqüino na região. Mas nenhum argumento foi capaz de persuadir o obstinado Alberto.

- Meu filho o que lhe falta? Seu pai trabalha arduamente para lhe dar um futuro e o que você faz conosco? Todos os meus esforços vão se tornar em vão. Falou choramingando diante do irredutível e obtuso filho.

- Mãe meu pai não tem nem o primeiro grau e, no entanto é o maior pecuarista que conhecemos, não nasci para ser doutor, não nasci pra ficar sentado durante cinco anos num banco de faculdade rodeado de patricinhas e filhinho de papai, que querem fazer experiências laboratoriais e crescerem na comunidade cientifica do reino animal.

-Mas meu filho...

-Não adianta mãe, estou decidido a trabalhar na fazenda e ajudar meu pai a cuidar dos negócios da família.

-Tudo bem Alberto... eu só quero que você saiba que sua mãe sempre quis o melhor para você, Oxalá! o Marcos que eu tenho como a um filho não pense igual a você.

Entrementes...

Na casa dos Macedos era só alegria, Marcos concluira o primeiro ano com destaque, D. Marta comprou duas passagens para Porto Alegre com estadia de quatro dias, com o objetivo de levar o filho para assistir o 25º congresso de magistrados da América latina.

- Marcos desculpe, mas eu li no jornal que vai haver um congresso de magistrado em Porto Alegre, então me antecipei e fiz sua inscrição como estudante de direito.

- Fez muito bem minha mãe, creio que a minha grade curricular irá ser enriquecida de conhecimento didático no campo jurídico, além de alargar a minha experiência no trato vocabular com os magistrados.

-Obrigado filho, vejo que você está realmente determinado em ser um bom advogado.

- Não tenha duvida... pois eu sempre me baseei nas leis de Jesus cristo.

- Marcos o que tem haver Direito com religião? Afinal de contas você não gosta de ir nem a missa... prefere ouvir estas mensagens de pregadores fanáticos protestantes.

- Não é isso minha mãe, na faculdade nós lemos alguns trechos da bíblia sagrada, e nos evangelhos tem algumas passagens em que Jesus defende algumas pessoas, dentre elas uma mulher pega no ato de adultério, e com uma simples pergunta ele a absolve e dissolve toda a turba acusadora.

- Ta bem meu filho, mas da maneira como fala você parece que deveria ser um padre e não um advogado.

Aquela conversa entre mãe e filho se estendeu num clima amigável até tarde da noite.

Viajaram para Porto Alegre, e lá Marcos confirmou que realmente o Direito estava impregnado na sua vida.

Ao retornar encontrou-se com Alberto, conversaram muito e trocaram idéias durante horas... e como sempre Marcos foi dormir na fazenda na Casa de Alberto.

-Tia Ediwiges quanta saudades, como esta a senhora? Parece que está mais jovem, quero esta receita de juventude.

- Marcos meu filho... que bom que veio me visitar,desde que Alberto foi para a capital você não veio mas aqui...pensei que estava aborrecido conosco. O Ademir até me perguntou porque você se afastou do nosso convívio.

-A senhora sabe que a considero muito, sem o Alberto aqui nós não teríamos o mesmo clima, pois ao me ver a senhora ia ficar emotiva com saudades dele, por isso eu quis poupá-la de sua lágrimas.

-Como sempre, você continua um rapaz gentil e educado e muito cavalheiro. Vou lhe pedir um favor de mãe...

-Que é isso tia? Pode pedir o que quiser, pois tudo que estiver ao meu alcance a da minha família nós faremos pela senhora.

- É o Alberto... ele não quer mais estudar, e desde que voltou adquiriu o hábito de beber nos finais de semana, como se não bastasse está criando alguns problemas na cidade pelos bares e churrascarias.

- Pode deixar tia que eu conversarei com ele.

Naquela mesma noite Marcos tentou persuadir Alberto apara revogar a sua decisão de abandonar os estudos. Porém Alberto continuou obtuso.

- Marcos se você quiser continuar sendo meu amigo não toque mais neste assunto, a minha decisão é inviolável nada me fará voltar a estudar.

Passaram cinco anos, Marcos depois de formado montou seu escritório, graduou-se em criminalística e processo cível. Seu escritório é o mais procurado da cidade, as causas ganhas por ele o tornaram uma celebridade na cidade, o mais respeitado advogado pelos juízes e promotores.

Um dia foi chamado à delegacia da cidade, para representar um rapaz que estava preso, por fazer arruaças e promover brigas de rua num bairro humilde da cidade.

- Dr. Marcos... aqui é o investigador Paulo da 66ª DP, é que tem um preso aqui que deu seu telefone, disse que o senhor é o advogado dele.

- Senhor investigador eu sinto muito, mas deve haver algum engano, pois eu nunca fui a uma delegacia soltar preso e...

-Dr. Este preso disse que é seu amigo particular, não quer outro advogado, o nome dele é Alberto Carvalho, filho do Doutor carvalho, dono da Fazenda Cinturão Verde.

Diante desta confissão, o convite do investigador tornou-se para Marcos uma ordem. Imediatamente foi a delegacia conversou com o titular, pagou uma fiança e soltou o rapaz que parecia envergonhado diante do vexame que fez a família passar.

Estes episódios se repetiram muitas vezes, e sempre lá estava o Dr. Marcos intercedendo pelo seu cliente e amigo.

O Dr. Marcos foi para a capital fazer o curso de magistratura, passou quatro anos na capital, enquanto seus auxiliares tocavam os processos no escritório.

Alberto casou-se e ficou morando na fazenda, trabalhando com seu pai, mas de vez em quando bebia, fazia uma série de besteiras na cidade, por conta disso, já tinha uma folha na policia bastante grande por pequenos delitos.

Marcos prestou concurso para o Tribunal de justiça do estado, com aprovação,assumiu a 26ª vara da comarca de lagoa clara, uma cidade ao sul da capital e que distava 400 km da sua cidade.

Após dois anos, ele conseguiu a transferência para macedopolis sua terra natal, o prefeito e todas as autoridades da cidade o receberam com uma solenidade digna de um Rei. Durante dias recebeu visitas de todos os seus amigos de infância e de faculdade, e todos eram unânimes em afirmar que um dia ele seria desembargador e ministro do STF. Ou seja, seria o filho mais famoso da pequena cidade de macedopolis.

Os seus julgamentos eram imparciais, o cumprimento das leis dentro dos tramites judiciais foram o apanágio de seu tribunal.

Um dia,ele foi julgar um caso de homicídio doloso, em que um motorista embriagado atropelou uma mulher grávida matando instantaneamente, negou socorro, evadindo-se do local ocultando o veiculo.

Quando ele leu os autos e viu quem era o réu... seu coração disparou, ele suspendeu a sessão por 30 minutos.

Quando entrou novamente no plenário, leu os autos e em voz alta disse:

-Sr. Alberto... durante anos, defendi clientes em que a promotoria argutamente induzia o júri à condenação pelo poder consonante das palavras persuasivas e argumentos incontestáveis, sempre derrubei todas as teses acusatórias. O Senhor, foi um dos meus clientes que exaustivos processos tive que defender,a fim de leva-lo a absolvição, anulação e arquivamento. Gostaria de saber, o que o Senhor tem a dizer antes que eu formalize o julgamento.

- Meritíssimo sempre fui seu amigo, o Senhor sempre me defendeu e creio que hoje não será diferente, com certeza o Senhor fará a justiça em meu favor e sairei daqui livre.

- Os tempos e a situação mudaram... hoje tudo é diferente, mas tenha certeza que agirei de acordo com os meus princípios, com o senso de justiça que a sociedade espera de mim.

Ao terminar todo processo, e as falas dos advogados,promotoria e a decisão do júri, o Juiz manda o réu e a platéia tomarem assento no plenário, proferindo seguinte sentença.

- Sr. Alberto diante da decisão do júri, eu não posso recusar a aplicação da pena determinada pelo código do processo penal, em que o Senhor foi enquadrado,julgado e considerado culpado.

Como seu advogado, por anos lhe defendi... como juiz hoje, de acordo com autoridade mim autorgada, eu lhe condeno a oito anos de reclusão em regime fechado,em uma penitenciária do estado,podendo o Sr.requerer apelação atraveés de seu advogado, em consonâcia com a cartilha constitucional.

A noticia se espalhou como fumaça por todas as localidades, Dona Ediwiges foi até o fórum falar pessoalmente com ele.

- Dona Ediwiges, hoje não sou mais advogado, nada posso fazer, hoje sou juiz, só cabe a mim julgar dentro dos rigores da lei, por favor, entenda... se a vitima fosse sua filha, como a senhora estaria se sentindo agora, ao saber que o autor do crime está no lugar certo pagando pelo seu crime?

-Você está certo meu filho! me perdoe pela intromissão, mas você sabe como é o coração de mãe.

-Eu compreendo... Assim também será quando Jesus Cristo vier,hoje ele é nosso advogado,porém quando vier nos julgar, ele virá como juiz, julgará todos os nossos atos com rigor, medite nisso! veja a semelhança de Jesus Cristo, com o Advogado e com o Juiz.

-Muito obrigado meu filho, Que Deus ilumine todas as suas decisões.

E assim aquele nobre juiz um dia se tornou desembargador,foi presidente do Superior Tribunal de Justiça do país. Alberto cumpriu um terço da pena, foi posto em liberdade condicional por bom comportamento, já amadurecido pelos erros da mocidade, certo que a volúpia da juventude o levou a pagar caro pelas incautas decisões tomadas pelo efeito de bebidas. Tornou-se abstênico ao álcool e retomou os estudos. Sendo atualmente um dos melhores veterinários da América latina.

Artonilson Macedo Bezerra

ARTONILSON MACEDO BEZERRA
Enviado por ARTONILSON MACEDO BEZERRA em 10/03/2008
Reeditado em 26/09/2008
Código do texto: T895631
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