Cuidado com os dias de chuva

Às vezes lembro-me das histórias que minha mãe contava. Eram tantas que algumas coloco no papel. Sempre fomos pobres e acho que ela contava episódios cotidianos para nos animar diante da força da pobreza. Uma de suas narrativas era sobre a chuva. Estávamos com minha irmã no pequeno portão azul de nossa casa de aluguel. Minha irmã havia corrido pela rua para pegar uma bola que se arrastava por perto. Eu estava meio desencantado com o mundo e firmei os olhos no céu. Devia ter uns seis anos. Só sei que minha mãe perguntou: “O que está vendo?”. Esperei um pouco, observei atentamente e disse, “Vejo o céu. Ele está preto! Muito preto!”

.

Assustada ela arregalou os olhos e disse que nunca deveria falar daquela forma novamente. Afirmou que fui deseducado e que tomasse maior cuidado em tempo de chuva. Certa vez, um homem muito sério do interior de Minas estava olhando o céu e disse: “O céu está preto como carvão”. Segundo a mãe, antes mesmo de terminar a frase apareceu ao seu lado São Pedro e, bravo, com as mãos agarradas à chave do céu disse: “Mais preta está sua alma”.

.

Minha mãe asseverou que o susto foi tão grande que o homem ficou por três dias em coma e nada o acordava.

.

Lembro-me após o episódio de nunca mais ter observado o céu da mesma forma. As chuvas de início e meio de verão são fortes em MG e naquele mesmo dia tivemos a surpresa de uma grande chuva de granizo que caiu sobre a cidade de Rio Pomba. Nossa casa não tinha laje e era coberta por telhas de amianto. Foi um início de noite que jamais esquecerei, pois o amianto é incapaz de amortecer pedras. A rapidez da chuva e o peso das pedras em gelo destruíram as telhas e não diminuíam o frio. Olhava para a mãe pedindo desculpas, pois acabava de falar que o céu estava preto e pensava em minha punição. O mais comovente foi o abraço forte e protetor que ela nos dava para proteger. Belo gesto da mãe que se coloca entre os filhos e o perigo. A chuva parecia não ter fim e o frio atingia a casa, a qual, com o forro molhado deixavam escapar goteiras da geleira que se formou sobre nossas cabeças. Algumas lágrimas quentes da mãe caíam sobre nós e de pavor adormeci.

.

Acordei coberto com um monte de cobertor e sentia calor. Estava tudo limpo e via com tristeza a entrada do sol pelos grandes buracos que a chuva deixou no amianto. Lembrei-me de tudo e escutei de longe minha mãe apagando as velas que, naquela noite, lhe fizeram companhia enquanto eu e minha irmã dormíamos com segurança.

.

Lúcio Alves de Barros