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Cotidiano

É incrível como aquilo que faz parte do cotidiano para a maioria das pessoas, para uma parcela excluída da sociedade (na qual humildemente me incluo) as coisas mais simples (ressalto, aos olhos da dita maioria das pessoas) pode se transformar num verdadeiro inferno, pior que o de Dante e Brueguel juntos! Calma, não estou sendo dramática, já explico e você leitor incrédulo ainda há de dar-me razão.

Há poucos dias fui convidada para um chá de bebê e como nasci num dia de sorte, ainda precisei comprar os “presentes” para outra convidada, os itens eram: um xampu, dois sabonetes e uma mamadeira de chá.  E por que tive que ir atrás de tudo isso? Simples, porque quem deveria levar a mamadeira não ia ter tempo e como segundo a lei da maioria, não trabalho (ser professora não é profissão, mas passatempo), então sobrou pra mim. Adiei ao máximo. Até que não deu mais, o dito Chá (onde tudo, é servido menos CHÁ) estava marcado para domingo e já era sábado à noite, tive de sair à caça dos artigos.

Até chegar ao supermercado, julguei ser uma empreitada fácil, no máximo ficaria indecisa quanto à cor, formato, para um bebê fazem uma enorme diferença. A saga teve início logo na entrada, precisei cruzar o estacionamento, onde os motoristas esquecem; pedestre não é motorizado e só tem duas pernas. Sem contar... a pessoa pra ir num lugar desses sábado a noite é porque certamente não tem nada melhor pra fazer, portanto pra quê pressa?

Por fim consegui entrar no recinto, depois de uns 10 minutos encontrei o corredor com produtos infantis, só então comprovei a teoria sobre a existência de mundos paralelos e coexistentes. Nunca havia visto ou notado tanta diversidade de mamadeiras, tinham de todos os formatos, tamanhos, cores, bicos... peguei várias,eram tantas! Uma hora devolvi a que tinha nas mãos de volta na prateleira, olhei para tudo aquilo a minha frente, respirei fundo...  pensei ...: “vou escolher primeiro, os sabonetes e o xampu, afinal são  itens de primeira necessidade...”,  virei e comecei a ler as embalagens, “Crescidinhos”, cabelos claros, escuros, encaracolados, lisos, de maçã, framboesa, morango, com leite, mel... fui ficando com  fome.

- PUTZ! – falei baixo – estava numa Cruzada solitária, até mesmo Saladino, teria compaixão com o inimigo (estava não sei a quanto tempo naquele corredor e tudo que havia conseguido escolher foram os sabonetes), nem o último samurai se sentiu tão sem rumo. As forças faltavam, mas tinha uma missão a cumprir, Arthur alguma recuou frente a um desafio? Não.... Tudo bem, ele tinha excalibur, Lancelot e de quebra Merlin, mas isso não vem ao caso, agora. Uma pergunta não saia da cabeça... onde estavam todos os seres humanos que encontrei até chegar ali? Devem ter tomado o tal chá e sumido. Quando pensei “tudo está perdido”... adentraram no corredor uma mulher com aproximadamente 50 anos e sua filha esta não tinha mais de 30, foram chegando perto das mamadeiras – “é minha chance” – pensei:

- Com licença, será que vocês podem me ajudar? – Contei o que acontecia, as Criaturas lançaram-me um olhar... bem vou tentar traduzi-lo; como pode uma mulher não saber esse tipo de coisa? Mas depois até foram prestativas, tudo ia bem até vir à pergunta:

- Você não tem filhos não é? - irônica
Descobriu isso sozinha Sherlock? – pensei – Não consegui segurar a língua na boca:

- Tenho sim, ele tem 11 anos, tem 4 patas e late. – com um sorriso simpático. Aaahh por que esse cara aí leitor?   Ela queria mostrar-se superior, aí não dá!

Por fim a mais velha indicou-me as melhores marcas e tipos adequados; agradeci, escolhi. Fui para o caixa, enquanto esperava na fila, me perguntava, quando as pessoas vão entender e respeitar o fato: o óbvio para mim, pode não ser pra você?

Giliane Moura
Enviado por Giliane Moura em 13/12/2008
Código do texto: T1332897
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre a autora
Giliane Moura
Santo André - São Paulo - Brasil, 38 anos
20 textos (706 leituras)
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Giliane Moura