ENGENHO MUNDO NOVO


“Engenho Mundo Novo”, na lembrança
o melaço correndo pelas calhas
virando puxa-puxa em duas palhas
retiradas das canas, feito lança.
Melaço, rapadura, minhas falhas
no mergulho no açude, que era fundo.
O sono acolhedor, casto e profundo,
a catiga das aves no renovo...
Coronel Cunha Lima, Mundo novo,
foi o mais doce engenho desse mundo!”


                  Cheguei, puxado pelas mãos da minha mãe, Dona Anjinha, para uma visita de dois dias ao Engenho Mundo Novo numa manhã domingueira de sol nascente, trajando blusa listada, calça curta de brim coringa e meias soquete brancas, com as botinas novas, de cano médio, em verniz preto e reluzente, a me apertar os pés. Das mãos da minha mãe fui parar nas do meu tio, de grande barba grisalha, chamado por todos de coronel: Coronel Cunha Lima.
                - É esse o poeta? - Minha mãe falou que sim e eu disse “não” com a cabeça:
                - É o Didinho, danadinho de impossível. – Ela riu, ele achou graça e eu chutei um frango pedrês que se engraçara da minha botina nova, bicando-a três vezes seguidas. O bicho voou sem bater as asas e sem as asas abrir aterrissou nos ladrilhos do terraço.
                - Seu Didinho! – minha mãe vira! Mas logo se fez ouvir a voz apaziguadora de Sinhá Maria, que a tudo assistia dos degraus da entrada da casa grande, com seus óculos redondos, de aro fino, brilhando ao sol:
               - Coisa de menino, Anjinha. Menino que nunca viu galinha solta nem nunca se soltou no mato. – E como a minha mãe estivesse segurando meu braço: - Larga o bichinho. Deixa ele correr campo.
               Foi a minha primeira alforria. Com a sacola às costas abracei o tio coronel, subi, correndo, as escadarias, pedi bênçãos a Sinhá Maria, ajuntei-me ao primo Ricardo e, no quarto por ele indicado, desfiz-me da roupa de loja e das botinas, e, de pés descalços, enfiei-me no tradicional calção e camisa de meia, para conhecer, com ele, o mundo novo de um engenho de fogo vivo, safrejando rapadura e cachaça.

CACHAÇA


Casas de cozer méis, berços da graça
que calmava os escravos do lundu,
água ardente dos gregos, “al kuhu”,
prenda que na moenda se esbagaça.

Mosto das musas posto numa taça
que do poeta deixa o peito nu,
magia das essências, o vodu
possessivo do afeto que o engraça.

Parceira num fruteiro de caju
ou do cigarro envolta na fumaça,
mentora de meus versos, meu guru,

Um soneto de agrado que eu lhe faça,
seja brinde a um brochete de pitu,
caninha, parati, pinga, cachaça!


                 Era um tudo diferente do quanto eu havia visto. Cambiteiros troçando os burros carregados de cana de açúcar e as amontoando junto às moendas. A calha de barro cozido levando para os tachos ferventes o caldo esverdeado. Os braços suarentos e musculosos dos serviçais boleando o caldo pastoso, para não deixar queimar. O melaço borbulhando no tacho maior, até escorrer por uma calha de madeira direto para os cochos de enchimento nas formas de rapadura.
                 E enquanto o mel quente, da cor de ouro, desfilava nas calhas, sob os meus olhos admirados e cobiçosos, íamos, com duas paletas de casca de cana, retirando um pouco, e, batendo uma na outra, formando uma massas elástica que ia embranquecendo à medida em que esfriava, até virar puxa-puxa de um doce tão doce que nunca mais o consegui esquecer.
                 Grudava nos dentes, nas mãos, nos braços, na roupa, nos cabelos, deixando-nos parecidos a abelhas humanas carregadas de pólen, perdidas no espaço e sem cortiço à vista para se livrarem do mel.
Mas como era gostoso sentir da própria cana de açúcar o néctar transmudado em manjar, a maciez do melaço, após curtido em paletas e em nossas mãos, num batido constante e compassado, para depois, enrolando-o na palma das mãos e suportando a persistência do calor da fervura, gradualmente transformá-lo numa bola branca, homogênea, de sabor inigualável!


MEL DE ENGENHO


Ó mel de engenho, se de mel não fosse
seria doce, dado a tanto empenho
do braço forte dos bantus do engenho,
de olhares tristes e sorriso doce.

A nau perdida, que de longe os trouxe,
não lhes roubou o mourejar ferrenho
nem lhes curvou o tronco, negro lenho
que, somente em Jesus, modificou-se.

Enquanto o caldo grosso corre a trilha
e roda, ao tacho, pelo braço banto,
de rapadura alimentando a pilha,

os escravos do mel, em cada canto,
vão lembrando, no Congo, da família,
chorando doce o seu salgado pranto.


                   Depois da farra da rapadura, corríamos para o banheiro à beira do açude, feito de pau à pique, arrodeado de palhas de coqueiro, com uma escada de madeira imersa na água, em seu interior, a nos permitir o banho à altura desejada. Era ali que nos livrávamos do excesso de doce, do melaço que nos melava o corpo por dentro e por fora. Era ali que nos integrávamos ao coaxar dos sapos e rãs, numa cantiga que nascia com o sol e se repetia noite afora:
                   - Te-re-re-re-re....., - cantava eu. 
                   - Coache, coache, coache... – ajudava Ricardo.
                   - Te-re-re-re-re-re, cric-cric-cric, blum, blum, blum... – entoavam sapos e rãs.
                   A primeira vez que fizemos esse passeio, foi um Deus nos acuda:”-Onde está Didinho?” - “- Cadê o Ricardo!” - “-Vai que alguma onça os tangeu para longe.” - “- Não, no açude não! É de uma fundura que dá medo!” - “ -No lago da calda!” - “-Ai, Deus, levados pelos ciganos!”
                   Quando chegamos à tardinha, ainda molhados do banho e melados do barro da rampa que fizemos de escorrego, a alegria primeira foi logo vencida pelos carões:
                   - O que foi que eu te disse, Ricardo?!!
                   - Didinho! o que foi que você aprontou dessa vez!
                   Ninguém acreditaria que apenas nos lambuzáramos de puxa-puxa, de rapadura batida, de mel de engenho, de goiaba, de manga espada, de jaca mole, de sapoti, de carambola, de banana amadurecida no pé, de tomar banho de açude e de dar banho, no açude, em sapos e rãs, de escorregar, ladeira abaixo, na rampa de barro vermelho, e de sorrir muito de muita e muita felicidade;
                    - Foi o Toré, mãe! - choramingou Ricardo. Ele cismou da camisa vermelha de Didinho, riscou o chão, bufou, e danou-se a correr atrás da gente. Não fosse a cerca da fazenda de seu Mundinho, sei não! Quando voltamos, lá veio de novo o Toré pra cima de nós. O jeito foi subir numa mangueira e esperar até que o bicho fosse embora.
                    - E esse barro todo, meu Deus?
                    - Foi Didinho que caiu três vezes na ladeira do oiti e na rampa do açude, correndo do touro, mãe. E cada vez que ele caia, eu voltava para ajudar e caia também.
                    Todos riram, todos ficaram contentes com a nossa volta, sãos e salvos. Todos riram, menos eu,
                    Já no quarto, de cara amarrada, perguntei a Ricardo:
                    - E por que foi que eu caí toda vez e você só caía quando eu lhe puxava? Fique sabendo que eu sou campeão de barra-bandeira e de pega-ladrão. Eu sei correr, fique sabendo. E não tenho medo de touro!
                    - Desculpe, Didinho. Foi só um truque que eu inventei para dar um cala no povo. Eu vi que você corre mais do que eu. Mas eu não tenho medo de sapo e você tem.
                    - Mas não tenho medo de touro!
                    Fomos dormir, logo depois da janta. Estávamos exaustos. Eu na rede e Ricardo na cama patente. De madrugada acordei com um mungido forte;
                    - Muuuuuuuuuuuuummmmm!
                    Tremi nas bases e me mijei de medo do mungido que, para mim, seria do touro Toré.
                    - Perdoa, Jesus, era brincadeira minha, Eu tenho medo de touro! Muito medo, mesmo. Benzi-me e voltei a dormir na paz da minha primeira noite de liberdade no Engenho Mundo Novo!
                                
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                     Depois que eu cresci, o Engenho Mundo Novo encolheu. Foi perdendo terras, amarelecendo o plantio, abrindo espaços às catandubas, e abafando a fumarada do enorme bueiro de tijolo curtido - hoje desfigurado pelo bulício das chuvas, pelos fustigos do vento e pela indiferença temporal, que o reduziu a uma sombra barracenta que teima em ser altura para não deixar de ser lembrança.

BUEIRO DE ENGENHO

Do entardecer, na serra, o desconforto
de ver, por entre galhos retorcidos,
demarcando o lugar dos esquecidos,
um bueiro de engenho, tetro e torto.

É triste vê-lo, assim , de fogo morto,
retratando a mortalha dos vencidos
nos tijolos de vento carcomidos,
tal qual um cristo a padecer no horto.

O caldo pelas calhas, o melaço,
puxa-puxa, cachaça, rapadura,
o cheiro da fumaça do bagaço...

Do passado prendado de fartura
o que resta, na tarde, é o despedaço
de um bueiro teimando em ser altura.

Odir, de passagem