A CASA DA VÓ ALICE

Quando eu tinha mais ou menos catorze anos de idade, passava sempre por uma casa para idosos no meu caminho para a escola. Era uma casa toda cinza, tristonha, com um jardim mais triste ainda. Ela se perdia para os fundos de um terreno comprido. Algumas vezes, quando não estava distraída em conversas com minhas amigas ou pensando nas lições escolares que teria pela frente, eu olhava sem maiores intenções para a casa. Na verdade, a casa e as pessoas que lá conviviam pouco me interessavam. Eu tinha avós, mas eles moravam longe. Minha experiência com pessoas idosas era muito pouca. E com catorze anos, a impressão que eu tinha é que jamais envelheceria.

Em uma tarde chuvosa, em que eu saltava as poças de água, equilibrando livros, cadernos e uma sombrinha, sem saber até hoje o motivo, olhei para a casa cinza. Imediatamente meus olhos foram atraídos para uma senhora de cabelos branquinhos, expressão melancólica, que observava a chuva, solitariamente, de uma janela no primeiro andar. Por frações de segundos, meu olhar cruzou com o dela e algo fez com que eu desviasse minha visão e seguisse o caminho de volta para casa.

Porém, aqueles olhos me seguiram a noite inteira.

No dia seguinte, o sol brilhava. Estava quente, os passarinhos pareciam adivinhar que a primavera dava o ar da sua graça. Tomei meu rumo para a escola,

com uma certa inquietude tomando conta de mim. Aquela velhinha de cabelos brancos… Será que ela estaria na janela novamente? Meu coração acelerou, à medida que eu me aproximava da casa cinza. Imediatamente, olhei para a janela. Talvez lá fosse o quartinho dela. E sim, a senhora lá estava, com a mesma expressão que me fez doer o coração. Os olhos tão perdidos em lembranças novamente se focaram em mim. Desta vez, não a ignorei. Com um sorriso no rosto, criei coragem e abanei para ela. A princípio, ela pareceu não acreditar que o aceno fosse para si. Depois, com a insistência do meu olhar, a velhinha retribuiu o meu abano, timidamente.

E assim foi por mais de uma semana. Tanto na ida, como na volta da escola, eu a encontrava na janela e sempre lhe abanava. Com o passar dos dias, o sorriso dela foi se abrindo mais. E o meu também. Os acenos já tinham mais calor, os olhos dela já brilhavam como o sol. Acho que ela já me esperava, pois sabia que de mim sempre partiria algum tipo de atenção.

Sem me dar conta, fui me afeiçoando a ela. Não imaginava mais passar pela casa cinza, sem dar um aceno, um sorriso ou até mesmo gritar um “olá”, em alto e bom som. E ela gostava. Eu só me perguntava por que nunca a via no jardim da frente, por mais feio e sem graça que este era. Era comum alguns idosos ficarem ali, tomando um ar. Porém, minha amiguinha nunca os acompanhava.

Certo sábado, acordei-me com a chuva batendo no telhado da minha casa. Apesar de primavera, os pingos caiam forte no telhado e preparei-me para enfrentar um dia chato e pesado. Então me lembrei dela. Se para mim o sábado se avizinhava triste e vazio, imagine para ela, sozinha naquela casa mais triste. Saltei da cama, decidida. Iria visitá-la. Mas por que eu ainda não tinha feito isto? Nem eu sabia.

Mas não podia ir de mãos abanando. Imaginei que um presentinho poderia deixá-la feliz. Fui até a cozinha, peguei os ingredientes para um delicioso bolo de chocolate e fiquei a manhã toda em função. No final aquele bolo estava tão cheiroso, que tive vontade de guardar um pedaço para mim. No entanto, superado meu desejo, arrumei-me, embrulhei o bolo e me dirigi ansiosa para a casa cinza, abaixo de chuva.

Ela não estava na janela e a casa cinza parecia mais cinza do que nunca. Bati na campainha, sem saber ao certo o que ía dizer para atendente. Dizer o quê? Que queria visitar uma senhora de cabelos branquinhos, a quem eu acenava todos os dias e eu nem sabia o nome?

De qualquer forma, eu logo me vi dentro da casa. Lá dentro era um pouco menos pior do que fora. Havia flores, alguns quadros, o ambiente não era tão tristonho. Olhei ansiosa pela sala, procurando entre os velhinhos, a minha amiguinha. Entre tantos semblantes tristes, solitários, alegres e curiosos, não

a encontrei. A atendente ficou satisfeita quando soube das minhas intenções. Parece que a senhora – descobri que o nome dela era Alice – tinha um problema nas pernas e quase não descia para o andar de baixo. Guiada pela moça, fui levada até o quarto de Dona Alice. Confesso, eu estava um pouco nervosa. Como seria a reação dela ao me ver?

Encontramos Dona Alice sentada em sua cadeira de rodas, bem afastada da janela. Mais tarde, ela me confessou que não gostava de chuva, por isto estava evitando olhar para fora. Quando a velhinha me viu, abriu um grande sorriso. Por algum motivo, fiquei emocionada com a satisfação dela. Segurei as lágrimas, mostrei o bolo e passamos a tarde conversando lembranças da juventude dela. A história de Dona Alice era bem triste. Perdeu o marido cedo, com o filho bebê nos braços. Ela o criou sozinha e quando o rapaz tinha 27 anos, perdeu a vida em um acidente de carro. Dona Alice contou tudo isto como quem fala sobre as condições do tempo. E desde então ela passou a viver só. Há algum tempo atrás, depois do aniversário de 80 anos, deu-se conta que não dava mais para morar sozinha. E sem muitas condições financeiras, morava naquela casa. Não parecia guardar tristezas ou rancor, apesar dos seus olhos tristes. Quando saí de lá já era entardecer e jurei voltar mais vezes. E assim foi por algum tempo. Não eram raras às vezes em que eu passava depois da escola para deixar um agradinho para ela ou livro ou um doce, que ela adorava.

Aconteceu, então, de chegar as férias de verão. Minha melhor amiga havia me convidado para passar a temporada na sua fazenda, no Paraná. Antes de eu partir, fui me despedir de vó Alice, como eu a chamava agora. Percebi que ela ficou tristonha, mas desejou que eu aproveitasse bastante os dias de calor. Fiquei com um apertinho no coração ao deixar a casa cinza e cheguei mesmo a chorar. No outro dia, fomos para as tão esperadas férias, de onde voltei somente depois de dois meses.

Evidentemente que eu havia trazido alguns presentinhos para vó Alice. Como eu sabia que ela era boa de garfo, trouxe queijo, geléias, compotas de doces. Um dia depois da minha chegada, pus tudo em uma sacola colorida e lá fui eu visitar minha amiga.

Quando eu apareci na frente do jardim, com meu sempre sorriso no rosto, reparei que os velhinhos que estavam por ali, olharam-me meio constrangidos. Meu coração acelerou. Ela bem que poderia estar na janela, com todo aquele sol, mas não. E nunca aquela janela, com suas cortinas brancas me pareceu tão vazia. A atendente veio abrir a porta para mim, com uma expressão séria. Minhas pernas balançaram. Sem me dizer nada, ela subiu comigo até o quarto de vó Alice e eu o encontrei todo arrumado, com as flores renovadas. Mas vó Alice não estava mais ali. Ninguém ocupava aquele quarto. Tudo estava desesperadamente silencioso e escuro, mesmo com os raios do sol teimando em entrar pela janela.

Vendo minha expressão de espanto e mesmo sabendo que eu já pressentia o que havia acontecido, a moça falou, suavemente:

- Vó Alice nos deixou faz duas semanas. Antes, porém, ela deixou uma cartinha para você.

Com minhas mãos trêmulas, eu recebi um papel cor de rosa, cuja caligrafia garranchuda de vó Alice tomava conta de apenas duas linhas. Assim dizia: Obrigada por me fazer tão feliz. Obrigada por deixar o calor do sol entrar novamente no meu coração.

Entreguei minha sacola com os presentes para vó Alice, guardei o bilhete dentro da minha bolsinha e fui embora. Nunca mais tive vontade de voltar ali. E com o tempo, minha dor foi passando. Em seguida, veio a época dos namorados. Depois casei, tive meus quatros filhos, enviuvei, casei de novo, netos... Um dia destes, fazendo uma arrumação no sótão da minha casa, encontrei o bilhete da vó Alice. Vieram a minha mente, então, as imagens doces dela, seu sorriso, sua graça. Lembrei-me também que nunca mais havia visitado aquela casa cinza, onde havia tantos velhinhos que deveriam estar precisando do meu carinho, da minha juventude, da minha alegria. E passados tantos anos, quem estava velha agora sou eu. E vó Alice certamente está correndo entre campos floridos, com raios de sol brilhantes dourando seus cabelos brancos. Saudades daqueles tempos. Saudades de vó Alice no mundo das maravilhas.

Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 20/09/2009
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