Era uma vez...

Assim começam as histórias de sonhos, fantasias e esperanças. Certamente, todas as histórias de infância. Quando crianças o que mais fazemos senão idealizar, fantasiar realidades, transformando seres humanos em heróis imbatíveis, pequenos casebres em castelos, sapos horrendos em belos príncipes, megeras em damas acima de qualquer suspeita.

Era uma vez...

Uma menina que nascera em pleno outono. Em tempos conturbados, família simples e que era diferente das outras porque nunca acreditara em príncipes. Queria que a ouvissem, opinava até no que não lhe dizia respeito e vivia causando muita confusão por isso. Perguntas, dúvidas, poucas respostas. Quanto mais lhe negavam, mas ela queria. E crescia... Como um patinho feio, sentindo-se rejeitada, mesmo que não fosse. Querendo conquistar o mundo, mas era somente o seu mundo. Tornando-se uma adulta precoce, negando desde cedo suas reais vontades, desejando provar algo para... sabe-se lá quem... Mas, ela queria! Vivia dizendo verdades que desconhecia, bradando argumentos que iam da maturidade à infância. Para uns, modelo a ser seguido, para outros, algo a ser repelido.

E...

Era uma vez uma menina...

Crescera. Empurra-se prematuramente para a vida adulta. Sensata, inteligente, intransigente... Muito carente! Continuaria querendo provar o improvável, trabalhar além de suas forças, exigir-se perfeita... Qualquer assunto, um bom ouvido, um ombro amigo e a solidão. As pessoas a quem ela tanto admirava e, as quais insistiam em mostrar-se incólume, foram desaparecendo uma a uma, levadas pela única certeza da vida. Mas, a mulher que antes fora menina... Ou nunca fora? ... Acabou acreditando na ilusão de poder ser tudo e doou-se de tal forma que um dia se perdeu...

Era uma vez um rosto...

De mulher madura, endurecida pela vida! Casa, filhos, marido... Trabalho... muito, desgaste de quase tudo! Vivendo como quando se guarda todos os sonhos em uma caixinha a parte e vive-se uma vida inventada. Um espelho que já não lhe reflete a face, um sorriso que se confunde em lágrimas. Uma vontade que de tão forte, também se perdeu... Culpa, medo e sentimento de fracasso diante da vida que um dia foi sonhada por uma menina.

Era uma vez uma vida...

Que hoje morre para dar espaço ao fantasia. Que precisou ser subtraída para permitir-se transformar. Que abre a caixa envelhecida dos sonhos e os deixa seguir, mesmo que insanos, mesmo que insensatos, mesmo que em desuso, menos que façam parte da crença de um só mundo!

Era uma vez...

E serão muitas outras vezes... Sem almejar a felicidade definitiva, acreditar em amores eternos e felicidades estáveis.

Era uma vez uma mulher que se permitiu ser menina ao amadurecer!