A Viagem

Nasceu um dia lindo. “Nasce um dia lindo pra viajar...” pensou e foi tratar de fazer café. Queijo, frutas, suco e pão quentinho. Requentado no forno, é verdade, mas absolutamente perfeito no que tange seu paladar. Aproveitou para dar uma geral na geladeira já que ia ficar uma semana fora. Desde que ficou só não tem gato nem cachorro e quando vai ao mercado compra uma coisa de cada. Terminou de comer, limpou tudo, lavou a louça e tirou o lixo. A mala, que já tinha feito na noite anterior, foi colocada no carro e o destino imediato era o Posto da esquina. Depois de completar o tanque, o reservatório de água, limpar o vidro e calibrar os pneus, beijou o terço e foi em direção à Marginal. Foi sonhando com a praia, já escutando o marulhar das ondas e sentindo a areia sob os pés. Há anos não pisava na beira do mar, o dinheiro nunca dava e desta vez pode reservar uma semana de pousada. Pesquisou com um amigo que trabalha em agência de viagem e passou meses sonhando com os folhetos coloridos que este lhe trazia. Tudo muito simples, mas absolutamente magnífico. Parou de fumar, só tomou cerveja de sábado e fez todas as economias possíveis para se ajustar a esta despesa. De nada adianta reservar pousada, ter a grana do combustível e do pedágio e não poder tomar sorvete, cerveja, caipirinha e pedir isca de peixe. Sem estas coisas, praia vira sofá de casa. Pode até chover um dia ou dois e ele ter de passear pelas ruas do local, mas se fizer sol a caipirinha é sagrada. Até emprestou duas cadeiras de praia e um Guarda-sol listrado para poder ter a sua sombra particular. “Duas cadeiras?”, perguntou o tio. “Claro, e se aparecer uma gata pra convidar pra sentar? Ora tio, tem que ser otimista”. Quase não percebeu, sonhando acordado, que a entrada da Dutra já vinha logo ali a diante. Respirou fundo e pensou em São José dos Campos. Foi por lá que passou parte da adolescência, quando estudou como aluno da ETEP e pensava em ser Engenheiro Mecânico. Pensando nestas coisas, o tempo passou e já ia pra frente de Arujá. Com certeza em Jacareí ia poder parar no Posto, tomar um café e usar o banheiro. Nem pensou a palavra banheiro direito e escutou um estrondo, o carro começou a puxar pra esquerda. Foi tão forte que para poder corrigir deu um tranco no volante, o carro sambou, rodopiou e saiu rolando pela pista até que parou no acostamento de pernas para o ar. Não estava usando o cinto e quando achou que recobrou os sentidos tinha uns três caminhoneiros olhando pra ele. Tava todo dobrado entre as coisas e os bancos do carro. Aliás, estava difícil de reconhecer o seu Corcel. A capotagem o arredondou. A primeira coisa que ouviu foi de que alguém já tinha ido chamar a Polícia Rodoviária e, talvez, um Guincho. Sua cabeça rodava, a maioria de suas coisas, que se espalharam foram saqueadas e ele se sentou na guia e, de cara, sem a menor cerimônia, acendeu um cigarro. Voltou a fumar. Decisão tomada sem o menor sentido. Mas, afinal, o que é que tinha sentido ali, naquela situação.

Já tinha amanhecido quando João acordou com os latidos dos cães do vizinho. Malditos cães, ainda mato um. A cachaça tava lhe fazendo mal, mas quem podia resistir. E, depois, a velha do bar virava morena bonita, a bola caia na caçapa, a cerveja descia redonda e o céu ficava mais estrelado. Coisas da vida. A Maria é que não gostava nada disso. Reclamava que faltava grana, que não tinha feijão, que tinha goteira e rato.

Ô “muié” pra reclamar da vida. Mas também, não bebia: só sobrava reclamar. Ela não entendia que o que faltava era serviço. As pessoas pareciam não ter mais problemas. O Guincho ficava lá na beira da estrada o dia todo e nada. Ninguém nunca o chamava. Aliás, tinha Guincho demais na Dutra. João já nem tirava o carro da beira da estrada. Largava lá que gastava menos diesel. Por lá sempre tinha uns muleque e ele dava uma ou duas moedas se viessem avisar. Mas só caso o aviso resultasse em serviço. Ultimamente nem se dava ao trabalho de sair de casa. Quando muito, ia no bar. E era lá que ele tava quando o filho da vizinha veio esbaforido avisar que precisavam do Guincho. Que precisa, que nada. Precisa sim, seu João. O Guarda é que veio avisar. Capotou um carro lá na estrada. O Guarda tá lá esperando o senhor. O senhor tá no céu.

Alcebíades chegou no plantão e foi logo olhando pra folhinha. Claro que tava errada. Sempre está. Parece que seus colegas esperam ele vir trabalhar pra colocar a folhinha em dia. Folhinha já foi o brinde mais importante que alguém podia dar e os comerciantes disputavam pra ver quem conseguia dar a folhinha mais cedo para os policiais. A folhinha pendurada lá no posto policial era propaganda boa, pra muita gente por todo ano. Mas hoje, todos tem celular com calendário e ninguém precisa consultar a folhinha pra saber se o vinte e um de abril cai na sexta ou na segunda. Mas o Alcebíades sentia uma certa alegria que o fazia lembrar da avó, toda vez que podia rasgar uma folhinha, mudar uma data, essas coisas. Pois assim que viu a palavra sábado logo se arrepiou. Não que não soubesse que era sábado, mas é que todo final de semana os motoristas davam mais trabalho. Mal abriu o jornal na bancada e chegou um sujeito esbaforido pra informar de um capotamento na curva da pedreira.

Fechou o jornal, pegou o quepe, olhou-se rapidamente no reflexo do vidro blindado e saiu em direção à viatura. Passou um radio e se foi numa nuvem de poeira.

Fátima lavava roupa no tanque quando escutou um estrondo seguido de vários outros. Por morar onde morava, sabia perfeitamente tratar-se de acidente na rodovia. As galinhas correram erraticamente por alguns segundos, os cães latiram e seu marido acordou da ressaca da noite anterior. O barulho ecoou na pedreira como nos velhos tempos do Vicente Matheus. Até o Toninho da Pamonha saiu para dar uma olhada. Maria espremeu a camiseta, jogou-a no balde e pegou outra para começar tudo de novo.

A Polícia chegou, o Guincho chegou e os saqueadores se foram enquanto a imagem foi ficando turva como quem sobrevoa algo entre nuvens. Alcebíades passou um rádio: QAP

O congestionamento foi ganhando força, afinal mesmo com uma pista livre, todos diminuíam a velocidade para dar uma olhada. Juliano que havia tirado a família de casa bem cedo aproveitou para baixar o vidro e fumar. Sua mulher acordou com o cheiro de cigarro e nem teve tempo de reclamar, pois foi interrompida pela pequena Cecília: “Pai... Pai: porque tão cobrindo aquele homem com um saco?”

Dez minutos depois, Horácio comentou com a mulher: “Faz uma hora que estamos neste anda e para e, de repente, tudo volta ao normal. Cadê o motivo do congestionamento?”

No próximo posto, o pessoal do Rabecão, dos Bombeiros e do Resgate apostavam com Alcebíades e João, entre um café e outro, que o Corinthians iria perder sua invencibilidade naquele final de semana...

Ocirema Solrac
Enviado por Ocirema Solrac em 04/03/2012
Reeditado em 04/03/2012
Código do texto: T3535078
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