O Duelo das Pipas 



       Um vento morno balançava as folhas do velho coqueiro que decorava a frente da minha casa. Era um dia perfeito para empinar pipas, e aos poucos as ruas de terra e de sangue, do Capão iam se enchendo de meninos e de pipas, papagaios, cabuchetas e arraias. Entre todos os modelos, a cabucheta era a mais sem graça, era simplesmente uma folha de jornal sem varetas e sem alma voando desengonçada no ar. Bastava dobrar meia folha de jornal em forma de losango, depois juntar duas pontas, fazer um pequeno orifício em cada uma delas, amarrar a linha bem frouxa, formando o que chamávamos de barbela; e, por último, uma pequena rabi ola, uma linha sem cerol, porque ninguém perdia o tempo pra laçar cabuchetas. Na maioria das vezes, eram os meninos pequenos, que tinham entre cinco e sete anos de idade, e algumas meninas que gostavam de empinar as cabuchetas. Enquanto os pequeninos e as princesinhas corriam de um lado para outro tentando laçar o vento com suas pobres cabuchetas, nas ruas estreitas do Capão, eu e uma dezena de outros meninos subíamos as ladeiras de terra buscando um campo de grama batida, que para nós era como se fosse uma pista vôo de onde se decolavam as pipas.
       Chegando lá, desenrolei cuidadosamente a rabi ola de quase cinco metros da minha pipa azul. Hélio e os outros meninos da minha rua olharam-me com um sorriso debochado. “Olha lá pessoal! O Miguel parece que ta querendo bater o recorde da rabi ola”, falou Helio num tom de pura ironia, e os meninos riram ainda mais debochados. E eu ri também, já que éramos todos amigos. Não demorou muito para que o céu ficasse repleto de pipas, papagaios e arraias. Cada uma mais colorida que a outra: era um balé nos céus e outro na terra. Dar de pico ate chegar bem pertinho do chão, depois empinar, fazer a pipa subir o mais alto que pudesse como se fosse um foguete; e ainda, fazer a manobra perfeita, para laçar a outra pipa e cortar a sua linha e a sua alma com a lâmina certeira do cerol. Quando isso acontecia, arrancavam-se aplausos e gritos eufóricos dos outros garotos, enquanto o infeliz que tivesse a sua pipa derrubada sairia às pressas na esperança de pegá-la de volta. Mas isso quase nunca acontecia, porque os meninos pequenos que ficavam de boca e olhos abertos, vigiando as pipas no céu, sempre chegavam primeiro e depois trocavam as pipas laçadas, por balas, pirulitos, chicletes com os meninos mais velhos que as colecionavam.
       Eu estava tão feliz, já tinha laçado duas pipas e uma arraia, até que o Sidnei, numa manobra incrível, surpreendeu-me e fez a minha pipa dançar à deriva um balé desengonçado de frustração e despedida e ir caindo até sumir por trás de uma floresta de eucaliptos que ficava há um quilômetro dali. Nessa hora não tem como disfarçar, a decepção é muito grande: ter uma pipa laçada era como ter perdido uma batalha e, por isso, teria que conviver por alguns minutos com a idéia de que era o mais fraco. E ainda tinha que engolir o sorriso prepotente que cobria a metade da cara achatada de nordestino do Sidnei, que, apesar de ser um dos meus melhores amigos, me deixava puto de raiva, porque ele sabia como poucos tirar um sarro. No entanto, não fui atrás daquela pipa. Raras eram as vezes em que eu ia. Pra mim, uma pipa, uma vez derrubada, jamais seria a
mesma... Eu acreditava que as pipas tinham sentimentos e, como eu, elas eram muito orgulhosas: uma vez abatidas, derrubadas em pleno vôo pelo fogo inimigo, nunca mais voariam belas e majestosas por aqueles céus onde por algumas horas triunfaram como um destemido pássaro guerreiro...
       Nas ruas baixas, os meninos pequenos corriam freneticamente por entre os becos, entrando de casa em casa, de quintal em quintal, anunciando que alguma coisa muito grave estaria acontecendo na fronteira sul do Capão. Então, um dos pequenos atravessou o campo correndo aos berros convocando a todos para mais uma batalha. Descemos correndo, gritando como índios palavras de ordem: “oba! vai ter porrada! vão ver o que é bom, ninguém se mete com os meninos do Capão”. Quando chegamos ao campinho de grama rala, cuja dimensão era de mais ou menos uns trinta metros na divisa do Capão com o jardim Ângela, a pivetada já tava toda ouriçada. Na distância de mais ou menos um metro que separava um bando do outro e, pra minha surpresa, o motivo da disputa era a minha pipa azul, que repousava intacta na grama seca e rala daquele campo de tantas batalhas. Os meninos maiores de ambos os lados discutiam quais seriam as regras do duelo. Dificilmente todos os meninos brigavam ao mesmo tempo, quase sempre escolhia um pivete de cada lado, de mesmo porte físico, pra que numa briga decidissem com qual bairro ficaria a pipa.
       Num primeiro momento, pensei em me esquivar, sair de mansinho sem que ninguém percebesse, evitando assim ser o escolhido. Eu sabia muito bem como eram aquelas brigas, já havia participado de duas até então, tendo ganhado uma e perdido a outra. E quando se perde uma briga dessas, se já não bastasse todas as porradas e a humilhação que lhe impôs o seu adversário, ainda tinha que se enfrentar o terrível e covarde corredor polonês, onde os garotos do seu próprio bairro, formavam duas colunas, posicionados de frente uns para os outros, iniciavam de forma decrescente pelos meninos mais velhos até finalizarem com os meninos pequenos. Eram no mínimo quinze garotos de cada lado, e o perdedor tinha que entrar no corredor do lado dos meninos mais velhos e debaixo de cascudos, pontapés e muita zoação, tentar a todo custo e se possível bem rápido chegar ao outro lado. Lembro-me de ter ficado com a cabeça e o corpo todo doendo por pelo menos uma semana. É bem verdade que alguns garotos perdedores não precisaram enfrentar o corredor polonês, porque saíram do duelo desacordados; todavia, esses garotos carregavam para sempre estampados em suas testas o rótulo impiedoso do fracasso.
       “Vai lá Miguel, enche aquele pivete de porrada e recupera a sua pipa”, falou-me Hugo, um garoto de mais ou menos 17 anos de idade, forte como um touro e que comandava os meninos mais velhos do bairro. Talvez, eu deveria mesmo ter ido embora, era óbvio que eu seria lembrando, sendo eu o dono daquela maldita pipa; e agora nada seria forte o bastante pra me livrar daquela imprevisível briga, nem mesmo o fato de eu ter apenas dez anos de idade e de ser apenas uma criança me faria escapar. Em seguida, ora um ora outro, os garotos iam enfiando anéis nos meus dedos, anéis do Batman, de Caveira, do Fantasma, três até quatro em cada dedo; todos conseguidos nas embalagens de chicletes, que era a maior onda entre a garotada. Entretanto, aqueles anéis eram armas poderosas, traziam nos olhos de cada herói uma pedrinha de cristal muito bem afiada. Bastava uma única porrada bem dada na cara, pra se arrancar sangue. Senti que não haveria mais jeito de escapar. Era eu que novamente estaria naquele ringue improvisado, feito sob medida para o bom divertimento de todos aqueles garotos que estavam de fora da briga. Contudo, eu estaria no centro daquele ringue e, pela terceira vez, poria a minha cara na mira de outro garoto, que, por certo, defenderia a todo custo a mesma causa: vencer ou sofrer eternamente as conseqüências de uma derrota.
       Olhei uma única vez nos olhos negros e confusos daquele garoto, depois parti pra dentro dele como se o mundo se apoiasse nas minhas costas, acertei um soco bem no meio da testa dele e, enquanto ele procurava a melhor maneira de se equilibrar, eu desferi em seqüência e de uma maneira tão violenta e rápida quatro socos que o atingiram no nariz, na boca, no estomago e finalmente no queixo, fazendo com que aquele pobre garoto caísse estatelado no chão como uma fruta podre. Então, os meninos do Capão ergueram-me em seus ombros como se erguem um troféu após a conquista de um campeonato, e, com a pipa azul em minhas mãos, fui descendo as ladeiras estreitas do bairro, na certeza de ter sobrevivido há mais uma batalha... Chegando à minha casa, minha mãe gritou o meu nome desesperada:
       “Miguel! O que foi que aconteceu filho? Que sangue é esse em suas mãos, olha a sua roupa filho! Todo sujo de terra e sangue...” Só então, me dei conta de que o sangue daquele garoto estava em minha roupa e em minhas mãos, como uma tatuagem feita a contragosto, marcando pra sempre a minha alma...