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O segredo dos vivos

Tânia abriu o guarda-roupa de sua mãe e tirou de dentro um lençol branco cheirando a flores. Olhou para os lados. Seus pais estavam no banheiro, a luz estava acesa. Segurou o roubo entre as mãos e correu até a porta do quarto, rápida e magra. Então rumou para o quartinho dos fundos, onde ficavam uns livros velhos que ninguém lia, os pneus de uma moto que o pai tivera, espelhos quebrados, coisas velhas e tralhas assim. Lá era bom porque tinha privacidade e a mesa, a mesa redonda era fundamental. O lençol acabara de ser adquirido, via roubo da mãe, o copo Selma ia trazer na sexta. As velas eram comigo.

Tudo começara quando o dr Paiva chegou da Europa, causando grande furdunço no vilarejo com suas conversas. Ele era médico, passara uma temporada na Rússia, e voltou com umas déias de viagens astrais, espiritismo, experiências e histórias que nossa infância não compreendia, mas deixavam as pessoas constrangidas e o padre possesso. As meninas e eu estávamos na bodega um dia e ouvimos ele comentar como se faz a tal mesa pra chamar espíritos. Talvez elas até já fossem feitas na cidade àquela época, mas ouvir aquilo nos motivou a reproduzir uma para nós.

Selma fez questão de trazer o copo. Era a cética, e resolvera participar só pra provar o quanto estávamos perdendo tempo. Chegaria na sexta, junto com Débora, a mais medrosa de todas, Inês, que era filha de médico e falava “ectoplasma”, minha irmã, eu e outros personagens dispensáveis, porque,como as turmas eram grandes, tinha sempre gente menos interessante.

Na noite marcada, Selma roubou um copo do bar de seu pai e rumou para a casa de Tânia. Eu e minha irmã viemos depois, chegaram os outros e Inês veio falando do “ectoplasma”. Ninguém ali sabia o que era “ecto”, muito menos “plasma”. Perguntamos a Inês.
- Ah, deve ser um fantasma.
- E por que não chamar só de “fantasma”?
-Porque ectoplasma parece que só aparece em foto.
- Whatever – essa era Rita, tinha aulas de inglês – vamos chamar o espírito.

A gente se juntava em redor da mesa e convocava alguém. Geralmente, eram pessoas da cidade mesmo, conhecidas e que haviam falecido nos últimos 5, 6 anos, eram os defuntos dos quais podíamos nos lembrar. O copo não mexia de jeito nenhum. Mas Tânia dizia que era por falta de organização. (Caíamos na risada direto e o espírito, certamente ofendido, não vinha. Suponho que algumas coisas nunca mudem, e, nesse mundo ou no outro, as pessoas gostem de ser respeitadas.)

No terceiro encontro, Tânia convocou o espírito de Tota, um mecânico da região(Deus o tenha). Perguntamos se ele estava ali e ficamos olhando o copo. Pois o copo mexeu. Não acreditamos e repetimos a pergunta. Mexeu de novo. Ficamos nervosas, dissolvemos a mesa e deixamos pra continuar na sexta seguinte.

Débora ficou querendo desistir. Disse que a avó lhe contara histórias sobre encostos, espíritos em geral e que preferia não mexer com as almas.
 - Vem cá, vocês acham que céu é agência de turismo, pra alma ficar indo e voltando?- obviamente, Selma.
- Você fala grosso assim porque não sabe das coisas... Me contaram que um homem que vê espíritos entrou na casa de dona Dora e disse que era pra ela sair imediatamente, porque as formas da casa convergiam energia negativa pra quem ficasse dentro...-obviamente, Débora.
- E aí, Débora?
- Aí, minha filha, ele disse que, com aquela arquitetura, a casa tinha sido projetada pra matar. E que o canto de pior energia era o banheiro. Em redor do sanitário ele viu uma orgia de almas, colocando o dedo na garganta e vomitando no sanitário.
- Vomitando... Alma come? - Selma não desistia.
Rita contou a história da cobra preta, que o tio dela contara que a avó dele estava dando de mamar e adormeceu.Quando acordou, o bebê estava no chão e a cobra mamava nos peitos da mulher. Também foi contada a história do rapaz que passara a noite inteira dançando forró com a prima de não sei quem, e, quando a moça ligou no outro dia, a mãe do rapaz atendeu e disse que ele tinha morrido há dez anos. Isso fora o estranho caso daquele monstro, anomalia genética que nascera num hospital, uma criança bizarra, com pêlos na bunda e um rabão, dentes horríveis, e a mãe morrera do parto. O médico que fez o parto segurou o menino pelo rabo e disse: que criança feia! Então o ser virou o pescoço, os olhos se estreitaram e ele falou: “feia vai ser a chuva do dia 26”. Aí soltou um risinho cínico e expirou. O médico morreu na hora, uma enfermeira enlouqueceu e outra, sortuda, escapou pra contar a história. Mas com seqüelas horríveis. Perto disso, os vultos, sombras e sussurros estranhos que passamos a perceber eram nada. Porque passamos mesmo a ver e ouvir coisas, sabe? Barulhos antes inaudíveis que nos pareciam, agora, diálogos, sugestões de formas humanas em cantos de parede, sensações de estar sendo seguido e paranóias assim faziam parte do cotiano, agora... Tudo isso nos alterava no íntimo, mas ao mesmo tempo instigava a prosseguir, e continuávamos.

É que, agora, os copos mexiam. Alguns dias não, outros sim. Ás vezes andavam centímetros, ás vezes apenas tremiam, e, se o espírito estivesse irado, flutuavam. Ficávamos excitadíssimas. E Tânia começou a tirar da jogada quem era muito pequeno, porque podiam dedurar.

A brincadeira acabou definitivamente quando Inês resolveu conversar com a alma de Seu Severino, um antigo empregado de sua casa. A penumbra estava ótima, o cheiro aromático de incenso roubado preenchia a sala. Invocamos no ritual de sempre, sérias e concentradas. Depois:
 
- Seu Severino, o sr. está aí?

E o copo mexeu. Hora de fazer a pergunta.

- Seu Severino... Responda COM SINCERIDADE: era o sr que roubava os cocos do sítio de papai?

Explodimos em risadas. Tânia disse que não ia brincar nunca mais, porque a gente não levava a sério. Foi todo mundo pra casa.

Passei alguns meses ainda me perguntando: que força era aquela que fazia mexer os copos? Existiriam mesmo os espíritos? Meses depois, Selma chegou triunfante na pracinha, pois descobrira a origem da tal força que fazia mexer os copos: não vinha do além, e sim da mãozinha de Rita, que dera um jeito de implantar um ima no copo e mexia com ele por baixo da mesa. Ridículo, não é? Não quando se está cego pelo deslumbramento.
 
Mas tava explicado o que era o ectoplasma, o fantasma, o espírito, o escambal. Só não tava explicado que chantagem Selma utilizara para fazer Rita confessar. Para as religiões espíritas, todo meu respeito. Mas, nesse caso, foi o segredo dos vivos que permaneceu em aberto.

 
Jéssica Callou
Enviado por Jéssica Callou em 17/02/2007
Código do texto: T384771

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Sobre a autora
Jéssica Callou
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 33 anos
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Jéssica Callou