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O RETRATO DA TRAIÇÃO

Eu já a havia visto sair daquela casa com uma tela, não era a primeira vez; talvez já uma duas vezes. Na casa, que ficava a um quarteirão da minha, morava um rapaz, sozinho, que segundo soube, através de outras pessoas, trabalhava no fórum, mas eu nunca tinha conversado com ele, nem mesmo sabia seu nome.
Desta vez que a vi saindo de lá, eu estava passando em frente da casa, então parei-a e pedi-lhe para ver a tela. Era um retrato dela, sem dúvida nenhuma, qualquer um reconheceria, pois estava perfeito, parecia até uma foto. Ela devia estar entre seus trinta e cinco a quarenta anos, não mais que isso. Era de uma beleza comum, nada excepcionai, cabelos e olhos castanhos, num meio tom entre o claro e o escuro, as maçãs do rosto salientes, nariz afinalado. Era alta, devia ter quase um metro e oitenta, tinha um andar elegante. Estava vestidas bem despojadamente, com uma camiseta regata vermelha e uma saia jeans, um pouco acima dos joelhos. Calçava um tamanco vermelho, e uma bolsa de couro vermelho completava o conjunto.
Eram seis horas da tarde, a rua estava movimentada com pessoas e carros que iam e vinham, voltando do trabalho para casa. Um menino passou correndo entre nós e esbarrou na tela, derrubando-a no chão. “Seu peste! Se você estragar meu quadro eu te mato!”, ela gritou e abaixou-se para pegar a tela. “Essa gente não tem cuidado mesmo”, ela disse, depois se virou para mim, “Ah, você pediu para ver, né? E então, gostou?”. No desenho, ela estava usando um chapéu e segurava um buquê de flores coloridas. Embora a tela fosse grande, era um desenho apenas do busto. “Sim, gostei muito. Está perfeito”, disse-lhe, e continuei, “Quem fez? Deve ter sido algum artista plástico, pois está muito bem desenhado e pintado”. Ela fez um movimento brusco para desviar a tela de outro menino que vinha correndo, então me olhou, deu um sorriso e disse, “Não, não foi nenhum artista plástico que fez isto...”. Ela ia continuar, mas eu a interrompi, “Não, então quem foi? Vou pedir pra essa pessoa fazer um quadro meu também”.Ela abriu a porta do carro que estava estacionado em frente à casa, colocou o quadro no banco de trás, fechou novamente a porta, depois virou-se para mim, “Quem pintou este quadro para mim, e também o s outros que tenho em casa, foi o Ricardo, meu amigo que mora aqui nesta casa”, ela jogou a bolsa dentro do carro, pela janela, “mas ele não é artista plástico”. Novamente a interrompi, “Mas como ele consegue fazer um trabalho assim tão perfeito?”. Ela encostou-se no carro, “Ele gosta de pintar, sempre gostou. Mas faz isso somente por hobby”. Olhei no relógio para ver as horas, então lhe perguntei, “Ele trabalha em que? Me disseram que ele trabalha no fórum, é verdade?”
Nesse instante ela olhou para seu relógio e disse-me que tinha que ir embora, que já estava atrasada. Respondeu minha pergunta, já do outro lado do carro, na rua, abrindo a porta, “Bem, na verdade, ele está no fórum como estagiário; ele estuda Direito”. Antes que ela entrasse no carro, fiz-lhe outra pergunta, “Será que ele pinta um quadro para mim?”. Ela voltou para a calçada, aproximou-se de mim e disse, “Acho que não, porque ele não pinta quadros para outras pessoas, só para ele mesmo”.Olhei bem para ela e perguntei-lhe, “E como que ele fez este para você? E já vi você sair daqui outras vezes, com outras telas também”.Ela deu uma gargalhada e, num tom de voz mais baixo, quase sussurrando, disse-me, “Ele é muito meu amigo, e está me ajudando a usar isto como uma desculpa”. Olhei-a espantado, “Como assim... desculpa pra que?”. Com calma na voz ela respondeu, olhando-me fixamente nos olhos, “Como uma desculpa pra trair meu marido. Digo a ele que venho aqui, que preciso ficar aqui a tarde toda pra posar para que o Ricardo possa me pintar, mas na verdade não fico. Trago uma foto minha para o Ricardo e ele pinta olhando para a foto, e eu saio com um outro cara que eu conheci faz mais ou menos dois meses. Depois venho aqui, pego o quadro e dou de presente para meu marido. Ele adorou os outros quadros que eu já dei pra ele. São os retratos da minha traição...”. Deu a volta no carro, abriu a porta, entrou e foi embora.
Duas semanas depois, eu a vi novamente sair de lá com outra tela.
Erik McArthedain
Enviado por Erik McArthedain em 14/03/2007
Código do texto: T412298

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Sobre o autor
Erik McArthedain
Bariri - São Paulo - Brasil, 51 anos
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Erik McArthedain