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Ás vezes o tempo para


       Era um Domingo, chovia muito e da minha janela eu observava as poças que se formavam em frente a minha casa. Como as lâmpadas se ascendem na cabeça dos personagens dos desenhos animados uma iluminou-se acima de mim: “Preciso vê-lo!”, e de repente eu já tirava do meu guarda-roupa as peças que mais me agradavam e que eu não conseguia ficar longe por muito tempo. Como eu disse chovia, mas eu enfrentaria a neve para vê-lo novamente. Desci as escadas com um grande sentimento pulsando forte em meu peito, na verdade era um misto entre a alegria de saber que em breve o veria e a ansiedade de saber se estava bem, se sentiu minha falta e se estaria da mesma forma que eu estava se soubesse de minha chegada.
      Corri para a ferrovia e queria que ao invés de correr sob os trilhos aquele trem voa-se para que eu o encontra-se de novo. Horas intermináveis. Dizem que quando se ama e anseia algo os segundos são minutos, os minutos são horas, as horas são dias, os dias são semanas e as semanas são meses e mais meses formando anos, décadas e séculos. Eu o queria perto o mais breve possível e então meu coração disparava mais a cada trecho que aquela máquina avançava. Por um momento achei que meu coração sairia pela boca literalmente.
       Em minha mente rodava um filme de todos os momentos que passei ao seu lado. Os sorrisos, as conversas sérias e decisivas , os ensinamentos recebidos e transmitidos a ele. Como eu o amava, como ele era sempre vivo e crescente dentro de mim, precisava chegar logo e não só relembrar-me de nossos momentos.
       Enfim já podia observar a plaquinha “Bem Vindo a Villa di Sordy” aquela vila de sorte não mudava nunca, as pessoas estavam exatamente como eu as deixei. Seu José da banca de jornal, nem me reconheceu, talvez os anos fizeram comigo o que não fez com eles. Mas as pessoas mudam e isso valia para todos exceto o povo humilde daquela vila. “Será que ele me reconheceria ao primeiro olhar?” questionei-me aflita e de encontro respondi: “Não, ele não pode deixar de saber que sou eu ao primeiro relance, e aliás nem estou tão diferente assim, Seu José que já esta mais velho e não deve Ter muito espaço em sua memória para recordar-se de mim”.
       Andando um pouco eu já estava na velha ruazinha calçada com as mesmas pedrinhas que me faziam lembrar de sua insistência em me dizer que aquelas pedrinhas tinham um nome e era paralelepípedo. Achava o nome muito complicado preferia chamá-las de pedrinhas. O portão verde-escuro descascava-se pelo ferrugem e pelo tempo mas ainda era o mesmo com seus detalhes e suas voltas. Bati. Parecia que não havia ninguém lá dentro, mas ao invés de desanimar-me agarrei-me á esperança de que estava enganada e apenas ele não me tinha ouvido. Bati novamente e senti minhas preces atendidas, alguém havia, pois ouvi sons de esbarrões em móveis e logo pensei: “Deve ser ele, sempre atrapalhado...” e me peguei parada com um sorriso bobo nos lábios, os barulhos estavam cada vez mais fortes e os do meu coração também.
       Era ele e estava mais lindo do que nunca trazia estampado em seu rosto as marcas do tempo, mas era ele. Mesmo ultrapassando seus limites correu ao meu encontro e os degraus que nos separavam tornavam-se rampas de tão rápido que ele as descia. Me deu um abraço forte e de seus olhos rolavam lágrimas de felicidade. “Você veio! Você chegou!”, Ele gritava eufórico. Sem demora me colocou para dentro e começou a me contar tudo o que houve desde que parti, me contou quão foram suas lágrimas, tristezas e saudades desde quando com um lenço branco acenou para mim na mesma estação que eu desembarquei hoje. Eu não tinha escolha, precisava ir para a cidade, meus sonhos ultrapassavam os limites daquele vilarejo. Mas ele entendia, sofria mas entendia tudo pois me amava muito.
     Depois das graças do destino éramos só nós dois depois de meu nascimento.Unidos pelo elo que nunca se rompe: o amor. Meu ídolo, meu espelho feliz com minha chegada e naquele instante o tempo parou para que eu observa-se em silêncio a minha frente meu velho pai.

Thatianny Gonçalves
Thatianny Gonçalves
Enviado por Thatianny Gonçalves em 21/07/2007
Código do texto: T573260


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Sobre a autora
Thatianny Gonçalves
Campinas - São Paulo - Brasil, 33 anos
5 textos (156 leituras)
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Thatianny Gonçalves